Wednesday, October 21, 2009

***

Eu que já não espero teu carinho

veria teus lábios rosa desencadearem meu sorriso?

Aquele que já não te espera

sentiria teu perfume de flor

em suas curvas de flor?

Ou cuspiria um escarro enquanto você passasse

e sentiria uma asa de mim não mais bater

enquanto tua postura decidida se distanciasse?


Eu que só sou feito de vento e de mar;

veria teus lábios rosa

teu horizonte rosa

e me diluiria e escorreria

descendo ao chão

colorido pra teu prazer.


E eu que nunca mais seria mar

te veria uma vez mais em azul ou rosa,

me seqüestraria em tuas folhagens

e nunca mais seria livre de suas pétalas.

Eu que já não deixo as águas por você

nunca mais seria mar

nunca mais ouviria ar

viveria afogado

se ao menos te arrastasse

ou te afogasse

pra bem fundo

e bem distante

do meu mar,

do teu ar.


No imenso azul não veríamos a luz solar

eu não me secaria e você não voaria.

Não te aprisionaria e você não voaria,

não enlouqueceria e você não voaria,

não despertaria: e você nos voar iria.




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Wednesday, July 8, 2009

***

Cada dia que passa fico mais distante do mundo.
Como se estivesse em um barco à deriva.
Que vai indo sozinho, pela inclinação das ondas
e pelo sopro do vento, pra uma distante ilha deserta.
 
Onde só então poderei me exilar. Só. Eu e o oceano
com seus braços largos e profundos, que estarão prontos
para me abraçar e fatalmente me calar num cálido abraço
fraterno. Sentirei as ondas do mar, navegarei sozinho
 
no mundo e na escuridão azul. Baterei asas nas profundas
águas, me chamarão mártir e sentirei plenitude ao não
poder distinguir minhas lágrimas das águas do mundo.
Voarei mais uma vez e aterrissarei no azul do mar.

    Lucas Lins.

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Saturday, June 13, 2009

O vento

I
 
Sopra,
entra e sai da atmosfera.
Toca nossa pele e
frui em vida, espera.
 
Flui no rosto.
Sobe nas nuvens,
então cai, espera.
 
Vento azul suave,
balança as folhas.
Se quer, torna-se fumaça.
Vicia, espera.
 
Como fumaça.
Entra e sai da vida,
sobe e cai das nuvens,
desestabiliza no ar e
desaparece.
 
Imune,
disforme e adaptável,
escorregadio desaparece.
 
II
 
Meus limites se evaporam
escapo pelos meus e pelos teus poros.
Ar pesado, caio no chão e
sedimento, em cortina de fumaça
escorro pela tua janela,
penetro pelos teus caminhos,
alcanço tua alma,
mas já escapei pelas tuas frestas.
Desaparece.
 
Encontro-te nas nuvens,
eu dentro de você.
Desapareço na frente dos teus olhos.
Não furacão, brisa. Vou caminhando,
subindo ou descendo
diluindo, impregnando,
desaparecendo.
 
Aparece
sorri nos teus lábios
borra sua face
balança nossas folhas.
Danço com você e a borboleta,
giro, rodopio.
Sou presente, sou vento.
Desapareço.
 
Há frio dentro e fora de mim.
Apareço e padeço,
voo junto com os carcarás de mim,
desapareço.
 
Em grande matilha,
com toda minha orquestra,
com todas minhas cores,
viro de costas, cabisbaixo
desarmado, desamado
sopro e desapareço.
 
Desço uma grande rua em mim,
vento-me cidade abaixo.
Em meu subúrbio:
esqueço,
apareço e
desapareço.

 

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Wednesday, February 25, 2009

O fauno e a maçã.

Lua rosa e máscaras de carnaval e
montanhas plácidas de pele suave, ela.
Penetrarei no seu abismo e minha repetição
irá fazê-la cantar.
Como faunos fazem.
Ela cantará bonito
o canto dos anjos,
a maior beleza que jamais escutarei
da sinceridade dos espólios pessoais da cama.
Nossa cama.

Afogado na embriaguez de um sentimento
ou tolo preso na loucura de um balé de fumaça:
Tudo.
Ou nada.
Flutuaremos abraçados no chão gelado
e tudo terminara em brasa
enquanto a brasa termina nos lábios.
Enlouquecer e seus rituais pessoais:
abraçar o oceano e nos afogar em fumaça e espumas de sal.
E nunca, nunca mais respirar.

