à fotografia da jovem Kahlo.
monocelha principia;
infante semente tempestuosa
aos catorze já catarse
aos volumosos cachos
e à expressão do cristo no pescoço:
vaidade que destransborda,
recolhe, suga e agujero negro
liberta milhares de pigmeus
figurativos numa singela composição confusa, carrega.
corsa ferida,
sofre pelo brilho fecundo negro
do seu sangue. frígida:
corsa abatida,
sua coroa é seu olhar,
suas cores seu amadurecimento contemplativo ao horizonte.
agora limpa pelo sangue
durma em paz, anjo.
Há 40 e cinco minutos atrás pisava 5cm do solo, flutuando, agora o sangue sujou minhas mãos e espero, espero. esmero o tempo espero que passe que relembre, reconheça, mas não lembro nada até antes da notícia da morte do animal e de nossa intimidade:
hipótese de operação marinha;
submersa na imensidão você
veio a mim. em segundos tua
curiosidade desvaneceu-se em
insônia, pelos olhos costurados
meu carinho não foi suficiente
para curar toda essa vazão:
eu ainda aqui, submerso verso
meu desamparo que só a tu
ampara, enquanto a mim basta
desejar relembrar nosso reverso.
meus órgãos foram de pedra e sal -
na minha segunda infância muito meditei
para que o sangue irrigace meu rim,
meu fígado e meu pulmão; agora já é tarde, nosferatu,
pude ser cúmplice no seu motim
mas agora atravesso-te com minha espada:
tomo o navio e em dois te divido, informante do mal.
tikkun olam : consertar a obra
(recolher do chãos os cacos de nosso passado ancestral
sodomizado pela consolidação da narrativa em periódicos
e arranhacéus: a crise do romance moderno
em nossas camas, florescendo métodos nos lençóis
concerta-se o íntimo em dueto: há sóis)
reitero é importante reativar a circulação
acessar meandros biológicos, veredar-se
pela memória sanguínea: recolher cuidadosamente
os estilhaços de nossos mesmos amores passados
fixá-los ao longa da experiência finita de uma vida.
se nossa dieta diária de venenos nos fortalecer
seremos resistente fortes e merecedores de uma nobre
iluminação biológica: taquecardia e sono eterno.
l. l. Oliveira
Se me lembro bem era um vilarejo e havia o rumor entre os habitantes de que um vampiro nosferatu rondava uma área que é geograficamente parecida com os arredores da universidade onde estudo. Eu e meu amigo Harry muito céticos, mas sedentos de aventura fomos investigar. Chegando na escuridão da mata nós vimos o vampiro, estávamos escondidos e na floresta, caçando um vampiro. O Harry se aproximou dele e com seu jeito analítico se voltou pra mim e disse: Sim é um vampiro nosferatu.
Fiquei em alerta e disse para ele enquanto corria em direção ao vampiro que se mesclava nas sombras e desaparecia pelas árvores às costas do Harry: cuidado, não vire as costas para o inimigo. Acertei ele com um golpe e o imobilizei, com o vampiro imobilizado agonizante no chão da floresta eu não sabia o que fazer. O Harry se aproximou e disse: você precisa de uma faca para degolá-lo. Mas eu não tinha uma faca, apesar de ter o vampiro em minhas mãos. Ele me emprestou a dele e degolei o vampiro.
Entre os índios do planalto boliviano a força, a precisão e a resistência do felino das montanhas é imaginado como o espírito dos guerreiros tribais que possuem não só o treino e potencial militar como o conhecimento físico e geográfico, do corpo e dos planaltos.
Ganhei esse presente no segundo semestre de 2011. Aquele que me deu disse que viu em meus esforços em conquistar minha independência e no exercício de minha vontade o espírito do trabalhador braçal, do guerreiro incansável de todos os dias, imaginado pelos bolivianos como o puma.
É feito com uma espécie de argila ou cerâmica, parece ter sido esculpido e não feito em forma e tem detalhes talhados em linhas. O aspecto xamanístico do pequeno totem aproxima e equaliza em mim, minha personalidade forte, dura e disposta ao trabalho; e o que há em mim de crente e espiritualizado, que curva os joelhos perante aquilo que há de maior.
