Guerra de insetos.
Um! Dois! Três! Fora! Ele está fora! Inacreditável! Inacreditável o nocaute que derrubou o Mike “Brutamonte do Bronx”. Inacreditável!
O escritor lutava ferozmente com o sono, com a fome, com a dor de não conseguir escrever, com a dor de cabeça e com a falta de dinheiro para tomar um trago. Ele estava tão desnorteado que não conseguia lembrar do seu nome, Edgar. O rádio gritava alto a derrota de mais um nova-iorquino, isso é hipocrisia pura, nesse estado em que a cidade se encontra não existem derrotados, não existem vitoriosos, não existem nem lutas, não existem enclaves, não existem batalhas, nem guerras, nem armas, nem campeões, nem nada, pensava o falido escritor. O escritor se levantou da cadeira e arrastando os pés foi até o rádio, levou a mão no desligar e desligou. Mas algo fez ele ligar novamente o rádio, enquanto o som voltava aos seus ouvidos aos poucos, ele se deu conta que foi hipnotizado pela imagem que se formava em sua mente do Brutamonte do Bronx sangrando aos pés do seu vitorioso adversário.
A diferença entre artistas bem sucedidos e artistas que passam fome é um mínimo fator. Artistas bem sucedidos estão sempre inspirados, conseguem fazer obras primas quando querem. Artistas que passam fome não, por isso passam fome, pois se conseguissem fazer arte quando quisessem iriam fazer arte no momento da fome. E Edgar passava fome, e não era bem sucedido, e ele não sabia se era mais raro os momentos em que ele não estava com fome ou os momentos em que ele estava inspirado.
E foi isso que fez ele ligar novamente o rádio. Poder imaginar a imagem de um derrotado entre os derrotados foi inspirador. Edgar voltou rápido à escrivaninha pegou rápido o lápis e começou a escrever. O lápis não dançava mais em sua mão, agora o lápis e sua mão dançavam em sincronia em cima das linhas do papel. Edgar traçou rápido a primeira linha, e assim, rápido como um flash, o Brutamonte do Bronx voltou a respirar no vestiário daquele precário estádio de boxe amador.
A primeira imagem que Mike viu foi a de seu treinador completamente bêbado apoiado nas paredes sujas do vestiário, vomitando horrores. Horrores. Mike não sabia quem estava pior, seu nariz, seu queixo, sua costela ou sei treinador. Você foi derrotado de novo Mike, disse o seu treinador com sua voz rouca entre soluços e risadas risonhas.
Mike estava deitado no estreito banco de madeira do seu vestiário, ele tremia muito, mas se precisasse encararia mais uma luta dessas, afinal, derrotar não é nada. “Vencer é tudo! Tudo!” gritou o raquítico treinador do Mike, o nome dele era Delano. Mike se preparou para o sermão, também se preparou para tomar uma ducha no emporcalhado vestiário e se trancou em um dos boxes. Ele estava dividindo o chuveiro com mais três baratas, naquele momento ele não se importava mais, na realidade, nunca se importou e antes que percebesse o sermão já havia começado: Mike! Mike! Esta me ouvindo Mike! Você é o pobre do podre Mike! Você consegue ser pior que a escória do Bronx, Mike! Essa luta era importante Mike! Era! Era importante, Mike! Porque você jogou toda a importância dela pela janela, a importância da luta está lá no ringue, misturada com o seu sangue, Mike! Mais uma vez você perdeu Mike! Está me escutando, Mike? Respeite esse velho e responda ele!! Mike! Está me escutando, Mike?
Não, Mike não estava escutando. Mike estava submerso na abstinência da vitória, e nesse momento se perguntava por que sempre ele. Por que? Por que ele tinha que sangrar no ringue? Por que ele tinha que dividir a ducha com três baratas? Por que ele tinha um treinador como o Delano? Mike não sabia. Delano não sabia.
Edgar sabia.
Edgar bocejou na escrivaninha, decidiu ir dormir, mesmo com fome, de uma forma ou de outra era uma maneira de aproveitar um pouco mais o momento de inspiração, presente do derrotado Mike “Brutamonte do Bronx”. Edgar estava sem sono, ficava pensando no desfecho da sua história, nas próximas desgraças, e pensar nas desgraças dos outros foi uma ótima maneira de parar de pensar na sua própria desgraça. E quando menos esperava, dormiu.
* * *
Edgar sonhou.
Mike saiu do vestiário, não deu satisfação ao Delano, e nenhum apostador estava a sua espera do lado de fora do estádio fundo de quintal. Talvez porquê ninguém havia apostado nele. Mike cruzou as ruas escuras e perigos do Bronx e chegou rápido em casa, teve uma briga com sua mulher, não havia comida, não havia dinheiro e nem sono. Mas mesmo assim Mike foi pra cama. Antes de dormir Mike fez planos sobre a sua carreira.
