Thursday, January 4, 2007

Uma Razão para Ouvir.

Nunca se pode concordar em rastejar, quando se sente ímpeto de voar.”- Hellen Keller, escritora norte-americana cega e surda, mas não muda. Dedico esse texto a duas pessoas que sentem ímpeto em voar, e que fazem o número de comentários estar sempre alto e assim fazem outra pessoa voar. Fontes de favores, e que deveriam se sentir culpadas se algum dia o Sinapses morrer, as primeiras grandes fãs, o primeiro grande propósito de ibope, Bianca e Gabriela.


E foi assim que aconteceu o último momento dos humanos, eu me lembro como se fosse hoje, ou ontem, ou mesmo agora. Eu era bem pequena, talvez uns 12 anos, minha carapaça não era tão grande como é agora, eu tive sorte do encontro deles ser bem aqui do lado da jaula dos répteis, se não fosse isso eu nunca teria participado disso e visto o começo do fim dos humanos.

Na jaula dos primatas, o grande Floco-de-Neve ainda era vivo, ele era o soberano total, ele estava sentado em um trono improvisado com pedras, os turistas não tardaram a começar a fotografar ele, pensando como se ele tivesse posando para os fotos, bem ingênuos. O pardal veio voando como um raio, ele era pequeno o que ajudou ele a se mover pelo zoológico, com facilidade ele pousou como um pequeno imperador aos pés do verdadeiro imperador, ele abanou a calda, e cantarolou ao ouvido do Floco-de-Neve, de onde eu estava eu não pude escutar, mas pude imaginar. A resposta de Floco-de-Neve foi severa, ele levantou a mão direita e girou seu estranho polegar para baixo, como quem condena.

Logo depois houve uma reunião noturna, logicamente eu era uma criança e não fui convidada, mas da jaula dos répteis eu podia observar tudo, meus olhos pequenos e lentos capturavam tudo e eu sentia o que estava para acontecer. “Eles acabaram com a essência vital deles, querem acabar com a nossa, e depois ainda, acabar com Ela”. Disse Floco-de-Neve o gorila albino. “É triste, mas é verdade, e todos nós sabemos como isso vai acabar”, piou a coruja, seus olhos giravam rápidos. “Sim”, todos foram dizendo por vez, no grande círculo que formavam na reunião, todos foram confirmando a ordem. E depois restou ao Floco-de-Neve ordenar aos ursos polares.

O tempo passou rápido, eu lembro de ter escutado alguns humanos dizendo sobre degelo polar, sobre aquecimento global, sobre buraco na camada de ozônio. Todo passou muito rápido, como nós já sabíamos o que iria acontecer, fomos para áreas em que as aves calcularam que não iria ser alagada, fomos como podíamos para o verdadeiro paraíso, o verdadeiro local de descanso, um lugar lindo, e mais que tudo isso, minha terra natal. Ilhas Galápagos. A princípio havíamos achado que seria mais difícil ir de Queensland na Austrália até as Ilhas Galápagos que ficam na costa oeste do Equador, mas na realidade, quando se tem a ajuda da Gaia, toda distância é curta. E foi assim, todos os grandes pensadores da era animal estavam se deslocando para Galápagos, e eu como uma das menores criaturas de Queensland, fui junto. De carona no destino alheio.

O mundo dos humanos estava acabando, lentamente, e eles nem imaginavam que a fuga em massa dos zoológicos para florestas, matas e ilhas tinham algo a ver com isso. Eles pensavam que era culpa de um buraco, em uma camada que nem existia, quando na realidade não passava de vingança da soberana Gaia contra uma raça ingrata. Que caçava de forma predatória, mas isso poderia ser perdoado. Que poluía pelo bem estar pessoal, podia ser perdoado. Mas não podia ser perdoado tirar a liberdade, agarrar com todas as forças o bem mais precioso do mundo, é como impedir aves de voar, é como impedir peixes de nadar, é como impedir cangurus de pularem, seria como impedir humanos de pensar. E isso não é perdoável, mesmo para todos nós, mesmo para Ela, símbolo da inocência, e do ajudar sem ver a quem.

Na ilha, aconteceu várias coisas, entre elas anos se passaram, tempo correu, sofremos vários ataques humanos, e antes de o primeiro deles começar, Floco-de-Neve do alto do seu trono de folhas, enquanto mordia com fúria uma fruta nobre, fruta-do-conde, ele disse, “Basta!”. Apontou aos céus e disse, “É a sua vez!”. E do local de onde seu dedo apontava, trovejou um disparo de um rifle, ecoou o seu rugido pela mata, foi um urro horrível e seu sangue vermelho manchou sua brilhante pelugem branca, nos seus últimos momentos de vida, antes do seu último suspiro, ele disse gaguejando, “É impossível que eles um dia tenham sido iguais a mim”. E fechou seus grandes olhos.

Furacões, inundações, maremotos, erupções, terremotos, tudo isso veio para avisar aos humanos que o tempo deles havia chegado, foi isso que mostrou para eles o quão pequenas fagulhas eles são de uma grande fogueira, uma fogueira que eles mesmos haviam a aceso.

Depois do grande maremoto que os ursos polares haviam preparados, depois dos furacões dos albatrozes, depois das erupções dos iguanas, depois de toda essa grande maratona de destruição, e depois de limpeza. Nós podíamos sentir o que é mandar, o que é ser livre. Todos os antigos líderes haviam morrido, mas eu ainda continuava viva, já idosa, mas viva. O sucessor do Floco-de-Neve era outro gorila, esse não era albino, seu nome era Primata, ele comandou bem, por um certo período de tempo sim, mas só por um curto período de tempo. Antes que ele mesmo se desse conta, ele e sua raça estava evoluindo.

Evoluindo ou involuindo? Aos futuros pesquisadores da sua espécie, evoluindo, para mim involuindo. Para ele nos primórdios foi involução, mas a consciência coletiva também involuiu, e acabou por constatar evolução. E antes mesmo de perceber, estávamos planejando outro ataque, e eles analisando um buraco em uma camada que não existia… Tudo por que? Porque a natureza tem algo a dizer, e eles se esqueceram disso. E nunca podemos nos esquecer disso, pois é a base da essência de qualquer vida, a natureza quer falar, basta você querer ouvir, basta querer e deixar fluir. E eu, eu pude ver tudo isso acontecendo, afinal eu sou o espécime mais velho da espécie que vive mais. Tartarugas de Galápagos, eu pude ver tudo. Mas, sou apenas uma tartaruga, já não escuto bem, meus olhos já são cegos, minhas patas mais lentas e meu casco rachado. Apenas uma tartaruga velha, de carona no destino alheio…

Lucas Lins.

PS: Re-escrevi uma redação que eu fiz ano passado. Eu não tenho a redação aqui, então ficou meio diferente, não lembrava como era exatamente. Fico legal a dedicatória? Chantagem nojenta, hein? Coloquei a Gabriela também, afinal quando se têm poucos fãs, e bom cativar :cool: … (Se algum puto vier com idéiais do estilo “eu deveria estar na dedicatória”, vo mandar pro inferno.)

Posted by L. L. in 02:23:41 | Permalink | Comments (9)