Meu rumo.
Ela se despediu da amiga com um beijo no rosto, se virou e ambas seguiram direções opostas. Ela seguiu andando, até entrar em uma farmácia, antes de entrar tirou os fones do ouvido e guardou o celular no bolso. Ela provavelmente estava voltando da escola, estava com uma bolsa enorme nas costas, fones no ouvido que estavam ligados em algo que parecia um celular, talvez por ser grande demais pra um mp3 player, o fio do fone era pequeno e ela carregava o celular em uma das mãos e a outra mão ia no bolso. Ela usava uma camisa roxa, uma camisa dessas que todas as mulheres usam, a calça eu não me lembro, mas a camisa era roxa.
Eu vi ela entrar na farmácia, e imaginei o que ela fosse fazer lá. Talvez trabalhasse lá, talvez sua mãe trabalhasse lá, talvez morasse nos fundos da farmácia, talvez estivesse resfriada, talvez estivesse indo à farmácia comprar um teste de gravidez, talvez estivesse entrando na farmácia por um impulso, talvez ela não controla seus impulsos. Eu não sei o que ela foi fazer lá, ela entrou e saiu da minha vida como quem cruza uma rua. Nem sei se posso dizer que entrou na minha vida, e também não tenho certeza se ela saiu, ela apenas passou diante dos meus olhos, por poucos segundos. Mas sei que naquela momento ela foi passageira, não sei se deixou rastros, marcas, mas naquele momento antes de entrar na farmácia ela foi com uma nuvem branca. Não sei se essa nuvem vai voltar carregada de chuva, ou se vai continuar com seu itinerário sendo branca como o algodão. Mas algo me fez notar ela, e acho que foi esse excesso de transitoriedade. Eu não sei o que ela iria fazer, mas posso imaginar o que iria fazer se vivesse nas minhas idéias, se fosse um personagem da minha história, se eu pudesse desvendar os seus pensamentos. Acho que seria mais ou menos assim:
“É um saco morar na mesma direção que essa menina. Cara, ela consegue encher o saco. Será que ela não percebe que eu estou com o fone de ouvido porquê eu NÃO quero ouvir ela falando da sua vida?! Estou ouvindo Supertramp e o Supertramp é muito mais interessante que esse tal falatório sobre sua mãe fazer não sei o que, pra não sei quem, pra ganhar não sei o que. Se eu quisesse saber disso perguntaria: “O que sua mãe faz da vida?” Mas eu não perguntei! Então, calada menina.
Se ela ouvisse meus pensamentos seria constrangedor.
Quando eu vejo a farmácia percebo minha chance de escapar. É aqui que eu fico, digo a ela. Tudo bem, vai na farmácia? Sim e não, respondo pra ela, se eu respondesse que sim, ela perguntaria o porquê, se eu disse que não ela também perguntaria o porquê, então vou ser confusa. Bye bye, digo pra ela, assumindo minha vontade de ser inglesa e dou um singelo beijo no rosto dela, viro minhas costas pra ela, dou quatro passos na direção oposta a dela, e penso que esses passos foram como se eu tivesse assumido quatro vezes que não fiz nada para entrar na vida dela, e nada para sair, como se tivesse assumido quatro vezes que sou uma nuvem branca. O acaso fez eu me encontrar com ela, e eu dei quatro passos para nos separar, me sinto ingrata por isso, ela era chata, muito chata, mas eu deveria ter aproveitado mais, deveria ter marcado mais, amanhã ou depois vou encontrar com ela de novo? E se não? E se ela morrer amanhã? E seu eu morrer amanhã? Ela lembraria de mim? Eu poderia ter dito algo marcante pra ela, ter feito algo marcante, mas não. Simplesmente dei quatro passos. Como se pedisse quatro vezes para ela me esquecer…
Aumento o volume como nunca antes. E deixo a musicalidade do Supertramp encher minha alma.
Entro na farmácia, finjo que vou comprar algo, e saio da mesma forma que entrei, sem aviso, sem pensar, sem ninguém perceber, só para disfarçar. Depois continuou minha caminhada até em casa, o sol esta forte, muito forte, as ruas estão muito movimentadas. As ruas estão cheias de gente, cheias o suficiente para ser planejado um motim contra o governo sem atitude, mas ninguém presta atenção em ninguém. Ninguém presta atenção em ninguém. Ninguém presta atenção no governo.
Minha caminhada para no ponto de ônibus, tem um lugar e é protegido do sol. Me sento e deixo novamente o Supertramp penetrar em mim, e ele o faz. Ao meu lado tem uma velha senhora, já bem idosa, daquelas que usa vestidos longos, cabelos brancos e amarrados na altura da nuca, bem magra e muito, muito quieta. Como eu, se não tivesse o Supertramp, como se a diferença entre eu e ela fosse o Supertramp. O silêncio dela seria por falta de companhia? Quer dizer: tanta gente passando por aqui, e ninguém pra dizer nada a ela, ela já esta fraca e decaída, uma conversa não assassinaria ninguém. Eu penso isso como se não visse parte desse mutirão de pessoas que passa pra lá e pra cá. Pra fazer jus a isso, começo uma conversa com a vó, ela não me responde. Tento de novo, ela não responde de novo.
Aí penso em outra maluquice, ela que é surda ou eu que sou muda?
Não sei, só sei que meu ônibus vem vindo aí, dou sinal pra ele e subo. Deixo a velha senhora pra trás, deixo a surda e sua surdez, saio da vida dela da mesma maneira que entrei. E sigo meu rumo”.
E eu também sigo o meu.
Lucas Lins
PS: Pé na estrada!
http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=98898
O pior de tudo é que a meninha ta fazendo um L com a mão. T_T
Postar aqui é como falar com um espelho, você mesmo fala, você mesmo responde, receptor e emissor são os meus. E pra falar a verdade, isso é bem parecido com pensar.
sem querer interromper o pensamento…
perdedor é aquele q entrou para a briga ja derrotado…
Esse mesmo. (H)
e vc é um?