Monday, March 26, 2007

A Ilusão de viver em um mundo de sonhos iludidos

­

­

­Seres humanos malditos que invadem meus pensamentos e bloqueiam minha visão, seres humanos que me perseguem com seus costumes insanos, seus pensamentos profanos, seus defeitos, suas alusões à liberdade inalcançável, suas ilusões, suas malditas ilusões. Gostaria de passar um dia como um outro ser, só para conferir se os outros seres inventam tantas ilusões como os seres humanos, sim definitivamente a raça das ilusões, a grande criadora das mascaras da realidade, “ser humano” o portador do vicio da criação, um mundo nunca é bom o bastante para que não se tenha o desejo de viver na sua própria ilusão.

Vivemos uma ilusão todos nós, o tempo todo, nós nos iludimos esquecendo de sonhar. Criar uma ilusão é o mesmo que matar um sonho, viver em um mundo de sonhos não é sonhar, estar dentro de uma ilusão, torna os sonhos que sonharmos pura ilusão, a ilusão de um sonho e não um sonho verdadeiro. Citando Pessoa podemos dizer: “Saber não ter ilusões é absolutamente necessário para se poder ter sonhos. Atingirás assim o ponto supremo da abstenção sonhadora, onde os sentimentos se mesclam, os sentimentos se extravasam, as idéias se interpenetram. Assim como as cores e os sons sabem uns a outros, os ódios sabem a amores, e as coisas concretas a abstratas, e as abstratas a concretas. Quebram-se os laços que, ao mesmo tempo em que ligavam tudo, separavam tudo, isolando cada elemento. Tudo se funde e confunde”.Fernando Pessoa.


Sonho, ilusão, realidade, três formas de enxergar a mais pura das verdades, a realidade não existe, existe apenas a ilusão particular de cada um. Nós todos criamos um mundo em nossa volta e enxergamos os acontecimentos ao redor de um modo particular, criado por nós mesmos, as vezes acontece de varias pessoas terem a mesma ilusão, bem isto também é pura ilusão, humanos gostam de se iludir achando que existem outros semelhantes a eles, humanos gostam de se iludir achando que estão amando sem nem mesmo saber o que é amar, humanos gostam de dizer “eu te odeio” sem nunca ter experimentado o ódio verdadeiro.

Ilusões de que existe uma “paz mundial”, hunf é como dizem por aí: “Se quer a paz então se prepare para a guerra”.Ilusões, de felicidade eterna, ilusão de um ser humano sem ambição, um ser humano caridoso, um ser humano “bom”, puras ilusões.


Sempre que penso nestas coisas, aquela velha pergunta me vem a cabeça “Por que?”, o por quê das ilusões, a propósito é uma ilusão colocar acento circunflexo no “quê” assim como toda essa gramática maldita que falta no meu texto é apenas uma ilusão criada pra satisfazer a ordem, mas bem isto não vem ao caso, voltemos ao porque, sei lá não tem um por que, é tudo ilusão.

Escrever esse texto também é uma ilusão, eu me iludindo para achar um “por que” de estar me iludindo, ilusões, ilusões, ilusões, quisera eu me libertar dessa ilusão, mas liberdade também não passa de uma ilusão. O futuro cria ilusões para explicar as supostas ilusões do passado, e o que hoje chamamos de “verdade” amanha será mito, ilusão.

Marcos Alberto

Nota: Quanto aos erros gramaticais encontrados, não se preocupem com eles, são pura ilusão.

Ps: “Talvez um dia eu abra os olhos e descubra que tudo isto não passou de ilusão”, a propósito, Lucas, o tema é parecido, mas quando li seu texto esse daqui já teve “meiado” não foi um plagio TOTAL.



Posted by M.A at 03:41:09 | Permalink | Comments (9)

Thursday, March 22, 2007

John, O Homem Que Não Existiu.

John dói um amigo meu, quer dizer, estudou comigo alguns anos, depois se ausentou da escola em que estudávamos, e para falar a verdade, nem sei se continuou estudando depois disso. O fato é que sempre considerei muito ele, não foi meu melhor amigo, mas sempre mantive um certo relacionamento de amizade com o cara.

