Ontem tive um sonho estranho, não, não foi estranho. Todos os sonhos são estranhos, foi uma experiência nova, foi algo que desse lado da realidade chamaríamos de psicodélico.
Eu me lembro que no sonho eu falava com algum tipo de demônio, um daqueles pigmeus, estereotipo de diabrete pequeno, sagaz e enganador. Se parecia muito com o Puck do Sonho de Uma Noite de Verão do Shakespeare. Eu lembro que ele tinha sobrancelhas bem arrebitadas e malignas, altas e com um formato em V, o tipo de adorno que faz quem usa ser insano… Insano. Os olhos eram fundos e vermelhos, ele tinha uma coloração meio marrom e a alguns detalhes em um amarelo quase marrom também. A calda era fina e amedrontadora, era extensa e na ponta o que chamaríamos de “espeto”, não toquei, mas deu pra saber que era bem afiada. Era reluzente, como uma lâmina afiada por alguém da descendência Hattori. Ah! E também, também há os dentes… Pontiagudos, afiados, finos e grandes, os dentes não conseguiam se manter dentro da boca. Era uma imagem de medo, de tudo que não queremos encontrar, tudo isso escondido por trás de um sorriso fatal. Realmente fatal.
Talvez tenha sido um pesadelo. Não sei ao certo.
Os sonhos são bem estranhos, assim que você têm eles, se você não parar de pensar neles, eles evaporam da sua memória, as imagens e os símbolos, as vozes e os gritos. Tudo some da sua memória, e você acaba esquecendo tudo, é só desviar o pensamento por um segundo, um segundo é o suficiente pra você esquecer uma epopéia onírica, e eu não me impressionaria se isso não passasse de um troque desse diabrete enganador.
Talvez eu tenha feito uma barganha com a criatura. Eu não sei, eu não me lembro… Uma coisa bem peculiar da memória é que quando você se esquece de algo, é como se você nunca tivesse vivido isso. Por exemplo: Você já cometeu um assassinato? Como assim não? Você pode ter o feito e simplesmente esquecido. Como um sonho que evapora. Já que um sonho evapora da memória, porque um assassinato não evaporaria?
Eu não me lembro de ter assassinado o “Puck”, mas me lembro muito bem do que aconteceu depois da tal conversa. (Se é que o que tivemos foi uma conversa)
Senti como se uma avalanche estivesse me arrastado e me soterrado. Como se uma corda estivesse me puxando para baixo, na vertical, como se essa corda estivesse amarrada a minha cintura, e me puxasse para baixo com a força de mil elefantes. Me senti como uma gota de água que caí, pula de volta e depois se mistura ao todo. E vou disser mais, foi uma sensação como se estivesse atravessado minha cama, o chão, e estivesse ido parar no fundo do terreno, no meio de areia, minhocas e ossos humanos. Eu não sei, eu não me lembro, mas talvez o tal pigmeu estivesse me puxando para o inferno… Mas eu realmente não sei, não me lembro. Talvez eu o tenha enfurecido.
Depois disso eu voltei a me sentir normal. Não sei por quanto tempo, mas eu voltei a realmente dormir, e quando eu me tranqüilizei que aconteceu…
Me senti paralisado no sonho e no sono. Eu não conseguia nem respirar, como se estivesse acorrentado por uma corrente de elos grandes e forte, e me sentir assim foi aterrorizante e amedrontador. Mas não foi nada ao se comparar ao que eu senti quando me dei conta que estava vulnerável, indefeso ao diabrete. Ele se aproximou frio e colocou sua mão a minha cabeça. Eu gritava e o grito não saia da boca. Nem sequer tinha consciência de ter boca. Mas eu gritava. Eu não sabia quanto tempo estava preso, havia já passado uma pequena eternidade, mas sabe como os sonhos são traiçoeiros.
