Sério, nunca pensei que fosse tão difícil escrever, sempre gostei de imaginar, e escrever não passa de uma maneira de concretizar suas imaginações, concretizar elas em caracteres decifráveis, como uma forma de uma transmitir o que você imagina e fazer alguém imaginar o mesmo. Mas cara, sempre achei que fosse fácil escrever, e quando eu achava isso, eu achava que escrevia bem. Quando me dei conta que era difícil, realmente percebi a realidade, meus textos nunca voltaram a ser os mesmos.
Eu sempre escrevo de noite, tanto porque não tenho tempo pra escrever durante o dia e tanto porque uso o tempo do dia pra pensar no que escrever. A segundo suposição veio a alguns dias, porque eu sempre sentei na frente do computador, e eu sabia o que digitar, sabia o que teclar, mas cara, isso mudou totalmente. E sem querer, mas querendo, eu comecei a passar o dia inteiro imaginando o que escrever. E depois de alguns textos usando minha criatividade matinal eu me liguei. Me liguei que quando você pensa muito só sai bosta.
Depois que eu comecei a pensar no que escrever, eu não desperdiçava nenhuma corrente de raciocínio sempre anotava tudo, sempre. Para depois quando eu tivesse meu tempo, pra assim concretizar minha imaginação do dia e navegar nela, espremendo cada idéia até a última gota. Eu usei essa lista de idéias várias vezes, e só fiz merda com ela. E antes de eu começar a escrever isso que você ta lendo agora, eu percebi onde eu errei. Não adianta fazer lista de idéias, não adianta pensar. Não adianta mecanizar. Tem que fluir.
Simplesmente, fluir.
Eu lembro que quando eu tive a idéia pra escrever o “Ambos os Mundos” eu tava conversando com a Gabriela pelo msn, ela tinha acabado de falar pra mim que não tinha lido uma das minhas histórias porque tinha perdido ela, eu passei pra ela novamente, e assim que passei eu re-li a história, e no final da história eu utilizava o termo “ambos os mundos”, e daí me veio na mente, como um jogo de tetris em alta velocidade, toda a história veio se encaixando, e meu cérebro ruindo, e meus dedos teclando. Só aquele trecho “ambos os mundos” foi o suficiente pra me empurrar abismo a baixo.
Quando escrevi o “Personalidade: Rato” eu tava olhando pra jaula do Sid e do Jim, e sem eu perceber eu tava narrando a história pra mim mesmo, e quando eu me dei conta, eu tava digitando.
Quando eu escrevi o “Sobre defeitos, fúria, sabedoria e… Nuvens” eu tava navegando na internet, e sem querer no Google, eu teclei algo, e a busca me levou pra um site de uma livraria que se chamava “Chão de Papel”. Eu não tive dúvida, me joguei na frente do teclado e a história fluiu.
Porque é bem assim, muitos livros, muitas histórias, contam sobre autores falidos porque não tinham idéias. Pensando assim, eu para me prevenir, comecei a “lista de idéias”, porque assim eu teria um estoque sempre renovado de idéias, mas ai que eu me enganei. Porque não precisamos de uma idéia, e sim de um empurrão. Por acaso você já viu alguma cena em filme ou qualquer lugar, em que uma barragem estava prestes a estourar pela pressão da água. A pressão da água era tanta que chegava a trincar a barragem, e em um último momento, do trinco da barragem salta uma pequena lasca que é o grande empurrão pra fazer a água destruir tudo sobre seu caminho? É exatamente isso que é estar inspirado, é ser a água que corre com a força de um elefante, que só conseguiu partir por uma pequena lasca que saiu do caminho. Isso é fluir. E a “idéia” que nós realmente precisamos é a lasquinha que faz a água escorrer com a força de um animal.