Planos que nem Edgar podia pensar.
No outro dia de manhã Mike estava disposto a ganhar, escutou novamente as mesmas falas de Delano, dessa vez era diferente. Mas de uma maneira ou de outra, havia outra luta marcada.
Mike treinou, Mike suou.
Edgar acordou, procurou algo pra comer e foi frustrado, ficou um tempo deitado pensando na vida e no rumo que tomaria a história de Mike, e ansioso foi continuar a história:
Já era véspera de sua próxima luta, Mike treinou, Mike suou. Mike viu sua filha, sua mulher passarem fome. Mike passou fome.
Mike treinou, Mike suou.
Mike estava disposto a virar o placar, Mike estava disposto a ganhar. Anoiteceu. Amanheceu, escureceu e a luta estava prestes a começar, Mike dividiu o chuveiro com três baratas, mas dessa vez não ligou, iria ser a última vez. Delano sentia a energia que Mike emitia e estava otimista, Mike também estava.
O estádio precário era o mesmo. A transmissão de rádio pirata era a mesma. Mas a situação não era, Mike iria ganhar, ele sentia. Mike entrou no ringue e sentiu que as luvas estavam leves, dessa vez ele iria levar o prêmio. O gongo soou! É chegada a hora.
Seu adversário avançou sobre ele como uma onda, desferiu um golpe estrondoso contra o rosto de Mike, que foi levado ao nocaute. Nocaute…
Mike começava a se perguntar se ele realmente tinha as rédeas da própria vida. A situação se repetia, dessa vez Mike foi para sua casa sem tomar uma ducha, e teve que dividir seu quarto com sua esposa e três baratas. Pelo menos ainda tinha uma casa.
Edgar parou de escrever e foi dormir:
Mike não conseguia dormir. Um sentimento de culpa enorme o laçava e dominava seu sono, ele não conseguia nada, não conseguia ganhar, não conseguiria nem perder se quisesse, Mike estava revoltado consigo mesmo. Mike estava sentado no vaso sujo de seu banheiro, lágrimas escorriam de seus olhos e ele começava a pensar em suicídio.
* * *
A vida de Edgar não ia tão bem quanto deveria, o momento de inspiração não estava tirando ele do buraco. Não, não estava. Edgar ainda passava fome, Edgar ainda não conseguia companheira, não conseguiria nem pagar por isso, o momento de inspiração não havia mudado em nada a vida dele. A não ser que agora, em vez de simplesmente ser o perdedor, ele podia fazer alguém também perder. Mesmo sendo hipocrisia. Então ele escrevia, e tentava fazer como se a escrita fosse seu almoço, desjejum e jantar:
Mike acordou cedo, boxe não era a sua vida, foi atrás de um emprego, assim como milhões de nova-iorquinos. Tentou nas industrias, tentou nos comércios, tentou nos cortiços, tentou nas sarjetas, tentou nos bares. Mas ou estavam na mesma situação que ele ou pior. Em menos de meio-dia todo seu leque de opções profissionais havia sido negadas. Desde ajudante de escritório até cobrador de dívidas da máfia, Mike não conseguia, Mike não conseguia. Você não consegue, Mike. Era o que todos diziam.
Então Mike decidiu voltar a sua humilde casa em um dos milhares cortiços do Bronx. Encontrou sua mulher e sua filha as lágrimas na porta de sua casa, era só o que faltava. Sua mulher batia na porta incansavelmente, o que lhe restava de móveis estava empilhado na frente da sua porta. Sua filha, sentada em cima de uma cama sem colchão agarrada em um boneca choramingava. Mike tentou acalmar mãe e filha, mas não conseguia. Mike não conseguia.
Aqueles móveis empilhados em um dos estreitos becos do Bronx dava asas a imaginação de marginais, marginais que já rondavam por ali e já planejavam roubar cama, roubar rádio, roubar mesa, seria fácil, pois o pai da família era um perdedor e não conseguiria se defender.
E assim um primeiro grupo de marginais veio se aproximando das tralhas de Mike, Mike percebeu o perigo, mas era tarde demais, dois homens conhecidos da vizinhança já carregavam para uma parte escura do beco um dos seus móveis. Os número de marginais aumentava cada vez mais, fechando um círculo entre Mike e sua família e o mundo exterior do cortiço. Um deles ameaçou Mike com uma faca, tudo! Ele disse. Passe tudo! Mike esvaziou os bolsos em cima de uma mesa de madeira, um moleque veio e pegou todos os sues pertences e o marginal que estava armado com a faca levou a mesa para seu apartamento do cortiço. Mike tentou impedir, mas não conseguiu.