Mas sempre tive uma dúvida, o John realmente existiu? Como assim que ele sempre contou muita mentira. Como assim que seus pais em uma semana estavam separados e em outra se amando. Como assim que ele entrava em nossas vidas, soltava suas mentiras saía como uma mentira e deixava um certo vazio onde costumávamos preencher com suas mentiras. A profissão de sua mãe sempre foi um rumor, uma fantasia, um mito. Em uma semana ela era dona de uma próspera franquia de lojas de jogos. “Ah é? Qual o nome da loja da sua mãe? “ Perguntávamos para ele, e ele respondia que era aquela do solzinho. Eu insistia dizendo, qual era o nome? E ele respondia novamente que era aquela do solzinho. É meio estranha uma coisa dessas, não que a sua mãe não seja capaz de administrar uma loja de jogos, mas ele não saber onde a mãe dele trabalha é um pouco exageradamente mal pensando, até mesmo pra uma mentira. Na semana posterior a isso, ele estava dizendo que sua mãe era gerente de uma loja de aparelhos celulares da franquia “Claro”. “É claro, John, sua mãe trabalha lá, e em uma semana ela vai abrir sua própria loja especializada”. E na outra semana sua mãe estava “correndo atrás da papelada para abrir a sua própria loja”.

E tem também o irmão dele. Certa vez disse para ele que adorava a percussão dos rocks da vida, ele respondia sem nem pensar que seu irmão era baterista e líder de uma banda de rock de “sampa”.

Certo John, seus familiares fazem tudo que sempre sonhamos. Nunca duvidei que ele falasse mentira por aí, mas tem hora que dói. Porém, mesmo com seus defeitos ele foi e é muito gente boa, pois além de tudo, ele sempre estava pronto pra te defender do que for, por que? Porque ele contava umas histórias dignas de thrillers sobre suas brigas pela cidade a fora. E quando menciono “briga”, isso envolve armas brancas, sangue, dentes voando, sangue, chutes, sangue, socos na cara, sangue, chutes no saco, sangue, algumas vezes até estrupos e é claro, muito sangue.

Há um anos atrás o John voltou a estudar comigo, relembramos bons momentos e sua presença fez o ano-letivo durar pouco como uma mentira. E ele acabou saindo da escola no fim do ano, levou com ele uma reprovação (pois conversava muito na sala de aula) e muitas histórias macabras, de sucesso familiar e como é imaginável sangue.

Algumas semanas atrás, por culpa da instabilidade da temperatura global, durante a manhã se fazia frio e durante a tarde muito (muito) calor. E isso fez com que v´rias pessoas levassem agasalhos para a escola, mas que, porém usavam só pela manhã e quando se aproximava do meio-dia, elas ficavam inúteis. Agora imagine, muito calor, muitas blusas guardadas, amarradas em cinturas, jogadas pelo chão, penduradas nas janelas, e em qualquer lugar que simulasse um cabide e fosse forte suficiente para agüentar a pesado e espesso pedaço de lã.

Acontece que fiz uma brincadeira, peguei uma dessas blusas, coloquei por cima de uma cadeira (no encosto, simulando como se alguém estivesse usando a blusa), coloquei um boné onde deveria estar a cabeça de alguém que estivesse usando a blusa. O que fez uma ilusão precária como uma mentira, de que aquilo era uma pessoa sentada. Uma ilusão precária de alguém que existia, mas que não existia. Uma mentira que dei o nome de John.

Eu nunca soube se o John realmente existiu, ele fazia com que nós tivéssemos esse tipo de dúvida. Por que John? Porque só seu nome era real, como o boneco da cadeira, que sua única realidade é seu nome. Como o boneco da cadeira. Com blusa no calor, com boné em sala de aula, é acima de tudo, fazendo parte de uma grande mentira.

Mas seu nome, seu nome era real. “Jota, ó, agá, enê” como ele dizia quando iríamos mentir que ele participou do nosso trabalho, só pra ele ganhar nota, e quando mentíamos pondo Jhon, Jonh, ou Jon. Falsos nomes. Que ele desmentia, soletrando.

Mas a verdade é uma só, e diferente da mentira, dura pra sempre. Todos nós somos um pouco de John, e nunca. Nunca, existimos.

Lucas Lins

PS: “É a diferença entre eles e nós” – G. A-Lion.

Posted by L. L. at 23:54:43 | Permalink | Comments (4)

Wednesday, March 14, 2007

O Mentiroso

Na Década de 40 no sertão do Pernambuco, um rapaz franzino e cheio do jeito “sertanejo” de ser, fez história. Ranunpho Gomes o nome daquele homem que sonhava em ir para o Rio de Janeiro e sair do buraco de onde nasceu, a cidade de Bonança. Ele mesmo descrevia a cidade como sendo, uma rua, uma cruz, cinco casas e muitas cabras.