E eu não consigo isso a muito tempo, não sinto mais o ecstasy de escrever feito um louco, dedos dedilhando, olho vidrado, e a janta esfriando do seu lado, pois prefere escrever a comer. A muito tempo eu não sinto o que é isso… Acho que estou falido. Ou, falindo…
Uma vez eu tava vasculhando no Wikiquote, e eu li que uma vez o Picasso disse, “quando a inspiração vier, que me pegue trabalhando!” Cara eu sempre tive medo de não ter idéias, até eu realmente não ter idéias, ai eu percebi que eu não preciso de uma idéia. Eu preciso saber fluir. Ai então a ficha cai, você não tem que saber fluir, você tem que fluir!
Bruce Lee dizia que treinar kung-fu não era “treinar” especificamente, ele mencionava que usar o kung-fu, era ser como a água, era ser leve, era ser robusto, era saber o que fazer (e concluía) era fluir! Como água, então eu pensei. Ai eu imagino como os índios, e todos esses caras de civilizações antigas mencionavam a água como deusa, velho, ai eu tenho certeza, ela não é nenhum um pouco menos digna que vinho ou qualquer outra mistura. Pois, ela simplesmente flui. Simplesmente. Puramente. Inocentemente. Flui.
Meu professor de literatura, Ramon, uma vez estava comentando que tinha parado de escrever o livro que ele estava escrevendo, para começar outro, tudo por que? Porque ele teve uma idéia de um título, era algo como “A Serra das Cabeças Cortadas”. Ai cara eu percebo (ou tento) o quanto é fantástica e necessária a inspiração, pois o professor deixou de terminar o livro pra começar outro tudo pra não desperdiçar a inspiração.
Amigos, vocês não fazem a menor idéia de como é difícil fazer fluir. Porque não se tem que fazer fluir, se tem que puramente, simplesmente, inocentemente… Fluir.
Meu amigo Marcos (e eu também) sempre fomos bem malucos, doidos e especialmente crianças grandes, no nosso trabalho da feira de ciências, eu e ele colocamos um nome enorme no nosso projeto, não era um nome qualquer, era um nome cheio de significados e mistérios. E um fulano ou outro, sempre, sempre, achavam esse nome ridículo. Hoje, eu percebo como é essencial deixar a imaginação fluir levemente, falar besteiras, imaginar porcarias, porque isso é o melhor treinamento para a inspiração, pois de que lugar ela viria se não da criatividade? Ai eu percebo que tenho que fazer mais dessas besteiras, apelidos idiotas como “Não”, atos infantis como pedir esmola no shopping center. Eu preciso imaginar!
Esse mesmo Marcos, uma vez, disse pra mim que ele adorava cozinhar um tal sanduíche, ele me explicou certinho como se fazia, e até mesmo o gosto do troço, ai me lembro que ele disse que tinha colocado um nome no lanche dele. Um nome bem escroto. Eu já sou bem acostumado com as maluquices dele e aceito ele como ele realmente é. Mas cara, se outra pessoa estivesse escutado aquilo, iria rir da cara dele. Mas que grande idiota seria, porque reprimir a imaginação como essa pessoa que iria rir fez, é o maior erro do humano. E o maior acerto, foi o Marcos por nomes malucos nas coisas deles. Não só o Marcos ou eu, to falando pra todos vocês que estão estão lendo essa baboseira, NÃO DÊEM LIMITES PARA VOCÊ MESMO! Imagine! Passe ridículo, mas não seja ridículo de se oprimir e não imaginar flores em terreno vulcânico. O gênio Sid Barret (primeiro vocalista e compositor do Pink Floyd) era bem desse estilo, extremamente criativo, e depois que ele se separou da banda, ganhou uma das músicas mais belas do universo, e uma das frases mais estranhamente fantástica e fodástica. “Shine on you crazy diamond!” Em terras tupíniquins, “brilhe seu diamante louco!”
É como o rock-progressivo dos 70, criatividade enlatada em vinil.
Não se oprimam, vivam, para assim conseguir fluir, e brilhar como diamantes loucos.
Lucas Lins.
PS: Sem mais.