Os relatos dos palestinos sobre ofensas e afrontas de judeus sempre têm o mesmo inicio. Sempre e esse relato não é diferente. Gasshan estava dormindo, o sono na Palestina é incerto, a cidade é barulhenta, o exército judeu sempre ronda a cidade com seus jeeps e caminhões durante a noite, trepidando as ruas de paralelepípedo, fazendo barulho e despertando a cidade, também têm a retaliação dos palestinos, coquetéis molotovs e pedras bailam no céu durante a noite. A mercê das estrelas, a noite nessas cidades são campos de batalhas, e aquela noite não era diferente.
Gasshan estava dormindo, seu sono não era profundo, o sono na Palestina não é profundo. Não é profundo o quanto deveria ser, seus sonhos são profundos e quem dera de seus sonos serem também. Gasshan despertou com a sua porta arrombada. A gritaria, e quando saiu do seu quarto na escuridão vários soldados e policias reviravam suas coisas e olhavam fotos.
Pisotearam ele, renderam-no, vendaram-no, prenderam as mãos deles com presilhas de plástico e ele foi empurrado para o chão gelado da cozinha. Todo cachorro tem seu dia, rogou um soldado enquanto o empurrava para o chão. Gasshan protestou seus direitos, ele havia esposa e filhas. Tiraram a venda e lhe mostraram um papel, sua visão estava embaçada e ele mal podia enxergar os rostos que lhe cercavam, mas mesmo assim lhe esfregaram o papel na cara e disseram que aquilo era um mandato para entrar e revistas sua casa. A acusação era de participar de uma organização ilegal. Como sempre, ele não havia feito nada.
Fotografaram seu estado deplorável, de pijama e com o rosto assustado ele saiu em duas ou três fotos de uma Polaroid, vendaram ele novamente e arrastaram ele para dentro de um caminho, ele podia ouvir sua esposa gritar por misericórdia, uma filha chorando e uma questionando aos gritos onde levariam seu papai. Mesmo assim ele foi chutado para dentro de um carro, ele circulou por uns dez ou quinze minutos, ele não sabia onde estava indo, mas podia imaginar.
Ele foi desvendado e percebeu estar dentro de uma delegacia, o policial olhava os documentos que haviam pego de sua casa, um possível médico se aproximou e perguntou se ele havia alguma doença. Não. Depois se havia alguma dor. Não houve resposta, e nenhum exame. Alguém se aproximou com uma câmera fotográfica e fez mais algumas fotos dele, perfil e de frente. Ele já se sentia um detento.
Colocaram um saco na cabeça dele, o saco tinha um cheiro sujo, como urina e empurram ele na escuridão. Os primeiros passos foram difíceis, mas logo conseguiu se equilibrar sem a visão e sendo puxado por um oficial. Mandaram ele sentar em uma cadeira, ele tentou tatear no escuro, mas suas mãos estavam presas, achou a cadeira, ele se sentou. O oficial prendeu sua mão direita no encosto da cadeira, e a esquerda em uma barra de metal frio perto da cadeira. As amarras estavam apertadas, ele escutou uma porta se fechando. Não tiraram o saco de sua cabeça, o cheiro era horrível. Sua respiração estava irregular e muito agitada, ele tremia muito, seu nariz escorria e sua boca estava seca.
Uma eternidade passou naquela situação, ele pensou ser três ou quatro horas de cárcere, mas eram apenas trinta minutos, seu ombro, suas costas, seu cotovelo, joelho, coxa, pescoço, tudo ali gritava de dor. Ele tentava se posicionar de uma forma melhor, mas as amarras estavam apertadas, ele sentia que era difícil pro coração bombear o sangue, ele já quase não sentia a mão… E mais uma eternidade passou…
Cinco, seis horas reais, e alguém abriu a porta e levantou ele da cadeira, guiou ele por um caminho desconhecido, e sentiu uma porta se fechando a suas costas, sentaram ele em uma cadeira e tiraram o saco de sua cabeça. Ele viu um homem forte e careca apoiado em uma mesa, o homem leu um papel e disse que ele era suspeito de pertencer a uma organização ilegal. Ele negou, mas não era suficiente. O homem disse que ele poderia confessar, se não fizesse poderiam fazer alguma outra coisa, e foi o que fizeram.