Esse tal Ranunpho virou filme nas mãos do cineasta Marcelo Gomes, que em 2005 filmou “Cinema, Aspirinas e Urubus” que conta sobre Ranunpho e suas peripécias com Jonnhan, um alemão desertor, que ganhava a vida no Brasil vendendo Aspirinas “a cura para todos os males”.

Acontece que esse filme foi inspirado no diário pessoal de Ranunpho, que fez bom uso do que pouco sabia sobre escrever e ler.

Mas acontece também que o nordestino Ranunpho sofria de insônia desde criança. E o pobre coitado não fazia nada durante a noite a não ser pensar. O pobre diabo pensava durante a noite inteira, não porquê queria, mas porque já estava cansado de contas as estrelas, de olhar para o teto, e de ver o tempo passar. Então aquele nordestino de temperamento ácido se aderiu ao hábito de pensar para matar o tempo. E o ato de pensar foi seu maior “assassino de tempo” durante toda a sua vida.

Alguns diziam que durante a noite ouviam ele falando sozinho, outros que viam ele sozinho debruçado em uma mesa acompanhada de uma vela, papel, e caneta.

Talvez o vendedor de Aspirinas nunca tenha existido, a não ser na mente (e no diário) de Ranunpho. Os cidadãos de Bonança crucificavam Ranunpho, alegando que ele era preguiçoso, mole, e seu desejo de mudar de vida agredia aqueles que eram conformados, e é claro, acusavam ele também de mentiroso. Porém eles não entendiam que a preguiça de Ranunpho era causada pela insônia, também não entendiam o que era sonhar e acima de tudo, não compreendiam aquela criança de imaginação imperativa. E nem imaginavam que durante a noite Ranunpho escrevesse diários, também não imaginavam que ele criava remédios fictícios, e muito menos que ele tivesse amizade com um desertor fantástico.

É claro que há a possibilidade de Jonnhan ter existido, das Aspirinas e de suas aventuras, de suas viagens…

Também é provável que tudo não tenha passado de um passatempo de Ranunpho, e que todas as histórias de vendas de Aspirinas sejam mentiras.

Mas também é provável que não Ranunpho, mas que eu esteja mentido.

Lucas Lins.

PS: Não entendeu bulhufas? Leia novamente pausadamente.

Posted by L. L. at 01:21:22 | Permalink | Comments (9)

Sunday, March 11, 2007

Post Mortem.

Seja o que você for escrever, a primeira palavra é muito importante. É como uma prévia do que esta por vir, é como reduzir todo o conteúdo posterior em apenas uma palavra, e essa palavra é crucial, é mais importante que o título, é como o nome de uma pessoa, explica ela inteira em pouquíssimas letras. E essa é a razão do ‘era uma vez’ existir. Se eu fosse escrever algo sobre a minha vida, com certeza começaria com ‘do caralho! Aquela noite foi do caralho!’ E eu teria certeza total de estar fazendo certo, afinal, aquele papo de que quando você está morto vê sua vida inteira diante dos seus olhos é baboseira, o que realmente importa é a última noite! A última noite da sua vida! A última noite tem que ser eletrizante, fantástica, maravilhosa, perfeita, porquê tenha certeza de que você não vai esquecer dela tão cedo.

Ah sim, aquela noite realmente foi do caralho. Antes das seis da tarde eu e as meninas já estávamos todas bêbadas, embriagadas e vomitávamos por todos os cantos do minúsculo apartamento da punk Nouhead. É, o nome da fulana é Nouhead, no começo é difícil chamar alguém de ‘Nouhead’, mas depois de um tempo, quando se descobre que é um nome diretamente importado da sua descendência libanesa da pra acostumar. 

 “Mantenha os olhos na estrada e as mãos no volante” gritava Jim Morrison pelo rádio mal sintonizado do carro, enquanto eu dirigia cambaleante pela estrada, e tentava seguir as dicas dele. É incrível como o álcool encurta as distâncias, antes que nós pudéssemos perceber chegamos ao destino. O letreiro em néon do prédio onde estacionamos indicava com letras garrafais e piscantes que a noite seria uma criança, e que aquela porta minúscula levava para os confins da boate Canyon Azul. Onde iríamos fazer nosso show.

