Monday, June 18, 2007
Saturday, June 16, 2007
O Motorista da Coca-Cola e outras histórias.
Graciliano e muitas pessoas do globo terrestre tinham uma coisa em comum, trabalhavam para a Coca-Cola. Graciliano dirigia o caminhão que fazia as entregas dos produtos da Coca-Cola, ou seja, ele visitava todos os bares, lanchonetes, mercados, super-mercados e hiper-mercados da região, com uma freqüência muito alta. Graciliano e seu parceiro de emprego que estava sentando ao seu lado no caminhão vermelho, tinham algo em comum com milhares de pessoas, além do uniforme da Coca-Cola que vestiam, ainda existia a parte de serem células de um câncer gigante que bebia o mundo em goles grandes.
Graciliano sabia, mas não fazia idéia. Não obstante ele era uma ferramenta dessa enorme industria, um tentáculo, a divisão entre o produtor e o consumidor. Mas também não era só o Graciliano, ele também não fazia idéia, mas ele não era o único da região, nem do estado, nem do país, nem do continente, e nem do mundo. Existiam milhares de outros Gracilianos no mundo, existiam Gracilianos no Japão, na África. Existia Graciliano cruzando o deserto do Saara, existia Graciliano no Cairo, existia Graciliano sentado ao seu lado, e é claro, ele existia. Isso não fazia com que o ofício de Graciliano fosse atroz, nem ruim, pois Graciliano não sabia o que estava sendo para o mundo. De jeito nenhum.
Mas Graciliano estava ocupado demais para pensar nisso, ele estava checando a prancheta de entrega, com um olho seguindo o endereço de entrega e com o outro na estrada. Graciliano teve um pensamento quando quase fez um acidente. Ele pensou em como eram pouco os acidentes nas estradas do mundo, não que deveriam ter mais, mas que eram pouco, pouquíssimos em pensar que eram pessoas diferentes, de credos, raças e pensamentos diferentes na mesma rua. Pois pensando dessa maneira, pessoas estranhas convivendo com pessoas estranhas, os acidentes que já ocorriam eram ínfimos com o que ele esperaria que acontecesse.
Graciliano chegou ao local de entrega e fez a entrega.
Graciliano voltou ao caminhão vermelho e voltou a dirigir. Enquanto atravessava a cidade com os olhos na estrada e com o pensamento longe viu duas pessoas cortando uma árvore, e pensou no que eles estavam fazendo: cortando uma árvore. O mundo precisando plantar árvores, e duas pessoas cortando uma. Quer dizer, qual o mal em ter uma árvore na borda da rodovia?
Graciliano pensou que a resposta da pergunta fosse porquê caiam frutos demais na rodovia.
Graciliano olhou novamente para a árvore – que agora já era um simples toco, dessa vez pelo retrovisor e pensou novamente:
Chernobyl. Câncer. Faixa de Gaza. Terrorismo. Capitalismo Selvagem. Imperialismo. Carnificina com a flora e com a fauna. Aquecimento global. Global! Aquecimento GLOBAL! Assassinato frio da Mãe-Gaia! ESTRUPO, violência sexual contra a Mãe-Gaia! Tudo isso acontecendo e as pessoas ainda têm tempo para pensar em derrubar árvores e construir Angra 3.
Aí Graciliano entendeu que as pessoas deveriam ter um pouco de motorista em si.
Se tornar motorista para Graciliano tinha sido mais que ter um emprego. Ter se tornado motorista fez ele ver o mundo com outros olhos, pois seus olhos tinham que ficar abertos o tempo todo. Fez ele ver como as pessoas eram sujas e como elas não conseguiam comprar sem se vender. Pois Graciliano ia entregar Coca-Cola em bordéis do pior bairro à restaurantes franceses dos mais nobres, e não existia diferença nenhuma dos lugares, a sujeira era mesma. Se nos bordéis crianças exibiam seu sexo para sobreviver nos restaurantes nobres os chefs cuspiam nos filés para se vingar dos clientes chatos. E se existia alguma diferença entre esses dois mundos e o mundo de Graciliano era que o seu mundo era os dois ao mesmo tempo. Ambos os mundos. A partir daquele momento Graciliano era cidadão das estrelas e só mais um motorista da Coca-Cola que via uma árvore sendo cortada e só pensava no que os outros pudessem fazer, e não no que ele deveria ter feito …
Graciliano chegou à sua casa naquele dia se achou o homem mais hipócrita do mundo e fez o que todo ser humano deveria fazer. Salvou o seu mundo acabando com seu legado de miséria: afogou-se na privada.