Eu que já não espero teu carinho
veria teus lábios rosa desencadearem meu sorriso?
Aquele que já não te espera
sentiria teu perfume de flor
em suas curvas de flor?
Ou cuspiria um escarro enquanto você passasse
e sentiria uma asa de mim não mais bater
enquanto tua postura decidida se distanciasse?
Eu que só sou feito de vento e de mar;
veria teus lábios rosa
teu horizonte rosa
e me diluiria e escorreria
descendo ao chão
colorido pra teu prazer.
E eu que nunca mais seria mar
te veria uma vez mais em azul ou rosa,
me seqüestraria em tuas folhagens
e nunca mais seria livre de suas pétalas.
Eu que já não deixo as águas por você
nunca mais seria mar
nunca mais ouviria ar
viveria afogado
se ao menos te arrastasse
ou te afogasse
pra bem fundo
e bem distante
do meu mar,
do teu ar.
No imenso azul não veríamos a luz solar
eu não me secaria e você não voaria.
Não te aprisionaria e você não voaria,
não enlouqueceria e você não voaria,
não despertaria: e você nos voar iria.
Como se estivesse em um barco à deriva.
Que vai indo sozinho, pela inclinação das ondas
e pelo sopro do vento, pra uma distante ilha deserta.
Onde só então poderei me exilar. Só. Eu e o oceano
com seus braços largos e profundos, que estarão prontos
para me abraçar e fatalmente me calar num cálido abraço
fraterno. Sentirei as ondas do mar, navegarei sozinho
no mundo e na escuridão azul. Baterei asas nas profundas
águas, me chamarão mártir e sentirei plenitude ao não
poder distinguir minhas lágrimas das águas do mundo.
Voarei mais uma vez e aterrissarei no azul do mar.
Lucas Lins.
Sopra,
entra e sai da atmosfera.
Toca nossa pele e
frui em vida, espera.
Flui no rosto.
Sobe nas nuvens,
então cai, espera.
Vento azul suave,
balança as folhas.
Se quer, torna-se fumaça.
Vicia, espera.
Como fumaça.
Entra e sai da vida,
sobe e cai das nuvens,
desestabiliza no ar e
desaparece.
Imune,
disforme e adaptável,
escorregadio desaparece.
II
Meus limites se evaporam
escapo pelos meus e pelos teus poros.
Ar pesado, caio no chão e
sedimento, em cortina de fumaça
escorro pela tua janela,
penetro pelos teus caminhos,
alcanço tua alma,
mas já escapei pelas tuas frestas.
Desaparece.
Encontro-te nas nuvens,
eu dentro de você.
Desapareço na frente dos teus olhos.
Não furacão, brisa. Vou caminhando,
subindo ou descendo
diluindo, impregnando,
desaparecendo.
Aparece
sorri nos teus lábios
borra sua face
balança nossas folhas.
Danço com você e a borboleta,
giro, rodopio.
Sou presente, sou vento.
Desapareço.
Há frio dentro e fora de mim.
Apareço e padeço,
voo junto com os carcarás de mim,
desapareço.
Em grande matilha,
com toda minha orquestra,
com todas minhas cores,
viro de costas, cabisbaixo
desarmado, desamado
sopro e desapareço.
Desço uma grande rua em mim,
vento-me cidade abaixo.
Em meu subúrbio:
esqueço,
apareço e
desapareço.
montanhas plácidas de pele suave, ela.
Penetrarei no seu abismo e minha repetição
irá fazê-la cantar.
Como faunos fazem.
Ela cantará bonito
o canto dos anjos,
a maior beleza que jamais escutarei
da sinceridade dos espólios pessoais da cama.
Nossa cama.
Afogado na embriaguez de um sentimento
ou tolo preso na loucura de um balé de fumaça:
Tudo.
Ou nada.
Flutuaremos abraçados no chão gelado
e tudo terminara em brasa
enquanto a brasa termina nos lábios.
Enlouquecer e seus rituais pessoais:
abraçar o oceano e nos afogar em fumaça e espumas de sal.
E nunca, nunca mais respirar.