Voltaram Gasshan para a mesma cadeira e com o mesmo saco sujo na cabeça. Depois de duas ou três horas alguém entrou na cela tirou o capuz e lhe deu um prato de comida, disse que ele tinha dois minutos para comer o máximo que pudesse. Ele já estava comendo antes de iniciar a contagem. Ele ia rápido e tentava pegar o máximo de cada, não mastigava direito, engolia as pressas. Acabou o tempo e ele haviam comido pouco, e só feito sujeira. Recolocaram o capuz, refizeram as amarras e quatro, cinco, oito, dez, quinze, vinte, trinta eternidades se passaram, e ele apenas enchia pulmão, esvaziava pulmão. Seu estômago reclamava.
Fazia muito frio, ele tentou mudar de posição e caiu da cadeira, suas mãos continuaram presas e doíam muito com o peso do corpo sobre as amarras. Ele chamou por alguém e alguém veio lhe arrumar na cadeira e disse que ele era um idiota e perguntou o por quê de não ficar quieto.
Não foram algumas horas depois. Algumas não. Não eram só ‘algumas’, eram várias, e cada uma delas passavam tão lentamente como… Como… Como eternidades… Vidas inteiras poderiam começar e terminar durante aqueles segundos que eram suficientes para se aproveitar o máximo que a vida tem pra oferecer.
Entraram novamente na sua cela, lhe empurraram, lhe fizeram as mesmas perguntas e houve as mesmas respostas. Fizeram novamente isso e novamente. Mas uma delas foi diferente, lhe levaram a um julgamento. Tiram-lhe o capuz e as amarras e deixaram ele esperando sentado em um escritório. As marcas no pulso eram fundas, e doíam muito. Esperou por umas cinco horas, e depois mais duas horas. Vieram lhe buscar e levaram-no a corte, fizeram a acusação, mas o juiz deu mais prazo a policia antes de inocenta-lo, oito dias, oito milhões de eternidades para a policia coletar mais provas. Não havia provas, nenhuma, mas havia oito dias para procurar mais, oito grandes dias…
Recolocaram o saco na sua cabeça e o levaram novamente a cela, agora não tinha cadeira, deixaram ele de pé, com as mãos amarradas em um cano. Depois de feita a posição um guarda veio e pisou com muita força em seu pé, ele quase caiu. Não se mova! Gritou o guarda depois de ter pisado no pé de Gasshan.
Mudavam a posição dele a cada quatro ou cinco horas, era uma forma de manter ele acordado e de Gasshan manter o horário atualizado. Não se mova! Não se mova! Não se mova!
Até colocarem ele na cadeira de novo. Mãos amarradas.
Eles entravam poucas vezes ao dia, lhe davam um prato, uma colher e dois minutos. Que com o tempo, ele aprendeu a usar com sabedoria, mastigando com cuidado para evitar dores. Também lhe davam tempo sozinho com um balde sujo, ele fazia o que ninguém podia fazer por ele e depois voltava a sua cadeira e ao seu capuz.