E por um momento seu mundo girou ao seu redor.
E por um momento seu pulmão se encheu de água.
E por outro conheceu um lugar mais feliz que a Terra: o inferno.
Graciliano deu adeus ao mundo e sorriu para o outro que acabou de descobrir, era como o bordel e o restaurante francês, a diferença entre eles acabava no nome e as semelhanças começavam na ingenuidade de seus olhares.
Ó mundo do pecado, quem pensa em te entender? Com certeza, mais um pecador.
Lucas Lins.
Thursday, June 14, 2007
O ovo e seu pequeno amigo - uma curta história de longa amizade.
O.
Lucas Lins.
Monday, June 11, 2007
Espesso como um solilóquio.
Lucas terminou o origami, restaram pedaços de papel cortados e amassados em cima dos seus livros de estudos. Ele deveria estar estudando, mas a dúvida de um amigo seu sobre como montar um origami de uma estrela o instigou e ele foi obrigado a tentar.
Ele havia tentando, e agora havia terminado.
A estrela oriental de quatro pontas estava toda torta e amassada, mas mesmo assim Lucas erguia ela e ficava venerando o seu trabalho, como se fosse a estrela mais linda de todos os tempos, como se ela tivesse a simetria mais perfeita de todas as estrelas, e como se ela fosse a estrela de maior brilho de todo o universo.
Ele colocou pra tocar o álbum Thick as a Brick do Jethro Tull, o álbum foi um marco do Rock-progressivo, e o LP inteiro continha só uma música, a faixa título de 43 minutos e 40 segundos. Uma das mais clássicas suítes do prog-rock, e agora nem passava pelo solilóquio de Lucas que a tradução do título do álbum era “espesso como um tijolo”. Talvez porque não era espesso o suficiente para perfurar o solilóquio de Lucas.
Lucas estava sentando na frente do computador, os cadernos de estudos abertos, e em cima dos cadernos por ordem de importância vinha o teclado do computador e o origami já terminado. Quando ele terminou o origami ele saiu do topo da lista de importância, voltando a ser o teclado, ganhando assim todo o foco de Lucas. Ele teclou algo e escreveu em uma janela que saltou no monitor:
Agora eu juro pelo o que você quiser que vou estudar!
Marcos disse:
dahusdhsuhuhauhs eh melhor vc ir mesmo
Lucas disse:
Pois juro pelo o que você quiser que vou!
Marcos disse:
entao eh melhor vc ir
Lucas disse:
Fui
E fechou a janela. Passou o teclado para de baixo dos cadernos: agora ele iria estudar. Lucas olhou para as folhas do caderno – não era lá um rosto muito convidativo – e o caderno olhou para ele – não era lá um rosto muito interessado. Lucas olhou para o teclado do computador – era um rosto convidativo, amigável, sincero e simpático. Perfeito, pensou Lucas. Passou novamente o teclado por cima dos cadernos, enquanto fazia esse movimento teve uma idéia (Lucas é redator em um blog na internet, e tem o compromisso de escrever uma vez por semana, era domingo, o último dia da semana, então Lucas usou sua idéia mais a vontade de não estudar para escrever, e começou).
Mas Lucas lembrou de algo quando começou a escrever, que havia jurado pelo o que Marcos quisesse que ele iria estudar. Marcos não era lá um amigo de fé muito confiável, era possível com facilidade contestar a bondade de sua crenças. Lucas pensou nisso e ficou espantado. Marcos poderia ter feito ele jurar por algum deus nórdico vingativo, por alguma raposa nipônica, por alguma divindade maléfica Asteca, ou por qualquer outro deus esquecido que por alguma coincidência do destino poderia desejar roubar a alma de Lucas caso ele não estudasse. Caso ele não estudasse.
Apenas caso ele não estudasse, mas ele iria estudar naquele momento, então tratou logo de concluir o texto e assinar o que estava escrevendo:
Lucas Lins.
Saturday, June 2, 2007
A aposta.
