Um mês e um dia.
Conheço uma mente maníaca, que escreveria um bilhete desejando feliz aniversário, algo bem caprichado, feito com canetas de colorir, com dobras, corações e flores. No envelope, “De: Alguém. Para: Um aniversariante.” Depois de enfeitar o envelope, essa pessoa iria com uma folha de papel, dobrar um aviãozinho. Acoplar o envelope no avião, e decolar ele pela sua janela. Alias, sua janela o leva a qualquer lugar, por que não levar seu avião?
O avião voaria entre epílogos, polígonos e palíndromos. Passaria por florestas densas, por montanhas geladas, iria fazer escolhas sobre seu destino. Iria pensar sobre a farsa que é, e sobre como é veterano, iria conhecer camaleões, e passar também por um ou outro jihad. Conheceria novamente o seu velho amigo, chão de papel, cruzaria até o teto, e pegaria carona com algumas nuvens. Até onde? Ninguém soube, ninguém quis saber. Mas talvez, até…
Até o caminho das mariposas, para alcançar a lua, pelo caminho das cinzas, pelo caminho do tempo, pelo caminho da natureza e da natureza humana, que também está poluído. Cairia nos abismos dos por quês, mas sobreviveria para ver a vela da janela. Rodopiaria para ver alguém se despedindo com a mão direita, e pra ver alguém praguejando contra o pé da má sorte. Veria Cristo sendo crucificado, veria alguém que ele não reconheceu, negando ele três vezes. Veria um cara magrelo meditando de pernas cruzadas em cima do miolo de uma lótus. Veria também, algo mais. E mais algumas coisas a mais.
Veria bêbados cantando a amigos irreais, mas que lhe dão atenção. Também veria os crimes do Jack, em Londres. Todos eles sendo refeitos por um louco. Louco? Descobriria o que é ser um louco, também descobriria que todos somos loucos. Depois, ainda, iria dizer que o cara que definiu loucura, também estava louco. Descobriria ainda mais, que o sindico nós dá sempre atenção, nos é que não damos atenção a ele.
Passaria do lado de uma jaula de ratos, passaria do lado de um aquário que vê vultos e de um cara que perdeu a consciência. Escutaria “I heard it through the grapevine” e dançaria magistralmente a dança das borboletas, e cantaria o refrão “I put a spell on you! Because you are mine!” Dançaria tudo isso em Woodstock, sentiria o cheiro de fumaça e veria uma ou duas mariposas se queimando no momento em que Hendrix bota fogo na sua guitarra. Sem falar na lua maravilhosa que acompanharia ele todas as noites.
Só pra dizer feliz aniversário, ele descobriria tantas coisas ruins da mente humana, descobriria tantas coisas horrendas, e infelizes, só pra dizer feliz aniversário, e pra concretizar um sonho. E talvez até chegaria um dia atrasado, como eu. E eu aqui estaria feliz, muito feliz só por dizer, que eu lancei o avião, e o cartão. Amém.
Lucas Lins
PS: Eu realmente lancei esse avião