Wednesday, July 25, 2007

A Não-Ode.

PACO ESTAVA DENTRO DE UM ÔNIBUS, que cruzava a cidade naquela agitada madrugada de terça-feira, de uma forma estranha parecia que o país inteiro já estava acordado e pronto para uma revolução, em plena 5:30 da manhã.

Pela janela do ônibus Paco vê uma mulher escrevendo com tinta spray em um muro. Nas palavras tortas, escorridas e gritantes do seu vermelho-sangue podia-se ler, CONSTRUIR O COMUNIS – ela parou de pichar, com a aproximação do ônibus de Paco e ficou olhando atenta com brilho nos olhos enquanto Paco devolvia o olhar sem o mesmo brilho.

Tudo estava escuro, o sol ainda não havia acordado, só as lanternas dos postes e do ônibus iluminavam o caminho. No meio da escuridão e da periódica iluminação dos postes, o ônibus que Paco estava ia cruzando a rua como um verme que abre uma nova rota em um belo monte de estrume.

E aquela pichadora, e Paco, e todas as pessoas que acordavam, que já estavam acordadas, e que estavam em outros ônibus, eram moscas. Moscas que estavam cansadas de beijar a mesma merda todos os dias.

Mesmo assim Paco ia no ônibus para o seu emprego. Como todos ali deveriam fazer.

O dia é 31 de Março, de 1964. O presidente Jânio Quadros havia renunciado ao governo e seu vice Jango dirigia o país. Jango era apoiado pela plebe, pelos inferiores, pelos submissos e por aqueles que necessitavam de proteção e de alguém para se apoiar, e Jango fazia tudo isso. Com o apoio de Jango declaradamente esquerdista, esse nível de população começou a sonhar com dias melhores e até acreditavam em um sonho comunista, já que o mundo inteiro vivia a bipolaridade da Guerra Fria. A população conservadora não gostava nada disso, pois se houvesse mesmo um golpe comunista ela sentiria um impacto muito forte em toda sua estrutura financeira.

No dia 13 de Março do mesmo ano, Jango foi até a Central do Brasil no Rio de Janeiro e declarou aos liberais as Reformas de Base, onde iria fazer reformas reais na atual estratégia do Governo. Incluindo nas reformas mudanças radicais na economia, agropecuária e ensino.

Essa declaração fez o Brasil entrar em choque, todos temiam que o país viesse a entrar em regime Comunista. Conservadores x liberais. De um lado, os banqueiros, latifundiários, Igreja Católica, classe média e militares. Do outro, o resto.

Em contra ponto à Reforma de Base, os conservadores, a classe média, os militares e Deus fizeram uma manifestação. Foi a Marcha da Família com Deus, onde todos (inclusive Deus) manifestaram contra as mudanças e contra a possibilidade de um golpe comunista.

Não só o mundo estava em bipolaridade com a Guerra Fria. Brasil também sofria um choque tremendo de maniqueísmo social.

O país continuou com essa luta de verdades e de interesses, até o dia de hoje em que as tropas de São Paulo e Minas Gerais saem às ruas para evitar uma guerra civil. O presidente Jango amedrontado foge para o Uruguai. Mas ainda era cedo demais para Paco e toda a população tupiniquim saber disso.

Tudo isso havia acontecido no Brasil. O mundo e o Brasil estavam em colapso. Era incrível para Paco como tantas moscas e vermes brigavam por uma merda tão saturada e de baixíssima qualidade como o Brasil.

Mas fazer o que? A vida deveria ser vivida, e Paco não tinha culpa se o verbo “viver” incluía o verbo “trabalhar”.

Ele desceu do ônibus em frente ao seu destino e avançou em direção a ele, atravessou por baixo de um arco que gritava em cima de pequenas cabines de porteiros: PALÁCIO DO CONGRESSO NACIONAL.

Paco continua sua jornada a pé até a sua pequena mesa, encara escadas, corredores, escadas, portas, escadas, corredores, escadas, escadas e mais corredores até chegar na porta em que se podia ler o que Paco lia todos os dias antes de entrar na sala que ele dividia com mais 5 pessoas. Dessa vez Paco preferiu não ler, fechou seus olhos aos letreiros, girou a maçaneta e botou um pé para o lado de dentro.