Depois disso foi realmente ruim, pois tive uma maratona de três pesadelos assustadores em um deles eu cortava a cabeça de um homem, e tinha que me esconder, pois era um assassino. No segundo eu havia sido decapitado. No terceiro eu era uma criança que encontrava uma cabeça enterrada. A cabeça usava óculos redondos.
Depois disso tudo o terror não só havia tomado conta de meu corpo, mas também de mente e alma. Eu sentia muito medo, muito frio. Muito terror, havia sido muito pior do que ter aracnofobia e ser tocado por uma aranha. Era muito pior do que ter sua fobia ultrapassada. Era um medo constante, aquele medo que faz seus olhos tremerem, faz você suar frio. Não é aquele medo que sentimos ao sermos ameaçados, mas aquele que sentimos quando ameaçam alguém que nos sentimos muito. Aquele medo que todos nós evitamos ao máximo. E foi esse medo que senti.
O medo não tomava conta de mim, ele já havia tomado. E eu ainda sentia os dedos da besta-fera em minha cabeça, a unha dele em meu crânio. Não há palavras suficientes para dizer o quando eu estava em pânico. Eu senti as unhas dele entrando dentro do meu crânio, depois ele fechou a mão rápido dentro da minha cabeça e exatamente nesse momento eu dormi. O toque dele não só queimou minha cabeça, meu crânio, mas também minha alma e tudo que havia ali perto… Eu não sei ao certo, eu não lembro direito.
Como se tivesse como pausar o tempo. Ele (ou eu) pausou o tempo. E foi aqui que eu dormi na noite.
Logo outro sonho começou a se formar, como uma nuvem que se molda e forma um carneiro. As cores pairavam a minha frente e de repente tudo era uma bela paisagem.
Depois, a única coisa que consigo me lembra é de deus ex machina. Deus ex machina é uma expressão em latim, que expressa uma salvação divina, em meio literários, uma salvação que não tenha lógica linear com a história. A tradução é “deus vinda da máquina”
É algo que simplesmente acontece, sem fundamento e nem explicação, acontece para desembaraçar o nó da história.
Nesse sonhos que começava. Na planície que se estendia verde um poço não muito longe diferenciava a paisagem. No poço eu podia ver uma aranha descendo uma teia. Ela saltava e fazia largos caminhos, traçando com uma simetria terrível. E como se a teia dela fosse histórias e contos. Eu entendi o que realmente aconteceu. Ali naquele sonho, perto do poço, perto da aranha, eu podia ver na teia a história se desenrolando e eu entendi perfeitamente:
O tal pigmeu era um demônio, o demônio das memórias, do medo, da escuridão, e dos finais infelizes. Aquele criatura havia me feito uma proposta. E eu recusei. Para o senhor das barganhas, ser recusado é como ser morto. E exatamente isso que aconteceu, o pequeno demônio morreu assim que eu o neguei três vezes. Sua cabeça se separou do corpo.
Nesse instante, no seu último fôlego ele acabou da minha memória essa lembrança de assassinato. E perdida no tempo, sem essa memória, para mim havia sido como se eu não o tivesse matado. Um verdadeiro compositor de réquiem. E assim ele não morreu. Ele voltou à vida. Voltou a vida e quis me puxar para o inferno, me aprisionou por milênios, me fez passar por três incríveis pesadelos e por último tentou massacrar minha opinião enfiando suas unhas em meu crânio. Mas nada mudava meu pensamento de não aceitar.
E derrotado, ele me soltou ao lado da aranha e da teia das histórias…
Eu não me lembro direito, mas acho que foi aqui que eu acordei. Eu escutei uma música repetitiva, como se tocasse o réquiem da minha memória. A música continua sem cessar, até me despertar, eu procurei da onde vinha o som e vi ele, na sua forma mais irritante. Era esse o maldito despertador! Como um compositor de réquiem!
“Vamos lá, temos o primeiro dia de aula pela frente.”
Lucas Lins.
PS: “O importante é isso: estar pronto para, a qualquer momento, sacrificar o que somos pelo que poderíamos vir a ser”