Eu e o Marcos vamos para um cemitério. Eu disse pra ele levar um caderno e uma caneta, e fiz a aposta: vamos procurar um defunto de nome interessante, um pra cada, e vamos reescrever seu passado, e disputar que história vai ser a melhor.
Na real não é bem pra reescrever, reescrever é muita pretensão, só escrever. E também não sobre aquela pessoa que está sepultada, escrever apenas para aquele nome, só isso. Reescrever seria apagar todo o passado daquele sepultado e preencher com idéias minhas e não dele, e não é isso que quero fazer, quero simplesmente escrever o passado. Não reinventar o passado. Inventar. Inventar o passado daquele nome, não daquele sepultado.
Por isso nomes são tão importantes, nunca se sabe se quando você morrer alguém vai querer escrever algo inspirado em você. Então é bom inovar.
Eu também não sei o que vou escrever, poderia ser uma história trash aos moldes de livros de bolso, aqueles de 1 real; poderia ser também uma prosa romântica; um poema arcaico; uma obra realista; ou então algo surreal e insano como um sonho.
Espere, deixe-me explicar a minha fascinação pelos sonhos: eles podem ser sonhados. Por mais irreais e esdrúxulos podem ser sonhados. Qualquer um pode fazer, qualquer raça, qualquer classe, qualquer credo, qualquer etnia. Basta apenas ter olhos para poder fecha-los… E pra quem não tem olhos, basta sonha-los.
Também não sei que nome estou procurando, não sei se flores em túmulos vão ajudar na escolha, não sei se dados de nascimento e de morte vão ajudar, eu nem sei se vou encontra-las.
Embarcamos no ônibus de manhã cedo, Marcos está conversador, eu não. Estou pensativo e calado, conversar com ele quebra meus raciocínios e idéias, que são derivadas de só uma coisa: ansiedade por descobrir qual será meu nome.
Penso que talvez possa ser um nome feminino, talvez um nome inglês, um francês ou talvez um russo. Talvez um nome estranho, talvez um nome comum, talvez o nome seja Talvez. Talvez seja o nome de um marsupial, ou de uma flor. Talvez de um país, talvez de um bairro, talvez o nome seja um letra, talvez seja um pseudônimo. Talvez não haja nome.
Pela janela do ônibus eu vejo carros passando, carros com pessoas, pessoas com nomes, nomes com letras, letras com tinta, tinta com pigmento, pigmento com rodas. Pigmentos com rodas que passam pra lá e pra cá, sem cessar.
Descemos do ônibus, andamos algumas quadras e logo estamos de frente pro cemitério, parados lemos o letreiro em cima dos portões de entrada:
BIBLIOTECA MUNICIPAL DE CAMPINAS.
Tremo só de pensar.
Lucas Lins.
Friday, June 1, 2007
Momentâneo
Hoje eu comprei a lua. Ela veio em forma de incenso, não entendi muito bem o que quiseram dizer com isso, mas foi isso. E foi também que eu estou queimando a lua.
E ela é cheirosa
Muito cheirosa.
Ela veio em uma embalagem prateada, a embalagem era bonita, mas o mais importante estava dentro, na parte escura da lua, a parte escondida, misteriosa, a parte que ninguém vê. A parte que foi iluminada por uma brasa, assim que aproximei a lua da chama do isqueiro. A lua respirou uma fumaça fina, que subia vagarosa em um ballet de espirais, a fumaça contava o tempo, fazendo o papel da areia da ampulheta, só que desta vez, caindo pro alto. A ampulheta é assustadora quando usada pra contar o tempo, a ampulheta é assustadora o tempo todo.
Eu contei o tempo.
Tempo, tempo.
Depois de um tempo morri asfixiado pelo cheiro da lua.
Eu também não entendi muito bem o que estava acontecendo.
Acho que foi vingança ou rebeldia da lua por tê-la comprado, por ter ela como minha por algum tempo ou por tê-la queimado. Acho que a lua não faria isso, mas talvez a brasa que está junto dela faça.
Só com o tempo pra saber.
Pra saber, só com o tempo.
Não!
Eu não morri!
Eu sonhei! Dormi e sonhei. Sonhei um sonho louco: Sonhei que comprava a lua.
Lucas Lins