Lá dentro estava um sossego como sempre. Paco foi até sua mesa, desorganizada como sempre. Na mesa ao lado seu companheiro de trabalho tomava um copo de café e esfregava os olhos e antes de dizer bom dia: Paco! Aí na sua mesa tem um envelope que alguém que parecia muito importante veio te trazer.

No envelope estava escrito com letra tremida e disforme, logo se percebia que quem escreveu estava apressado e com medo. Antes da carta, no envelope mesmo: “A/C DO ASSISTENTE DE DISCURSOS. URGENTE!”

Paco abriu o envelope e começou a ler a carta, mas parou.

Isso não deveria ser para mim, pensou ele. Deveria ser para o escritor oficial de discursos, eu sou o assistente, eu não escrevo nada, disse para si mesmo, mergulhado em dúvidas.

O homem do seu lado então comentou: Soube o que aconteceu com o escritor oficial de discursos? Dizem que ele não vem ao trabalho faz dias.

Paco se estremeceu. E voltou a ler a carta.

* * *

PACO TERMINOU de ler a carta.

Não sabia o que fazer, não sabia o que estava acontecendo.

Não acreditava nas palavras da carta.

Perguntou ao seu colega de serviço quem havia trazido o envelope, ele não sabia. Na carta estava escrito que alguém iria vir buscar a resposta da carta às 7:00.

Eram 6:00 e a carta dizia com letras apagadas de uma máquina de escrever velha que os militares haviam tomado o poder do Brasil, e que ele deveria escrever um discurso para o General Castello Branco ler e apresentar em rede nacional.

Paco não sabia o que era pior, viver com as moscas ou ter que dizer a elas que elas haviam perdido a posse da merda, se é que antes tivessem.

Paco mergulhou no mundo dos solilóquios e pensamentos não atendidos, disse adeus ao mundo-Brasil e lá tentou decidir o que fazer. Enquanto olhava amedrontado para a carta.

* * *

PACO ENCAROU A MÁQUINA DE ESCREVER, estava decidido a responder a carta.

Paco não sabia o que era pior, ser uma mosca assumida, e lutar pelos seus direitos na merda, ou ainda ser mosca, e escrever para as outras moscas dizendo que elas haviam perdido a guerra. Era contra os seus princípios.

Mas moscas não tinham princípios.

A carta também dizia que viria alguém pegar a respostar da carta às 7:00, eram 6:00. Paco não sabia quem viria pegar a resposta, nem quem trouxe a carta, perguntou ao seu companheiro de trabalho e ele também não sabia, podia ser um trote, mas o clima estava tenso demais, e os militares tomarem o poder já era algo esperando, mas Paco nunca pensou que ele deveria dar a mensagem de derrota ao seus companheiros.

Mas ele deveria escrever, e só tinha uma hora, e vai lá saber o que os militares iriam fazer com alguém que se opunha a uma ordem direta. Então…

Paco encarou a máquina de escrever, estava decidido a responder a carta:

“Brasileiros e brasileiras, bom dia, aqui quem pronuncia é o General Castello Branco, e venho dizer para vocês, meus compatriotas, para todos os efeitos que estamos em uma situação extrema, como todos sabem o nosso Presidente João Goulart deixou o país com medo, medo das conseqüências de seu governo fraco e de ideais ruins, que tão fraco deixou brechas para pequenas revoluções e manifestações ridículas.

Meus compatriotas! Venho dizer, aqui para vocês, em rádio nacional, que nós, militares tomamos o poder do país. E que com um regime firme e de regras imutáveis, moldaremos uma nação franca e sem espaço para idéias comunistas! Sem espaço para impatriotas e subversivos! Ordem e progresso! Ordem! Ordem e progresso!

Então, Brasil ame-o ou deixe-o!! Pois não daremos espaços para revolucionários inconseqüentes!”