Entramos na boate como as estrelas que entram na noite. E claro, abusamos da melhor maneira do nosso direito de estrelas. Ficamos no camarim, falamos bobagens, usamos drogas, e, é claro, vomitamos muito. Mas nos momentos posterior ao horário marcado para nossa apresentação entramos no clima de ‘fazedoras de show’, Nouhead levantou o moicano laranja, eu raspei novamente minha cabeça, pronta pra cantar totalmente careca. As outras meninas fizeram o de sempre, e dessa vez tentaram afinar as guitarras, tentaram.

No palco tudo fica diferente, a multidão enorme fica pequena aos seus pés, ainda mais quando você esta ao extremo aposto da lucidez. Antes de nós abrirmos o show com ‘I Wanna be Sedated’ do Ramones, um outro punk-rocker gritou os nossos nomes, nossos instrumentos, e o nome da nossa banda, que nessa situação que estou agora não importa afinal nós nunca somos os mesmos.

Depois disso me lembro que cantei, gritei, cantei, gritei, desmaiei e gritei de novo. E antes da última música acabar, pulei na multidão e fiquei deitada em baixo de mãos e cabeças enquanto me empurravam e xingavam minha mãe. Depois, no camarim tomei um gole. O último gole de cachaça e foi o suficiente pra eu entrar eu sair de mim, e entrar em um estado de alerta. Fico puta quando lembro disso. Cachaça? Meu último gole não podia ser de vinho, ou champagne, ou qualquer bebida nobre, até água que é pura… Mas, mas cachaça?

Quando acordei não tinha mais ninguém no Canyon Azul, eu estava toda dolorida e com uma dor de cabeça capaz de me fazer pular contra uma parede. Antes que eu pudesse pular contra uma parede dormi de novo. Acordei novamente com as mesmas dores de antes, dessa vez multiplicadas em quatro.

Saí do camarim cambaleando, como pode ter tantas pessoas em um momento e em um outro ninguém. De qualquer maneira consegui sair do Canyon Azul, acho que o dono estava tão bêbado como eu que esqueceu a porta aberta. Nada de seguranças, nada de ter que pagar bebidas, nada de ter que entregar comanda e ter que explicar a mulher do caixa que está ‘dura’. Deus abençoe a pressa e a ressaca, pensei já do lado de fora do Canyon Azul.

- Ele abençoa.

Procurei o dono da boca de onde deveria ter saído essa frase e só achei um mendigo cheio de trapos e horrivelmente fedorento, ele tirou o cabelo grande e sujo do rosto sorriu em V e disse com sarcasmo, aquela voz rouca ecoou pela minha alma, seus olhos eram penetrantes, aquele tipo de olhar que um general faz antes de assassinar o último prisioneiro de guerra. Aquele olhar que o louco faz quando planeja sua vingança. Aquele olhar que bate como uma marreta. Aquele olhar agudo, aquele olhar cinza, cinza e em tons de vermelho como o sangue. Aquele olhar que diz mais que qualquer palavra.

-  Seja bem vinda.

Aquele olhar que faz você ter certeza que está no inferno.

Lucas Lins.

PS: Eu acho que esse texto deveria ter uma continuação. Não reli, então não se assustem com os erros gramáticais.

Posted by L. L. at 17:49:04 | Permalink | Comments (6)

Pare o Mundo que Eu quero DESCER!!!!!!!!

Abro meus olhos, olho ao redor, não estou no meu quarto, tampouco na minha casa, estou num lugar completamente diferente, não sei, escuto risadas, a alegria é contagiante, não consigo expressar com palavras o que estou sentindo agora, é uma sensação única, algo que nunca senti em toda minha vida. Começo a pensar que morri, sim eu morri enquanto dormia, estou em alguma espécie de paraíso, é a única explicação possível, mas, será que eu merecia ir para o paraíso (se é que existe um) por que, se existe mesmo um inferno creio que seria lá o meu lugar, se paraíso ou inferno algo que depende de crenças, não faz sentido eu morrer e ir para o paraíso, bem às vezes o diabo se disfarça de santo para enganar o justo (um velho ditado cristão), vamos correr os olhos por esse mundo antes de tirar minhas conclusões.