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Friday, February 6, 2009

Mares e morros.

O castanho flutuando sutil no mar branco dos olhos,
praias em pálpebras atingidas em ondas espumantes
pelo mesmo castanho que rodeia em curiosidade.
Tal castanho grande transforma em contraste:
a mais brancura do rosto da menininha com o castanho
e
aquilo que reflete nos olhos.
Movimento rápido dos olhos capta paisagens ainda raras
e extraordinárias, morros em movimento.
Mares em morros mineiros e
oceanos úmidos no globo dos olhos que refletem o céu.
A doçura e simpatia da inocência faz
os dedos delicados quererem alcançar tudo.
E toda satisfação e sorriso que nasce do então mundo novo
é metabolizada e enfileirada e processada em espasmos de criação:
a menininha sentada no ônibus olhando pela janela
canta uma melodiazinha de afeto e natureza.
 
E os morros e os mares dançam ao ritmo.
 
            Lucas Lins.
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O estilhaço dela.

O estilhaço dela fragmentado em violência
e projetado contra mim
na mais pura e ardida versão dela –
aquela que ela mais odeia
arremessado contra meus olhos e
boca.
 
Estilhaço gritado!
Que ela se desfaz chorando por ódio
do pecado que pedaça.
Se desfaz,
desliza,
e me depedra
com o que surge do que mais fez mal a ela:
a rendição ao prazer.
Atingido, me glorifico com mais que um sorriso.
 
Por ser alvo do
estilhaço dela
que enquanto ela arremessa, goteja em mim.
O fragmento violento do que mais odeia aos meus lábios é orvalho
e me sacio de boca na explosão.

            Lucas Lins.

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Wednesday, January 21, 2009

Onde se some o que nele caiu.

Um velho amigo me chamou para visitá-lo. Decidi ir no final de semana, no domingo, quando não teria que me preocupar com ir trabalhar e com o horário de voltar, subi no ônibus eram três da tarde, o céu estava cinza e vai chover, ele aluga um quarto num cortiço em outra cidade, um pouco afastado do caos dos prédios do centro de Campinas: um bairro com uma seqüência de pequenas casas amontoadas construídas em modelo colonial, ainda da época do café. No email que me enviou: “4 horas aqui em casa, me espere do lado de fora e não toque a campainha”. Cheguei lá e esperei, atravessei um labirinto de pequenas casas amontoadas construídas em modelo colonial, casas cinza, ruas estreitas, calçadas pequenas, vai chover. Esperei ele do lado de fora como combinado, ele não estava me esperando, mesmo com meu atraso ele não estava lá, esperei um pouco mais depois decidi chamar por ele. Ninguém atendeu. Cansei de esperar e comecei a descer o labirinto em direção ao centro da cidade. Enfiei a mão nos bolsos como quem enfia a mão num abismo, já caiam algumas gotas de chuva e a rua me sorria um sorriso cinza, era apertada e de paralelepípedos tão cinzas quanto o céu que parecia de nuvens de aço. Desci a rua devagar, olhando pro chão e com as mãos apertadas no bolso da calça procurando lembrar em qual das ruas tinha virado errado no minúsculo labirinto. Sentia-me melancólico e sozinho, e o vento frio fazia as primeiras gotas – escassas e irregulares – geladas de uma maneira diferente. Queria realmente ver o tal velho amigo, mas me conformei com a ausência dele.

Virei mais uma das esquinas ainda com a mão no bolso e olhando pro chão, a atmosfera estava tão leve, mas depois da decepção da espera me parecia tão pesada. Pesada o suficiente pra ter que fazer força pra respirar aquele ar nefasto. E aquelas casinhas naquelas ruinhas eram tantas e se repetiam tanto que o tempo parecia pa-ra-r. E em uma dessas ruas pequenas, cercado dessas casas pequenas, enquanto dava um desses passos rápidos e largos que medem a ausência de tempo nas ruas de paralelepípedo, eu ouvi através de uma janela aberta das várias casas de vários andares: um piano! As notas singelas escorregavam para dentro de mim, podia sentir elas suaves com textura de lã atravessando meus ouvidos, me atingindo. Ouvir a primeira nota foi como cair num abismo; a segunda então foi como compreender o abismo; e a terceira foi como não querer sair do abismo. A quarta e todas as outras notas foram a confirmação de uma extrema carência.