Depois de quatro dias sem dormir, Gasshan começou a ter alucinações. Alucinações. Viu sua filha morta aos seus pés, ele via o corpo, sentia o corpo, até o sangue molhando seus pés descalços. Depois seu irmão se sentou ao seu lado. Depois seu irmão estava morto aos seus pés, capotado ao chão já era um cadáver. Mio tio estava morto, minha mãe estava sendo presa. Ele via sua mãe em coma em um hospital precário, ninguém cuidava bem dela. Sua filha morto, tio, irmão, mãe…
Ele teve alucinações até mais ou menos o 15º dia, só parava quando lhe empurravam para o interrogatório ou para seus dois minutos. Ou quando lhe davam tapas na cabeça, para não dormir. Depois de mais quatro dias deixaram ele dormir em um cama em outra cela. Dormiu por cinco ou seis horas. No outro dia ele tinha dores horríveis no peito. Chama por alguém, mas alguém não vinha. Ninguém vinha. E ele gritava e chorava até suas forças se acabaram e ser ajudado pela alucinação de sua filha ou de seu tio. Ele foi levado ao um consultório, o médico disse que a sua pressão estava baixa e que deveriam diminuir a pressão das amarras.
Voltaram ele a cela e apertaram mais forte, ele não tinha mais esperança e não fazia mais nada para sobreviver, até que entravam e apertavam ainda mais as amarras. Mais e mais.
Foi julgado de novo e de novo, sempre davam mais tempo para provas. Apertavam mais as amarras e lhe perguntavam sobre a confissão. O juiz concordou em dar mais sete dias, ele agora foi levado a outra cela, menor, mas agora sem capuz, ela era suja com urina por todos os lados. Gasshan estava decidido a não sentar em um banco de cimento por estar todo mijado, mas só resistiu a algumas cinco horas. As alucinações agora eram piores, ele via a cela enorme, tenta andar mas batia forte contra a parede, agora ele conseguia tocar o corpo, e o corpo estava lá! Frio e sem expressão, sua filha estava morta! Gasshan chorava.
Em um julgamento ele estava tão cansado que não conseguia responder as perguntas do juiz, ele pergunta se ele fazia parte da organização ilegal. Organização ilegal? Repetia Gasshan. Ele não conseguia raciocinar, seus olhos fechavam sem seu comando, pois ele não comandava mais o corpo. Ele estava cada vez mais sem esperanças.
Um dia frio o levaram para outro lugar, com capuz e amarrado a uma cadeira, parecia estar em um corredor, de repente começou um vento gelado a soprar e Gasshan se tremia e sentia o frio na alma. Não demorou para os primeiros pingos caíram em sua cabeça. Depois a tempestade realmente começou, e durou muito tempo. Muito tempo.
Visitei a corte novamente e o juiz me deu mais quatro dias. Quatro zilhões de eternidades ainda restavam.
Na cela, sentado e amarrado, um guarda perguntou se queria tomar banho. Se tiver água quente, sim. Respondeu Gasshan sonolento. Ele tomou banho, era seu primeiro banho em um mês? Dois meses? Primeiro banho em uma eternidade?
Lhe deram roupas que seus familiares mandara, no bolso de uma calça Gasshan achou um barbeador e fez a barba que estava bem grande, voltou a cela, uma cela diferente com cama, e deixaram ele dormir por cinco ou seis horas. Mudaram ele de cela, depois mudaram de novo, parecia que faziam a cada quatro horas. Na última cela, bem confortável, com cama e cobertor, ficou lá por dois dias, era sábado, Sabbath e não o atormentaram.
Frente a corte novamente, o oficial da policia pediu mais dez dias, seu advogado disse que ele deveria ser libertado imediatamente. A juíza, que estava substituindo o juiz. Finalmente libertou Gasshan. O coitado não tinha forças para sorrir e parecia que iria ter diarréia.
Do lado de fora da delegacia um policial lhe ofereceu um maço de cigarros. Pegue o cigarro! Ofereceu com a máximo de cortesia que podia, Gasshan aceitou. Como se fosse um prêmio por não ter confessado algo que não vez. Ele não fumou um cigarro se quer, honrado.
Sua filha não havia morrido, nem sua mãe, nem seu tio.
Decidido a se livrar dos cigarros, deu ao seu tio. Que fumou com prazer a vida que fora devolvida para Gasshan.
Naquela noite Gasshan teve uma boa noite de sono. Que durou menos que uma eternidade. Bem menos.
Lucas Lins.
PS: Bem menos.