Thursday, February 22, 2007

Sonho em todo lado.

Eu vi em um lugar bem estranho. Bem mais que estranho é lógico. Era como um túnel, uma passagem, um meio de ligação, um meio de ligação grotesco, quando se começa a travessia de um túnel não se existe forma de rever o que se esta deixando pra trás, e também a frente existe apenas uma pequena partícula do que se esta por vir. Quando se inicia uma travessia por um túnel, a única coisa que se vem em mente, do mais ignorante ao mais sábio, é que se esquecem da onde vem e pra onde vai, nem as lembranças restam em um túnel, uma das poucas coisas que resta junto fica escondia, bem pequena, tão pequena que é imperceptível, sutil e frágil ela fica lá dentro encolhida e desamparada, ela é a esperança de poder sair. Isso sem contar quando você o atravessa, a luz ofuscante nos olhos! A sim, a luz ofuscante…

Mas esquecemos isso, nem ao menos atravessei esse túnel. Fiquei bem no meio, exatamente ao meio. No ponto onde o começo e fim do túnel tem o mesmo tamanho, direita e esquerda se tornam a mesma coisa.

O que eu via a minha esquerda era meu quarto e meu sono instável. A minha direita era um mistério, mas já bem monótono e chato. A direita era totalmente escura, aquela escuridão que da calafrios, aquela escuridão de cemitério. Aquela escuridão que vemos em sonos sem sonhos… O sono estável ficava bem ali.

À minha esquerda eu acordaria, à minha direita o sono profundo. E no meio do túnel? Eu não queria ter um sono como todos os outros, também não queria acordar, queria um sonho! Isso que eu queria.

Ali no túnel, segui um caminho que não tinha percebido que existia, esse caminho era estreito, estreito o suficiente para eu conseguir passar de lado se esgueirando entre as rochas do túnel. Uma placa indicava o caminho ‘sonhos em todos os lados’. Não hesitei e continuei no caminho estreito. Acabei atravessando e chegando ao seu final. No final, não passava de mais um túnel.

No fim desse caminho ele se abria e desembocava em um precipício, era mais uma caverna em uma das paredes do precipício, buracos imperceptíveis. A luz do sol penetrava em todo o precipício e eu podia ver seu fim, desci escalando, no fim do canyon ele era espaçoso e plano. Tinha uma cadeira confortável, um telão na frente da cadeira, e atrás da cadeira um projetor de filme muito antigo com um rolo de filme dentro. No rolo do filme estava escrito com uma letra bem feia ‘Pulsar’.

Play e sentei na cadeira. O rolo era sobre minha vida. Não, não era. Ele era a minha vida. Tudo desde o início tinha até minha entrada no túnel, minha escalada no precipício, contava tudo, até coisas que eu não lembrava. Tudo isso passava na frente de meus olhos, o estranho foi que vi tudo isso em um segundo ou talvez menos.

Quando percebi isso me assustei, e a única coisa que me veio a cabeça foi uma crença popular ‘assim que se morre, sua vida passa inteira pelos seus olhos, em pouquíssimos segundos’.

Desesperado, olhei para os lados, e só vi sonhos. Sonhos para todos os lados.

Lucas Lins.

PS: Só mais um.

Posted by L. L. at 02:30:06 | Permalink | Comments (1) »

Saturday, February 17, 2007

Que revela verdades.

Não tente ver o que é impossível de ver. Pois fazendo isso torna o impossível possível. E fazendo isso reduz o potencial do que quer ver.

Não é tentar entender o que é impossível de entender, pois assim ele se torna entendível. E fazer isso, é como anular algo de proporções cósmicas ao nosso quintal. É fazer o infinito ser finito. E não queremos isso. Buscamos a verdade infinita, e não a finita.

É exatamente isso: de frente para uma pirâmide, você não a vê por completo, pois ela é muito maior que seu campo de visão. E uma forma de conseguir ver ela por completo e tomar distância dela, longe da pirâmide você pode ver ela por completo, porém ela terá um tamanho muito menor.

Tentar compreender o incompreensível é trazer ele a um valor menor, é desmembrar ele e torna-lo inútil. E por isso não te peço que tente entender e nem que tente ver além da janela.

Mas peço que se torne o nada, o vazio. Em vez de tentar anular a grandiosidade a algo que você pode ver, deve se tornar o que você pode ver, que é o nada. Pois por mais do que todos nós vemos, não passamos de meros cegos. O que temos que fazer é nos anularmos a zero. Nos esvaziar. Esquecermos crenças e credos, esquecermos virtudes e preconceitos, esquecermos a etiqueta e a educação. Nos anularmos. Devemos ser apenas vácuo. Esquecer o ego, o eu. Esquecermos o Uni, esquecermos o Verso, até mesmo o Universo. Pois se conseguir alcançar esse vazio, serás completado pela Grande Verdade.

Ela é espaçosa, e só consegue penetrar no total vazio.