Paco escreveu o discurso, mas não pode agüentar o peso de ser o proclamador da derrotado e ser contra seus ideais. No banheiro masculino do Palácio do Congresso Nacional Paco pôs fogo no seu discurso.

            * * *

“COMUNISMO, JÁ!”
 
“INTEGRE A REVOLUÇÃO SILENCIOSA!”
 
“NÃO A ORDEM, SIM AO PROGRESSO!”
 
“Ó TRISTESSA PROFUNDA! A BOSTA BATE NA ÁGUA, A ÁGUA NA MINHA BUNDA!”
 
“PROGRESSO?!”

Paco lia isso e tudo mais na porta do banheiro do Palácio do Congresso Nacional, desolado, e derrotado, Paco estava sendo na privada do banheiro admirando a poesia de porta do banheiro e seus desenhos obscenos:

“Eu sou o que faço,
eu sou poesia,
de porta de banheiro.”
 
“A POESIA DA CONVERSA NA FÁBRICA
Ei! VocêzZZzZzzKrákákáPOwpowpow!!
O que foZickbloctátápowkiii?
Não estou escutand—KBOW!ploftttttttt! Zicziczic”
  
Loira simpática e universitária, 20, faço de tudo. 38978462, Penélope.

Esses momentos de solidão fizeram Paco pensar em sua vida, e Paco pensou. Paco balançou, mediu e meditou sobre tudo que havia feito, sobre tudo que sonhou em fazer, sobre tudo e chegou a conclusão do fracasso que era.

Paco sentado na privada, sem saber o que fazer, cansado, triste e culpado pegou a sua caneta que estava presa ao bolso da sua camisa e rabiscou na porta do banheiro uma bela merda, redonda e com um formato convidativo, apesar de sua caneta se preta e podia ver a cor do belo estrume e sentir o cheiro que saia dali.

Embaixo da merda Paco esboçou um “Aluga-se”. E construiu sua primeira composição artística, inspirando e transpirando fedor de banheiro público e com toda a sua desolação pessoal.

“A não-ode ao fim do viver.
 
Lá vem ele, sem cantar,
Sem rir, sem chorar
Onde a ele só resta ao mundo gritar:
 
‘Imensa dor!’
Ó odor
Que lateja, que dói, que grita em forma de ferida
E enfim, sem pudor sinaliza:
Bem-vindo ao além-vida.”

Paco usou o adjetivo escritor para si o mesmo desde que começou a trabalhar a li, mas nunca se sentiu tão escritor quanto aquele momento, talvez porque ele nunca tivesse escrito poesia, talvez porque ele nunca tivesse escrito nada sentado em um trono. Não por estar sentando em uma privada, mas por estar a cima de si mesmo, em um patamar que podia ver o quão ruim, nojento e asqueroso ele era, apesar de não viver.

E no fim do seu poema Paco assina, assina a ele o que ele é, com o nome que sempre quis, sendo a ele, inteira questão de não usar um pseudo, mas sim, seu verdadeiro nome recém descoberto, que esteve escondido nos confins do seu mero ego. Penélope.

Paco volta a sua mesa se sentido uma loira, simpática, universitária e 20. Pronto pra fazer tudo, reescreve o discurso, e abraça a sua derrota com gritos.

Em 9 de Abril do mesmo ano Paco não pôde escrever o discurso que declarava a emenda AI-1 (Ato Institucional Número 1, que declarava cassa à mandatos políticos esquerdistas e fim da estabilidade de funcionários públicos) pois a sua estadia no Sanatório da cidade era muito específica e rigorosa em regras de internação. Sem mencionar, é claro, a sua duvidosa saúde mental…

             Lucas Lins.

Posted by L. L. in 03:26:54 | Permalink | Comments (5)

Friday, July 13, 2007

Cinco vezes palavra-coisa.

A música toca
Com toques de tambores ou trovão
Fere o inocente coração…

        * * *

Escrevo, rabisco, apago.
Escrevo, rabisco, apago.
E você aqui, seguindo meus rastros, lendo meus atrasos.

        * * *

Chuva! Raio! Trovão!
Eletricidade no céu
Inspira uma canção.