Aos poucos foram levando tudo que lhe restava, Mike reagi sempre que conseguia, lutava, mas não conseguia vencer, um deles estava armado e já havia lhe perfurado próximo da sua costela. Mike estava exausto e furado, mas mesmo assim tentava a todo custo, mas os marginais o detinham com socos e pontapés. Mike não conseguia, mas tentava! Mike avança todo o momento mais os marginas cercaram eles e o círculo se fechava cada vez mais e mais. Eles derrubaram Mike e bateram nele até ele desmaiar, ele estava ensangüentado, sua esposa, sua filha lá ao seu redor, com medo. Com muito medo. A criança tremia tanto, a mãe tentava proteger a filha e abraçadas elas viam seus últimos pertences indo na mão daqueles que eram seus vizinhos.
Mike e sua família caíam de cabeça no mar da mendigagem. Mas Mike não percebia estava novamente desacordado e se quanto menos barulho sua mulher fazia mais seriam as probabilidades dela sair sem nenhum arranhão. Mas ela fez muito barulho, muito barulho, quando Mike caiu e não levantou ela começou a gritar um grito estridente e nenhuma mão conseguia tapar sua boca, nenhum golpe no estômago conseguiria lhe tirar a respiração. Ela gritava de desespero seus olhos mostravam o quanto ela estava desesperada, e para saciar seu desespero um dos bandidos passou a faca em sua boca, fazendo um corte horizontal do lábio até quase a orelha, depois ele enfiou a faca forte no peito dela. Ela se engasgou no sangue quente que escoria pelo seu corpo, caiu no chão e ainda acordada via seus pertences sendo levados, não conseguia reagir, não conseguia gritar, sua única defesa foi desmaiar.
Desmaiar e deixar sua filha sozinha.
* * *
Mike acordou no vestiário, como se tivesse passado por uma derrota no ringue. Delano lhe disse que sua mulher estava no hospital, que sua filha havia desaparecido.
Edgar começou a bocejar e resolveu dormir, sua história lhe servia como desjejum, almoço e janta, e logo logo serviria como meio de renda. E isso dava a Edgar bons sonhos.
Edgar dormiu:
Mike não sabia onde ir, e por isso foi andando com Delano até o hospital. Quando chegou no hospital soube que sua mulher havia morrido por hemorragia. Mike ficou fora de si. Delano tentou reconforta-lo e não conseguiu. Mike sentando em um banco de madeira do hospital lotado e precário chorou. Chorou por não saber o que fazer.
Sem pensar em nada.
Sem pensar em nada.
Mike voltou em passar curtos e lágrimas longas até o vestiário do estádio precário.
Sem pensar em nada.
Sem pensar em nada
Mike amarrou uma toalha na barra de exercícios, deu um nó envolta do seu pescoço e sem pensar em nada pulou daquele banco que dividia com três baratas. A toalha esticou e seu pescoço também, sentiu seus olhos ardendo e seu pescoço gritando. Entrou em pânico, seus braços procuraram em algo para segurar, e acharam.
Edgar estava tentando um sonho agradável sobre o futuro do seu personagem. Mas seu sonho teve um lapso, ele acordou assustado, mas não podia se mexer, estava paralisado. Paralisia do sono, Edgar sentiu algo tateado seus pés e puxando eles. Edgar foi puxado e caiu em um abismo.
Os braços de Mike seguram firme no que acharam e puxaram forte, mas antes que pudessem se salvar, Mike morreu.
Edgar caiu em um abismo infinito, sendo puxado eternamente pelo seu pé.
Em um momento Edgar encontrou o chão, e foi esmagado contra ele.
Edgar morreu. Morreu, consumido por um sonho do Brutamonte do Bronx.
* * *
O policial pensava na causa da morte daquele homem. Morto, encontrado deitado na sua própria cama, nenhum sinal de a morte fosse sido causada por alguém. De alguma maneira o policial suspeitava de algo:
Os armários estavam vazios, o morto extremamente magro. Ninguém gastaria veneno nesse imprestável, desconhecido e esquecido. A morte foi por falta de glicose, ou seja, morreu de fome.
A única coisa prestável que tinha em todo esse minúsculo apartamento era um rádio, uma escrivaninha e uns papéis rabiscados, o policial leu o último parágrafo: “E então Mike conseguiu! Pela primeira e última vez ele conseguiu! Matou e venceu seu principal adversário”.
Lucas Lins.
PS: Esse é o tipo de escrita que me orgulho de escrever.
<o/
Quando a historia cria o escritor…..
e há msm…motivos de sobra para se orgulhar!
kkkkkkkkkkkkkkkkkkk.
eu ñ vi vcs falando do inseto gongo,porque no incio só tinha falando do autor e ñ do gongo por isso fiquei com priguiça de ler o resto