Sunday, December 10, 2006

Situação singular, única.

Show, música, agitação, luzes ofuscantes dançam no teto, todos dançam em sincronia nesse ritual profano. Do palco, o vocalista agradece a nossa visita, pula e tenta agitar os adeptos daquele salão, salão pequeno e abarrotado de gente. Eu estava lá em baixo, pulando em sincronia, deixando o som fluir pelas minhas veias até atingir o cérebro, até atingir o coração e fazer ele pulsar no ritmo escatológico do metal.

Do meu lado todos param por alguns segundos, como se abrissem uma roda e começassem a analisar o que estava no meio. De dentro da roda, surgem dois marmanjos enormes carregando um alguém que parecia estar desmaiado, é estranho, muito estranho. Quando desmaiamos ou morremos, não adianta cruzar as pernas num bom ângulo, na posição exata em que a coxa fica a mostra e a calcinha fica tentadora, não tem ninguém dentro de você pra te ajudar a esconder aquela parte do seu corpo que você não gosta, ninguém pra proteger o seu penteado e deixar ele intocavelmente bonito, ninguém pra sorrir por você na sua última foto, não tem mão viva pra abaixar a camisa e esconder aquela gordura que salta em cima da sua cintura. E foi exatamente isso que eu vi sendo carregado.

Mas que se dane, o show continua, e continuou. Alguns segundos de: “nossa, será que ele vai ficar bem?”, apenas alguns segundos. Depois todos esquecem e voltam a pular, e a gritar o refrão do hit de sucesso daquela banda. Braços balançam no ar, todos juntos, todos seguindo o que o cara do palco manda, e eu também faço isso.

Fazia, agora me igualei ao que deveria ser, eu lembro de sentir o chão gelado na minha face, e de ter a mão esquerda severamente pisoteada por um ácido fã que estava em sintonia ao ritual dos pulos. Ali capotado no chão, meus olhos piscavam em frenesi, mas mesmo assim eu podia ver os pés saindo e voltando do chão em total sintonia, os pulos ecoavam na minha cabeça, passavam pelo meu ouvido e atingiam com várias marteladas o meu cérebro, meus olhos param de piscar, seria mesmo eu perdendo a consciência em um lugar desses? Eu tinha que piscar, se não piscasse meu olho ia ressecar, e talvez eu até ficaria cego. Me sentindo nela e fazendo parte dela, eu delirava com formas e cores que saltavam na minha visão, eu delirava naquela situação singular.

Esqueço o chão gelado, esqueço a dor no dedo, esqueço não, muito mais que isso, é como se tudo isso deixasse de existir por alguns instantes, como se meu cérebro fosse uma almofada que amortecia as marteladas que agora não ecoavam mais. O meu ângulo de visão muda, e eu agora vejo tudo de cima, vejo até eu mesmo, parece que só agora que perceberam eu deitado. De todas as pessoas que me acompanhavam, apenas um ao menos ajoelhou para tapear meu rosto, exigindo que eu acordasse.

De lá de cima continuo vendo tudo de um ótimo ângulo, o círculo que me rodeava lá em baixo, era menor do que parecia, e longe dali o vocal continuava gritando, e todos continuavam pulando e jogando os cabelos para o além. Alguém me carregou para fora da agitação do show, podia ver o rosto dos caras que eu acompanhava, estavam com cara de dúvida, mas logo tudo passou. Voltaram a pular e a cantar. E só mais tarde descobriram que eu tinha morrido. E eu descobri mais tarde ainda, quando tentei bater na porta do céu, e não atenderam.

Do lado de fora eu imaginava o que tinha depois da porta, da muralha. Em pensar que um terreno é aquilo que tem um dono, e que tem uma cerca. Quem é o dono do céu? Eu disse dono. Qual a cerca do céu, o que separa o céu, do limbo, o limbo do céu, e o céu do inferno? Será que essa cerca é alta o suficiente pra eu não conseguir pular? Acho que sim. A menos se eu estiver no céu e quiser pular pro inferno. E quem é rejeitado do céu, vai pra onde? Não me diga que se eu for rejeitado ali, cara a cara com a porta, meu próximo destino será o inferno? E se o porteiro não abrir a porta porque não foi com a minha cara? Eu iria pro inferno só por ser feio? Quem deseja a vida inteira a ir pro inferno, e vai pro inferno, estaria no paraíso? Nesse mesmo caso, se ele vai pro paraíso, será que estaria no inferno?

“Ei porteiro, chama o sindico!”

Lucas Lins.

PS: Se a verdade está lá fora. Tenho dó de quem está no paraíso.

Posted by L. L. in 21:14:10 | Permalink | Comments (8)