        * * *

Saudade, psicodelia em tufões
Vem saqueando minha mente,
Na sacola, sonhos e paixões.

        * * *

Cinco vezes palavra-coisa
Cinco tentativas de ser, fazer
Er-er-er-er-erro.

          Lucas Lins.

Posted by L. L. in 05:40:31 | Permalink | Comments (4)

Sunday, July 8, 2007

Plumas.

A Senhora possui algo que ela não consegue entender, também não sabe como nem quando começou a possuir tal coisa. A única coisa que ela sabe, é que tem uma aversão enorme a plumas e aves, a tal pteronofobia. Senhora sempre buscou por uma maneira de reverter essa sua fobia, esse seu medo descontrolado e irracional por penas, mas a busca pela cura está diretamente ligado ao fato de ter que encarar as aves e as penas, e isso é uma idéia fora de cogitação para Senhora. Isso é, até o exato momento. A Senhora sempre procurou por métodos milagrosos para se curar da sua fobia, porém um milagre é impossível para ela.

Ela chegou a essa conclusão pois nunca se aproximaria ou deixaria se aproximar um anjo perto dela, pela lógica idéia de que um anjo tem asas com muitas penas brancas. E se isso acontece, ela se sentiria muito mais perto de um demônio, do que um anjo. 

Certa vez houve um episódio em que a Senhora deve de ir a um mercado, a Senhora estacionou seu carro na frente do mercado, saiu do carro apreensiva, ansiosa e com muito medo. Com muito custo e coragem a Senhora entrou no mercado, ele fez as compras tremendo, pois nunca havia feito isso, quanto mais sozinha, ele tremia muito o que fez ela demorar um pouco mais do que gostaria dentro do mercado. Quando a Senhora estava deixando o mercado e se aproximando do seu modesto carro um pombo marrom se aproximou dela. A Senhora começou a tremer, e a dar pequenos passos de costas, seus olhos começaram a tremer e seu corpo todo a suar, a boca da Senhora secou e ela estava tão nervosa que não conseguia nem gritar por socorro.

Quando as costas da Senhora encontrou a parede do mercado o pombo já não se aproximava mais e ela começa a retomar as rédeas da sua própria máquina, quando um pardal pia do seu lado, o que fez a Senhora entrar novamente em pânico. Esquecer tudo. Tremer. Suar. Gritar. Chorar. Um dos seus pacotes caiu no chão, e um saco de cereal estourou, o que fez muitas outras aves se aproximar para comer o cereal dourado que cobria o chão escuro.

A Senhora não lembra mais o que aconteceu depois disso.

A Senhora relembrava tudo isso enquanto deveria escutar o discurso de um psicólogo que havia prometido curar a sua fobia, pela pena que ela iria ser exposta a uma pluma. Ela estava extremamente ansiosa e nervosa, seu coração palpitava muito forte, sua boca estava seca e ela não conseguia se concentrar em nada.

Até que o Psicólogo tirou de um envelope uma pequena pena. Muito pequena, do tamanho da um polegar, ela era meiga e tinha um tom ocre, meio marrom. A mesma coloração daquele pombo que ela havia se lembrado a pouco, então ela entrou em pânico. Começou a se mexer na poltrona. Segurou com muita força os braços da cadeira e afastou o máximo que podia da pequenina pluma. Ela começou a tremer, a mão tremia, os pés, os lábios. E os olhos, arregalados na imagem de que aquela pequena pluma poderia ser uma ameaça de vida.

Como o Psicólogo havia dito, ela não tem medo de aves, nem de penas, nem dos olhos das aves, nem das garras delas. Ela tem um medo irracional de morrer.

Ter que encarar uma pena a um metro de distância não era como encara um abismo a dois passos de distância, mas sim já estar caindo no abismo.

E era isso que estava acontecendo, a Senhora estava caindo no abismo do medo, e pra se livrar de uma pena daquela ela pularia em abismo. Seu cérebro estava fazendo isso, estava jogando a Senhora dentro de um abismo de medo para fazer ela se afastar em pânico da maligna, pequena pena.