Dou uma volta pelo local e logo encontro a fonte das risadas, são pessoas, sim pessoas assim como eu, bem não como eu, eu acho, elas não estão nem remotamente desconfiadas, elas estão felizes, despreocupadas, o lugar é maravilhoso, não existem marcas de humanidade ali, a natureza é a única a reinar, os humanos ao que parece são seus humildes hospedes. Me faz lembrar de um terra citada numa musica do meu mundo, a terra se chamava “”tir Nan Og”(The Land of Youth) “a musica dizia algo assim”Cores diferentes, flores maravilhosas no meu caminho…
Uma musica brilhante soando do chão…
Eu sinto o abraçar da terra, os pássaros cantando atrás de min
Que caminho maravilhoso eu estou percorrendo – Estou eu ficando maluco?
Você não esta nem maluco tampouco doido
Você esta entrando na antiqüíssima terra da juventude”

Sim é isto, acho que estou em Tir Nan Og ou em algum lugar parecido, todos estão felizes, as pessoas nunca choram, não existe violência, eles não conhecem o que é a guerra. – Como? Com alguém contaminado como eu vim parar nesse lugar maravilhoso? Será que eu realmente morri? Não, acho que não, pelo menos pareço bem vivo, consigo sentir a brisa, o calor,a magia esta no ar e eu estou vivo.“Estamos em constante alegria – as pessoas nunca choram
A dança nunca acaba – os amigos sempre ficam bem
Eu não voltarei, deixarei o mundinho ordinário para trás
Eu quero levar cada um de vocês às alturas”.

Eu me decidi, se me trouxeram aqui, aqui vou ficar, vou correr pelos campos, esquecer minha regras estúpidas, vou deixar que a musique dos pássaros diga meu caminho, as pessoas daqui não são como as pessoas daí as pessoas daqui desejam o amor, pregam a paz e transmitem a alegria, começo a pensar que esse mundo do qual acho que vim, não passou de um pesadelo.(Embora ache que não existam pesadelos aqui), a noite vem chegando, uma grande fogueira é acesa, boa musica é tocada, e todos dançam, sim todos dançam até eu danço, não me reconheço mais, todos os meus conceitos e pré-conceitos se foram, não existem mais, nessa nova terra eles não podem existir, somos todos filhos da terra e amantes da lua, bebemos o mesmo vinho, comemos do mesmo pão e dançamos, nunca paramos de dançar, sempre sorrindo, não existe motivo para não faze-lo, um estado permanente de euforia é isto o que há.

Bem, uma coisa fica clara, mesmo nessa terra maravilhosa eu sinto sono, sim sono, eu estou com sono, - Boa Noite, eu devo dormir.

Acordo pela manha e me sinto como Rip van Winkle, depois de beber da bebida do povo estranho, anos e anos mais velho, como se uma noite tive-se sido igual a 50 anos, quando me dou conta percebo que estou no meu quarto, e minha mãe esta ao meu lado, foi quando me lembrei, eu tenho aula, devo ir pra escola, me levanto, tomo banho, escovo os dentes, dou um jeito no cabelo e vamos a aula, pego o ônibus como sempre, mp3 na orelha, por ironia a primeira musica a tocar é the land of youth, então as memórias me vem, e atingem meu cérebro e eu me lembro daquilo tudo e penso: Não! Não pode ter sido um sonho, foi tão REAL, mas compreendi, eu havia sonhado e não havia sido a primeira vez, com aquela terra com um mundo onde a palavra mundo não fosse necessária, um lugar onde não se precisa conhecer o significado de lugar.

É não estou nesse mundo, estou no meu mundo, não existe ar puro e passarinhos cantando, existe a poluição dos carros e o barulho dos ônibus, desço na rodoviária de Sumaré e me encaminho para o colégio, no meu caminho vejo varias pessoas, pessoas de todos os tipos, mas nenhuma como aquelas que conheci naquela terra mágica, todas as pessoas que vejo, estão com caras preocupadas, vejo mendigos acordando, para um novo dia e quem sabe o ultimo não é, mesmo assim, apesar disto tudo continuo meu caminho, e é quando me dou conta, de que ver pessoas felizes era algo estranho pra mim, eu tinha achado aquela terra diferente pura e simplesmente por que as pessoas estavam felizes, chego na escola, pessoas de mau humor pelo simples fato de acordar, e se esquecem que elas ao menos acordaram, se esquecem que nesse mesmo momento existem pessoas que só não estão mortas por que estão nos aparelhos, pessoas que não se podem dar ao luxo de acordar, mas bem, não adianta são os outro não agente. Pego o jornal, já sabendo o que encontrar, ou futebol, ou morte, ou política, dificilmente tem nascimento, ou outra coisa do tipo, normalmente é uma tragédia ou futebol.