Essa é a razão do Sábio agir com a inação, do Sábio ensinar sem ensinar, a razão do fraco completar o forte, a razão dos planetas girarem entre si, a razão dos elétrons negativos gerarem em torno dos prótons positivos. Pois não existe maniqueísmo, se o belo e o feio, se o bom e mau fossem contrários, eles nunca se completariam para forma a harmonia infinita da unidade na diversidade. Se existissem contrários, nunca que a verdade absoluta entraria e completaria o vazio. Ela é absoluta, e você deve ser absoluto em vazio, pois só assim ambos se tornaram hamornia.

O Uni, o Verso. O Universo.

A revelação das revelações é ingrata e exigente. Ela é eternamente positiva. E como na física, ela só se aproximará de você, se você for eternamente negativo. Pois ela é a verdade, e você deve ser a mentira! Ela é tudo, e você deve ser nada! Ela é ativa, e você deve ser inativo! Ela é IRREAL e você deve ser real! Só assim serão duas faces da mesma moeda.

Uni.

Verso.

Universo.

Seja seu universo Brahma, Odin, Zeus, Deus, Iaveh, Adonai ou Pai. Ele é o seu universo. Apenas seu. Não importa o meu, ou o dele. Apenas o seu. Livre-se de preconceitos.

Não seja Profano. Não seja Místico. Seja Cósmico. Há equilíbrio, mas só existe equilíbrio em movimento.Não é ser o que há na frente do espelho. Não é ser o reflexo do espelho. É ser o espelho.

É a fonte do profundo silêncio. Origem de toda plenitude do mundo. Ninguém lhe conhece a origem, mas é gerador de todas as origens. Não é criatura nem deus. Não é palavra, é verdade. Não é leão, não é carne, é leão e carne. É a síntese das antíteses.

É o que emana quando canta o hino,
Emana quando reza,
Emana quando há meditação,
É quando a saudade falece.
É quando da boca do médico,
Sai boa notícia.
É quando os olhos fechados expressam,
O que ambas línguas e ambos lábios,
Unidos, fechados e completos,
Gritam o êxtase da harmonia completa.
É a harmonia completa.
A harmonia em expansão.

Isso é lutar no jihad.

Lucas Lins.

PS: Atrasado

Posted by L. L. at 19:57:35 | Permalink | Comments (5)

Monday, February 5, 2007

O Compositor de Réquiem.

Ontem tive um sonho estranho, não, não foi estranho. Todos os sonhos são estranhos, foi uma experiência nova, foi algo que desse lado da realidade chamaríamos de psicodélico.

Eu me lembro que no sonho eu falava com algum tipo de demônio, um daqueles pigmeus, estereotipo de diabrete pequeno, sagaz e enganador. Se parecia muito com o Puck do Sonho de Uma Noite de Verão do Shakespeare. Eu lembro que ele tinha sobrancelhas bem arrebitadas e malignas, altas e com um formato em V, o tipo de adorno que faz quem usa ser insano… Insano. Os olhos eram fundos e vermelhos, ele tinha uma coloração meio marrom e a alguns detalhes em um amarelo quase marrom também. A calda era fina e amedrontadora, era extensa e na ponta o que chamaríamos de “espeto”, não toquei, mas deu pra saber que era bem afiada. Era reluzente, como uma lâmina afiada por alguém da descendência Hattori. Ah! E também, também há os dentes… Pontiagudos, afiados, finos e grandes, os dentes não conseguiam se manter dentro da boca. Era uma imagem de medo, de tudo que não queremos encontrar, tudo isso escondido por trás de um sorriso fatal. Realmente fatal.

Talvez tenha sido um pesadelo. Não sei ao certo.

Os sonhos são bem estranhos, assim que você têm eles, se você não parar de pensar neles, eles evaporam da sua memória, as imagens e os símbolos, as vozes e os gritos. Tudo some da sua memória, e você acaba esquecendo tudo, é só desviar o pensamento por um segundo, um segundo é o suficiente pra você esquecer uma epopéia onírica, e eu não me impressionaria se isso não passasse de um troque desse diabrete enganador.

Talvez eu tenha feito uma barganha com a criatura. Eu não sei, eu não me lembro… Uma coisa bem peculiar da memória é que quando você se esquece de algo, é como se você nunca tivesse vivido isso. Por exemplo: Você já cometeu um assassinato? Como assim não? Você pode ter o feito e simplesmente esquecido. Como um sonho que evapora. Já que um sonho evapora da memória, porque um assassinato não evaporaria?

Eu não me lembro de ter assassinado o “Puck”, mas me lembro muito bem do que aconteceu depois da tal conversa. (Se é que o que tivemos foi uma conversa)

Senti como se uma avalanche estivesse me arrastado e me soterrado. Como se uma corda estivesse me puxando para baixo, na vertical, como se essa corda estivesse amarrada a minha cintura, e me puxasse para baixo com a força de mil elefantes. Me senti como uma gota de água que caí, pula de volta e depois se mistura ao todo. E vou disser mais, foi uma sensação como se estivesse atravessado minha cama, o chão, e estivesse ido parar no fundo do terreno, no meio de areia, minhocas e ossos humanos. Eu não sei, eu não me lembro, mas talvez o tal pigmeu estivesse me puxando para o inferno… Mas eu realmente não sei, não me lembro. Talvez eu o tenha enfurecido.