Um sentimento absurdo desabrochou em mim. Fazia-me sentar ali na calçada curta pra escutar as frases do piano – talvez teclado. Frases repetidas e desconexas de quem está aprendendo, mas ainda assim frases de piano. Piano de cauda! É óbvio que um piano de cauda não caberia na humilde casa no primeiro andar bem abaixo da janela. Provavelmente era um piano de apartamento ou um teclado. Mas aos meus ouvidos era um piano de cauda, o piano de cauda com o som mais delicioso do mundo, que a chuva e a minha solidão o transfigurava. Sem dúvida transfigurava, soava lindo.

Sentei-me ali então como se as escalas simples me abraçassem e me protegessem da chuva e do frio e me seduziam pra não deixar nunca mais o abismo. Foi tão estranho ouvir aquelas notas. Presenciar a ruptura grotesca entre os cinzas da rua que nunca passa carros com o doce aroma de flor daquelas notas. De certo não eram tão cheirosas, mas estavam.

Ali, sentado na calçada curta compreendi que não eram só as casas coloniais que tornaram-se cinzas e amontoadas. Levantei e andando na chuva fui procurar o pianista em mim pra então condenar leitores ao abismo.

             Lucas Lins.

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Friday, January 2, 2009

O estilhaço dela.

O estilhaço dela fragmentado em violência
e projetado contra mim
na mas pura e ardida versão dela –
aquela que ela mais odeia
arremessado contra meus olhos e
boca.
 
Estilhaço gritado!
Que ela se desfaz chorando por ódio
do pecado que pedaça.
Se desfaz,
desliza,
e me depedra
com o que surge do que mais fez mal a ela:
a rendição ao prazer.
Atingido, me glorifico com mais que um sorriso
não pelo ódio dela (nunca!)
não pela perca dela (nunca!).
 
Mas por ser alvo do
estilhaço dela
que enquanto ela arremessa, goteja em mim.
O fragmento violento do que mais odeia aos meus lábios é orvalho
e me sacio de boca na explosão.
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Monday, December 29, 2008

Insônia.

A pessoa que não existe deita-se ao meu lado,
através da luz da janela, pelo luar distinguimos formas:
uma canção intensa, mas silenciosa soa
na escuridão.
 
A noite é quente.
Sento na cama, percebo o quão péssimo padeço.
A cabeça desolada e encostada na parede pensa
quantos anos-luz estou de casa.
 
Quantos?
Aquele que não existe diz
que não estou há anos-luz de casa,
mas apenas uma estrela de distância.
Aquela distância curta e incomensurável de cinco palmos
há um grito de distância,
um cigarro, um abrolho,
mais uma xícara de café,
uma vela, um suspiro,
uma cor.
 
A pessoa que não existe sou eu
refletido na madrugada,
preso no vento
e no ventre.
Calculo a possível distância entre mim e eu,
mas é só mais um verso que cai chorando…
pelos sorrisos e olhos que me vem e vêem
a singela luz de uma vela,
um latido quebradiço na madrugada,
a insônia,
a fome e um piscar de olhos gritam a imensa fragilidade da vida
e mais um poema.

            Lucas Lins.

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Sunday, December 14, 2008

* * *

A solidão se multiplica,
te consome. De olhos abertos vejo uma parte de mim morrer.
Aqui, junto de mim, onde nada é verdadeiro,
se desfalece de mim eu mesmo,
me separo e esfarelo em pó,
um pó ocre,
que as chuvas vêem e levam sem motivo algum
deixando poças sujas e marrons e sombrias,
onde será que me perdi?
Nas poças ou nas cores?
Sem saber se já me possui, me perco.
Como posso ser minha própria peste!?
O ar é pesado, já não somos criminosos.
Não suporto meu peso,
esse peso enorme que cresce enquanto
viro pó e me torno chuva…
sem nunca ter sido nuvem.
 
Nego a vida de porcelana,
faço como outros milhares
milhares!
Uso o alfabeto secreto,
arrisco tudo por esse meu pó! Este
que cai de mim partícula à partícula
desesperadas por vida,
cada uma gritando e chorando, desesperadas por vida!
Me despedaçando…
Se vou sangrar eu mesmo me chupo,
nenhum vampiro me tocará
me aplaudirá!
Esse meu espólio,
esse meu suor, esse meu pigmento colore lágrimas!
E será o mais bonito e grandioso que jamais verão.
 
Posso sentir as marteladas esculturais,
o eterno toque, o sopro gélido e…
os olhos de medusa.
 
 
            Lucas Lins.
Posted by L. L. at 20:16:19 | Permalink | Comments (1) »