Fique calma Senhora, em uma escala de medo de 0 a 100 onde estamos? 120!! Respondeu em gritos a Senhora.

O Psicólogo guardou a pequenina pena no envelope.

PÂNICO! PÂNICO! A Senhora estava em pânico!

 * * *

Depois de 30 minutos, o Psicólogo tentava distrair o que restava de medo na Senhora:

A Senhora já ouviu falar da peça teatral Édipo Rei? O seu escritor foi Sófocles ele escreveu por volta de 475 aC. Alguns anos atrás essa peça ia ser exibida em um país que estava sofrendo um regime militar, e o roteiro da peça teve que ser inspecionado pela censura. Aconteceu que a censura mandou prender o escritor da peça alegando que ele era subversivo… Pois é, prender Sófocles, por ter escrito Édipo Rei em 475 aC… É incrível o que fazemos para não corrermos riscos, não?

E levantou no ar outra pluma, dessa vez maior…

            Lucas Lins.

Posted by L. L. in 23:09:59 | Permalink | Comments (3)

Sunday, July 1, 2007

O imaginário Vitalino.

O Senhor Vitalino é um imaginário, não que ele viva trabalhando com isso, mas que se define como isso, e isso pra ele já basta. Vitalino trabalha e sobrevive com a subsistência de suas poucas ovelhas e sua horta que fica aos fundos de sua pequena casa. Além disso, Vitalino sobrevive graças ao governo e a ajuda financeira que ele carece por ser aposentado e inválido por ter sérios problemas com a perna esquerda. Mesmo ele não gostando de assumir isso.

Mas além de tudo, Vitalino é um imaginário, assim como seu pai foi, assim como seu avô foi e assim como o seu filho não é. Ser imaginário é ser artista do sertão, no casa de Vitalino no Nordeste. Vitalino mora em uma casa pequena, em uma rua pequena, em uma cidade pequena, e dentro dessas coisas pequenas Vitalino faz coisas grandes, que é o caso do que ele está fazendo agora.

Vitalino está talhando em madeira uma figura, a figura é Corisco o cangaceiro braço direito de Lampeão. Ao lado de Corisco, Deus tem uma olhar de fúria e ao outro lado Diabo tem um olhar de ternura. Aos pés de Corisco, descansa o cadáver de Lampião. Em cima de Lampeão, derrama prantos e prantos em lágrimas sua amada Maria Bonita. E por trás das nuvens os anjos espreitam.

Se alguém perguntasse a Vitalino o porque do olhar de fúria de Deus, ele responderia também com fúria nos olhos: acha que é digno de um olhar de felicidade e ternura o que Lampião fez? E é por isso que Satanás tem um olhar indigno.

E é essa uma das coisas grandes que o imaginário Vitalino faz. Certa vez um turista pediu para Vitalino talhar o boneco de Lampião. Vitalino o fez, mas fez Lampião morto. O turista não gostou e não pagou ao trabalho, com isso Vitalino descobriu que deve seguir o designo de quem está pagando, não obstante muito mais que isso, descobriu que como futebol e política, a religião é individual.

E certa vez Vitalino contou a si mesmo sobre a individualidade de sua religião enquanto talhava Lampião sorridente. Vitalino disse em pensamentos para si mesmo que o Deus é a madeira que deixa ele mostrar seja lá como for seu imaginário. Na madeira o imaginário Vitalino poderia talhar um nuvens, Maria Bonita, poderia até talhar seu filho como sendo um imaginário, e até a si mesmo com a perna esquerda boa.

Então o imaginário Vitalino disse a si mesmo que Deus e o Diabo estão na terra do sol. Seja lá onde isso for, poderia ser a casa dele quando ele passava fome, quando ele se sentia sozinho, mas também poderia não ser quando ele finalmente talhava Lampião morto.

O imaginário Vitalino morreu semanas depois.

Esse tal imaginário foi lembrado na sua pequena cidade por uma semana, depois desapareceu no tempo da mesma maneira que entrou: imaginário.

            Lucas Lins.

Posted by L. L. in 20:33:12 | Permalink | Comments (1) »