Depois disso eu voltei a me sentir normal. Não sei por quanto tempo, mas eu voltei a realmente dormir, e quando eu me tranqüilizei que aconteceu…

Me senti paralisado no sonho e no sono. Eu não conseguia nem respirar, como se estivesse acorrentado por uma corrente de elos grandes e forte, e me sentir assim foi aterrorizante e amedrontador. Mas não foi nada ao se comparar ao que eu senti quando me dei conta que estava vulnerável, indefeso ao diabrete. Ele se aproximou frio e colocou sua mão a minha cabeça. Eu gritava e o grito não saia da boca. Nem sequer tinha consciência de ter boca. Mas eu gritava. Eu não sabia quanto tempo estava preso, havia já passado uma pequena eternidade, mas sabe como os sonhos são traiçoeiros.

Depois disso foi realmente ruim, pois tive uma maratona de três pesadelos assustadores em um deles eu cortava a cabeça de um homem, e tinha que me esconder, pois era um assassino. No segundo eu havia sido decapitado. No terceiro eu era uma criança que encontrava uma cabeça enterrada. A cabeça usava óculos redondos.

Depois disso tudo o terror não só havia tomado conta de meu corpo, mas também de mente e alma. Eu sentia muito medo, muito frio. Muito terror, havia sido muito pior do que ter aracnofobia e ser tocado por uma aranha. Era muito pior do que ter sua fobia ultrapassada. Era um medo constante, aquele medo que faz seus olhos tremerem, faz você suar frio. Não é aquele medo que sentimos ao sermos ameaçados, mas aquele que sentimos quando ameaçam alguém que nos sentimos muito. Aquele medo que todos nós evitamos ao máximo. E foi esse medo que senti.

O medo não tomava conta de mim, ele já havia tomado. E eu ainda sentia os dedos da besta-fera em minha cabeça, a unha dele em meu crânio. Não há palavras suficientes para dizer o quando eu estava em pânico. Eu senti as unhas dele entrando dentro do meu crânio, depois ele fechou a mão rápido dentro da minha cabeça e exatamente nesse momento eu dormi. O toque dele não só queimou minha cabeça, meu crânio, mas também minha alma e tudo que havia ali perto… Eu não sei ao certo, eu não lembro direito.

Como se tivesse como pausar o tempo. Ele (ou eu) pausou o tempo. E foi aqui que eu dormi na noite.

Logo outro sonho começou a se formar, como uma nuvem que se molda e forma um carneiro. As cores pairavam a minha frente e de repente tudo era uma bela paisagem.

Depois, a única coisa que consigo me lembra é de deus ex machina. Deus ex machina é uma expressão em latim, que expressa uma salvação divina, em meio literários, uma salvação que não tenha lógica linear com a história. A tradução é “deus vinda da máquina”

É algo que simplesmente acontece, sem fundamento e nem explicação, acontece para desembaraçar o nó da história.

Nesse sonhos que começava. Na planície que se estendia verde um poço não muito longe diferenciava a paisagem. No poço eu podia ver uma aranha descendo uma teia. Ela saltava e fazia largos caminhos, traçando com uma simetria terrível. E como se a teia dela fosse histórias e contos. Eu entendi o que realmente aconteceu. Ali naquele sonho, perto do poço, perto da aranha, eu podia ver na teia a história se desenrolando e eu entendi perfeitamente:

O tal pigmeu era um demônio, o demônio das memórias, do medo, da escuridão, e dos finais infelizes. Aquele criatura havia me feito uma proposta. E eu recusei. Para o senhor das barganhas, ser recusado é como ser morto. E exatamente isso que aconteceu, o pequeno demônio morreu assim que eu o neguei três vezes. Sua cabeça se separou do corpo.

Nesse instante, no seu último fôlego ele acabou da minha memória essa lembrança de assassinato. E perdida no tempo, sem essa memória, para mim havia sido como se eu não o tivesse matado. Um verdadeiro compositor de réquiem. E assim ele não morreu. Ele voltou à vida. Voltou a vida e quis me puxar para o inferno, me aprisionou por milênios, me fez passar por três incríveis pesadelos e por último tentou massacrar minha opinião enfiando suas unhas em meu crânio. Mas nada mudava meu pensamento de não aceitar.

E derrotado, ele me soltou ao lado da aranha e da teia das histórias…

Eu não me lembro direito, mas acho que foi aqui que eu acordei. Eu escutei uma música repetitiva, como se tocasse o réquiem da minha memória. A música continua sem cessar, até me despertar, eu procurei da onde vinha o som e vi ele, na sua forma mais irritante. Era esse o maldito despertador! Como um compositor de réquiem!

“Vamos lá, temos o primeiro dia de aula pela frente.” 

Lucas Lins.

PS: “O importante é isso: estar pronto para, a qualquer momento, sacrificar o que somos pelo que poderíamos vir a ser”

Posted by L. L. at 23:13:47 | Permalink | Comments (9)