Bem dessa vez foram os dois, tragédia e futebol, dividindo a manchete, parece que mais uma “bala perdida” foi achada, dessa vez numa garotinha de 12 anos, e parece que o corinthians perdeu, me pergunto qual das duas noticias vai chocar mais, talvez eu seja desumano, mas não sinto absolutamente nada pela morte da garota, de certa forma essas mortes se tornaram parte do cotidiano, sabe, pessoas morrem a toda hora, talvez haja uma forma de impedir isto, mas creio que ainda é cedo para esta forma se mostrar no meio de nós.

Pensando naquele suposto sonho que tive e olhando pra este mundo aqui em que supostamente vivo, me vem a cabeça uma velha frase de uma velha musica do Raul: “PARE O MUNDO QUE EU QUERO DESCER!”

Marcos Alberto

ps: voltei, eu sei, preciso treinar e quem sabe com tempo escrever decentemente dinovo irei

Posted by M.A at 02:17:29 | Permalink | Comments (7)

Tuesday, March 6, 2007

Pegue o cigarro.

Os relatos dos palestinos sobre ofensas e afrontas de judeus sempre têm o mesmo inicio. Sempre e esse relato não é diferente. Gasshan estava dormindo, o sono na Palestina é incerto, a cidade é barulhenta, o exército judeu sempre ronda a cidade com seus jeeps e caminhões durante a noite, trepidando as ruas de paralelepípedo, fazendo barulho e despertando a cidade, também têm a retaliação dos palestinos, coquetéis molotovs e pedras bailam no céu durante a noite. A mercê das estrelas, a noite nessas cidades são campos de batalhas, e aquela noite não era diferente.

Gasshan estava dormindo, seu sono não era profundo, o sono na Palestina não é profundo. Não é profundo o quanto deveria ser, seus sonhos são profundos e quem dera de seus sonos serem também. Gasshan despertou com a sua porta arrombada. A gritaria, e quando saiu do seu quarto na escuridão vários soldados e policias reviravam suas coisas e olhavam fotos.

Pisotearam ele, renderam-no, vendaram-no, prenderam as mãos deles com presilhas de plástico e ele foi empurrado para o chão gelado da cozinha. Todo cachorro tem seu dia, rogou um soldado enquanto o empurrava para o chão. Gasshan protestou seus direitos, ele havia esposa e filhas. Tiraram a venda e lhe mostraram um papel, sua visão estava embaçada e ele mal podia enxergar os rostos que lhe cercavam, mas mesmo assim lhe esfregaram o papel na cara e disseram que aquilo era um mandato para entrar e revistas sua casa. A acusação era de participar de uma organização ilegal. Como sempre, ele não havia feito nada.

Fotografaram seu estado deplorável, de pijama e com o rosto assustado ele saiu em duas ou três fotos de uma Polaroid, vendaram ele novamente e arrastaram ele para dentro de um caminho, ele podia ouvir sua esposa gritar por misericórdia, uma filha chorando e uma questionando aos gritos onde levariam seu papai. Mesmo assim ele foi chutado para dentro de um carro, ele circulou por uns dez ou quinze minutos, ele não sabia onde estava indo, mas podia imaginar.

Ele foi desvendado e percebeu estar dentro de uma delegacia, o policial olhava os documentos que haviam pego de sua casa, um possível médico se aproximou e perguntou se ele havia alguma doença. Não. Depois se havia alguma dor. Não houve resposta, e nenhum exame. Alguém se aproximou com uma câmera fotográfica e fez mais algumas fotos dele, perfil e de frente. Ele já se sentia um detento.

Colocaram um saco na cabeça dele, o saco tinha um cheiro sujo, como urina e empurram ele na escuridão. Os primeiros passos foram difíceis, mas logo conseguiu se equilibrar sem a visão e sendo puxado por um oficial. Mandaram ele sentar em uma cadeira, ele tentou tatear no escuro, mas suas mãos estavam presas, achou a cadeira, ele se sentou. O oficial prendeu sua mão direita no encosto da cadeira, e a esquerda em uma barra de metal frio perto da cadeira. As amarras estavam apertadas, ele escutou uma porta se fechando. Não tiraram o saco de sua cabeça, o cheiro era horrível. Sua respiração estava irregular e muito agitada, ele tremia muito, seu nariz escorria e sua boca estava seca.

