John, O Homem Que Não Existiu.
John dói um amigo meu, quer dizer, estudou comigo alguns anos, depois se ausentou da escola em que estudávamos, e para falar a verdade, nem sei se continuou estudando depois disso. O fato é que sempre considerei muito ele, não foi meu melhor amigo, mas sempre mantive um certo relacionamento de amizade com o cara.
Mas sempre tive uma dúvida, o John realmente existiu? Como assim que ele sempre contou muita mentira. Como assim que seus pais em uma semana estavam separados e em outra se amando. Como assim que ele entrava em nossas vidas, soltava suas mentiras saía como uma mentira e deixava um certo vazio onde costumávamos preencher com suas mentiras. A profissão de sua mãe sempre foi um rumor, uma fantasia, um mito. Em uma semana ela era dona de uma próspera franquia de lojas de jogos. “Ah é? Qual o nome da loja da sua mãe? “ Perguntávamos para ele, e ele respondia que era aquela do solzinho. Eu insistia dizendo, qual era o nome? E ele respondia novamente que era aquela do solzinho. É meio estranha uma coisa dessas, não que a sua mãe não seja capaz de administrar uma loja de jogos, mas ele não saber onde a mãe dele trabalha é um pouco exageradamente mal pensando, até mesmo pra uma mentira. Na semana posterior a isso, ele estava dizendo que sua mãe era gerente de uma loja de aparelhos celulares da franquia “Claro”. “É claro, John, sua mãe trabalha lá, e em uma semana ela vai abrir sua própria loja especializada”. E na outra semana sua mãe estava “correndo atrás da papelada para abrir a sua própria loja”.
E tem também o irmão dele. Certa vez disse para ele que adorava a percussão dos rocks da vida, ele respondia sem nem pensar que seu irmão era baterista e líder de uma banda de rock de “sampa”.
Certo John, seus familiares fazem tudo que sempre sonhamos. Nunca duvidei que ele falasse mentira por aí, mas tem hora que dói. Porém, mesmo com seus defeitos ele foi e é muito gente boa, pois além de tudo, ele sempre estava pronto pra te defender do que for, por que? Porque ele contava umas histórias dignas de thrillers sobre suas brigas pela cidade a fora. E quando menciono “briga”, isso envolve armas brancas, sangue, dentes voando, sangue, chutes, sangue, socos na cara, sangue, chutes no saco, sangue, algumas vezes até estrupos e é claro, muito sangue.
Há um anos atrás o John voltou a estudar comigo, relembramos bons momentos e sua presença fez o ano-letivo durar pouco como uma mentira. E ele acabou saindo da escola no fim do ano, levou com ele uma reprovação (pois conversava muito na sala de aula) e muitas histórias macabras, de sucesso familiar e como é imaginável sangue.
Algumas semanas atrás, por culpa da instabilidade da temperatura global, durante a manhã se fazia frio e durante a tarde muito (muito) calor. E isso fez com que v´rias pessoas levassem agasalhos para a escola, mas que, porém usavam só pela manhã e quando se aproximava do meio-dia, elas ficavam inúteis. Agora imagine, muito calor, muitas blusas guardadas, amarradas em cinturas, jogadas pelo chão, penduradas nas janelas, e em qualquer lugar que simulasse um cabide e fosse forte suficiente para agüentar a pesado e espesso pedaço de lã.
Acontece que fiz uma brincadeira, peguei uma dessas blusas, coloquei por cima de uma cadeira (no encosto, simulando como se alguém estivesse usando a blusa), coloquei um boné onde deveria estar a cabeça de alguém que estivesse usando a blusa. O que fez uma ilusão precária como uma mentira, de que aquilo era uma pessoa sentada. Uma ilusão precária de alguém que existia, mas que não existia. Uma mentira que dei o nome de John.
Eu nunca soube se o John realmente existiu, ele fazia com que nós tivéssemos esse tipo de dúvida. Por que John? Porque só seu nome era real, como o boneco da cadeira, que sua única realidade é seu nome. Como o boneco da cadeira. Com blusa no calor, com boné em sala de aula, é acima de tudo, fazendo parte de uma grande mentira.
Mas seu nome, seu nome era real. “Jota, ó, agá, enê” como ele dizia quando iríamos mentir que ele participou do nosso trabalho, só pra ele ganhar nota, e quando mentíamos pondo Jhon, Jonh, ou Jon. Falsos nomes. Que ele desmentia, soletrando.
Mas a verdade é uma só, e diferente da mentira, dura pra sempre. Todos nós somos um pouco de John, e nunca. Nunca, existimos.
Lucas Lins
PS: “É a diferença entre eles e nós” – G. A-Lion.
nunca existimos…..isso ecoa aqui dentro…
Muito foda como sempre!!!
Acabei de encontrar esse site, mas ja li vários textos do Lucas Lins… Ele escreve bem e eu o conheço o trabalho dele faz um bom tempo, acabei de salvar os textos para ler com mais afinco mais tarde, mas desde já, recomendo a leitura!
Uhu! Esse é o Major.
olha só….recomendações….isso é bom!!!!