Uma eternidade passou naquela situação, ele pensou ser três ou quatro horas de cárcere, mas eram apenas trinta minutos, seu ombro, suas costas, seu cotovelo, joelho, coxa, pescoço, tudo ali gritava de dor. Ele tentava se posicionar de uma forma melhor, mas as amarras estavam apertadas, ele sentia que era difícil pro coração bombear o sangue, ele já quase não sentia a mão… E mais uma eternidade passou…

Cinco, seis horas reais, e alguém abriu a porta e levantou ele da cadeira, guiou ele por um caminho desconhecido, e sentiu uma porta se fechando a suas costas, sentaram ele em uma cadeira e tiraram o saco de sua cabeça. Ele viu um homem forte e careca apoiado em uma mesa, o homem leu um papel e disse que ele era suspeito de pertencer a uma organização ilegal. Ele negou, mas não era suficiente. O homem disse que ele poderia confessar, se não fizesse poderiam fazer alguma outra coisa, e foi o que fizeram.

Voltaram Gasshan para a mesma cadeira e com o mesmo saco sujo na cabeça. Depois de duas ou três horas alguém entrou na cela tirou o capuz e lhe deu um prato de comida, disse que ele tinha dois minutos para comer o máximo que pudesse. Ele já estava comendo antes de iniciar a contagem. Ele ia rápido e tentava pegar o máximo de cada, não mastigava direito, engolia as pressas. Acabou o tempo e ele haviam comido pouco, e só feito sujeira. Recolocaram o capuz, refizeram as amarras e quatro, cinco, oito, dez, quinze, vinte, trinta eternidades se passaram, e ele apenas enchia pulmão, esvaziava pulmão. Seu estômago reclamava.

Fazia muito frio, ele tentou mudar de posição e caiu da cadeira, suas mãos continuaram presas e doíam muito com o peso do corpo sobre as amarras. Ele chamou por alguém e alguém veio lhe arrumar na cadeira e disse que ele era um idiota e perguntou o por quê de não ficar quieto.

Não foram algumas horas depois. Algumas não. Não eram só ‘algumas’, eram várias, e cada uma delas passavam tão lentamente como… Como… Como eternidades… Vidas inteiras poderiam começar e terminar durante aqueles segundos que eram suficientes para se aproveitar o máximo que a vida tem pra oferecer.

Entraram novamente na sua cela, lhe empurraram, lhe fizeram as mesmas perguntas e houve as mesmas respostas. Fizeram novamente isso e novamente. Mas uma delas foi diferente, lhe levaram a um julgamento. Tiram-lhe o capuz e as amarras e deixaram ele esperando sentado em um escritório. As marcas no pulso eram fundas, e doíam muito. Esperou por umas cinco horas, e depois mais duas horas. Vieram lhe buscar e levaram-no a corte, fizeram a acusação, mas o juiz deu mais prazo a policia antes de inocenta-lo, oito dias, oito milhões de eternidades para a policia coletar mais provas. Não havia provas, nenhuma, mas havia oito dias para procurar mais, oito grandes dias…

Recolocaram o saco na sua cabeça e o levaram novamente a cela, agora não tinha cadeira, deixaram ele de pé, com as mãos amarradas em um cano. Depois de feita a posição um guarda veio e pisou com muita força em seu pé, ele quase caiu. Não se mova! Gritou o guarda depois de ter pisado no pé de Gasshan.

Mudavam a posição dele a cada quatro ou cinco horas, era uma forma de manter ele acordado e de Gasshan manter o horário atualizado. Não se mova! Não se mova! Não se mova!

Até colocarem ele na cadeira de novo. Mãos amarradas.

Eles entravam poucas vezes ao dia, lhe davam um prato, uma colher e dois minutos. Que com o tempo, ele aprendeu a usar com sabedoria, mastigando com cuidado para evitar dores. Também lhe davam tempo sozinho com um balde sujo, ele fazia o que ninguém podia fazer por ele e depois voltava a sua cadeira e ao seu capuz.

Depois de quatro dias sem dormir, Gasshan começou a ter alucinações. Alucinações. Viu sua filha morta aos seus pés, ele via o corpo, sentia o corpo, até o sangue molhando seus pés descalços. Depois seu irmão se sentou ao seu lado. Depois seu irmão estava morto aos seus pés, capotado ao chão já era um cadáver. Mio tio estava morto, minha mãe estava sendo presa. Ele via sua mãe em coma em um hospital precário, ninguém cuidava bem dela. Sua filha morto, tio, irmão, mãe…

Ele teve alucinações até mais ou menos o 15º dia, só parava quando lhe empurravam para o interrogatório ou para seus dois minutos. Ou quando lhe davam tapas na cabeça, para não dormir. Depois de mais quatro dias deixaram ele dormir em um cama em outra cela. Dormiu por cinco ou seis horas. No outro dia ele tinha dores horríveis no peito. Chama por alguém, mas alguém não vinha. Ninguém vinha. E ele gritava e chorava até suas forças se acabaram e ser ajudado pela alucinação de sua filha ou de seu tio. Ele foi levado ao um consultório, o médico disse que a sua pressão estava baixa e que deveriam diminuir a pressão das amarras.

Voltaram ele a cela e apertaram mais forte, ele não tinha mais esperança e não fazia mais nada para sobreviver, até que entravam e apertavam ainda mais as amarras. Mais e mais.

Foi julgado de novo e de novo, sempre davam mais tempo para provas. Apertavam mais as amarras e lhe perguntavam sobre a confissão. O juiz concordou em dar mais sete dias, ele agora foi levado a outra cela, menor, mas agora sem capuz, ela era suja com urina por todos os lados. Gasshan estava decidido a não sentar em um banco de cimento por estar todo mijado, mas só resistiu a algumas cinco horas. As alucinações agora eram piores, ele via a cela enorme, tenta andar mas batia forte contra a parede, agora ele conseguia tocar o corpo, e o corpo estava lá! Frio e sem expressão, sua filha estava morta! Gasshan chorava.

Em um julgamento ele estava tão cansado que não conseguia responder as perguntas do juiz, ele pergunta se ele fazia parte da organização ilegal. Organização ilegal? Repetia Gasshan. Ele não conseguia raciocinar, seus olhos fechavam sem seu comando, pois ele não comandava mais o corpo. Ele estava cada vez mais sem esperanças.

Um dia frio o levaram para outro lugar, com capuz e amarrado a uma cadeira, parecia estar em um corredor, de repente começou um vento gelado a soprar e Gasshan se tremia e sentia o frio na alma. Não demorou para os primeiros pingos caíram em sua cabeça. Depois a tempestade realmente começou, e durou muito tempo. Muito tempo.

Visitei a corte novamente e o juiz me deu mais quatro dias. Quatro zilhões de eternidades ainda restavam.

Na cela, sentado e amarrado, um guarda perguntou se queria tomar banho. Se tiver água quente, sim. Respondeu Gasshan sonolento. Ele tomou banho, era seu primeiro banho em um mês? Dois meses? Primeiro banho em uma eternidade?

Lhe deram roupas que seus familiares mandara, no bolso de uma calça Gasshan achou um barbeador e fez a barba que estava bem grande, voltou a cela, uma cela diferente com cama, e deixaram ele dormir por cinco ou seis horas. Mudaram ele de cela, depois mudaram de novo, parecia que faziam a cada quatro horas. Na última cela, bem confortável, com cama e cobertor, ficou lá por dois dias, era sábado, Sabbath e não o atormentaram.

Frente a corte novamente, o oficial da policia pediu mais dez dias, seu advogado disse que ele deveria ser libertado imediatamente. A juíza, que estava substituindo o juiz. Finalmente libertou Gasshan. O coitado não tinha forças para sorrir e parecia que iria ter diarréia.

Do lado de fora da delegacia um policial lhe ofereceu um maço de cigarros. Pegue o cigarro! Ofereceu com a máximo de cortesia que podia, Gasshan aceitou. Como se fosse um prêmio por não ter confessado algo que não vez. Ele não fumou um cigarro se quer, honrado.

Sua filha não havia morrido, nem sua mãe, nem seu tio.

Decidido a se livrar dos cigarros, deu ao seu tio. Que fumou com prazer a vida que fora devolvida para Gasshan.

Naquela noite Gasshan teve uma boa noite de sono. Que durou menos que uma eternidade. Bem menos.

Lucas Lins.

PS: Bem menos.

Posted by L. L. at 23:48:35 | Permalink | Comments (6)