Monday, August 27, 2007
O gramofone.
Tuesday, August 21, 2007
O dia em que nevou.
E as relações humanas, todas elas ficam por um fio e ninguém, ninguém consegue dormir…
E foi numa noite dessas, em alguma parte do sertão do Nordeste brasileiro que ninguém conseguiu dormir. As horas passavam lentamente, cada segundo durava 5 minutos e as camas não eram suficientes, cansados, exaustos. Trabalhadores, bóias-frias e executivos rolavam pra lá e pra cá na cama, abraçavam travesseiros, mas ninguém. Ninguém dormia.
Milhares de insultos saltavam da mente daqueles que não conseguiam dormir, viam no ponteiro do relógio as suas preciosas horas de descanso indo embora em tictac. A insônia não era tudo, ainda tinha o calor infernal, que piorava a insônia em quatro, cinco, dez vezes.
*
Mas lá no fim da noite, no começo do dia, quando os ponteiros dos relógios apontavam com seus dedos descriminativos para 04:00 alguém dormiu.
É claro, quando você passa muito tempo de olhos fechados, deitado e no escuro, uma hora ou outra você dormirá, seja lá quão forte seja a insônia, só não sendo patológica, no caso dessa noite não era uma insônia patológica e sim algo que existia pelo fato daquela noite ser uma noite “daquelas”. E o sono veio, quando boa parte da população daquele região brasileira fechou os olhos e simplesmente se entregou a noite.
Mas é claro, a noite não se daria a derrota tão fácil, não foi um sono magistral, mas sim daqueles sonos sem sonho, em que você acorda várias vezes. Aqueles sonos instáveis. Aqueles sonos instáveis em que não se pode ter sonhos.
*
05:00 os relógios começaram a despertar. 06:00 os galos começavam a gritar. 07:00 todos estavam acordados, indo trabalhar ou ir estudar ou qualquer outra coisa, todos aqueles nordestinos trabalhadores já estavam de pé, se preparando para mais um dia cansativo.
Ninguém ainda sabe porque, mas várias pessoas dali, bóias-frias, executivos ou escritores tomaram uma conclusão do que estava acontecendo. Eles não haviam sonhando aquela noite, nenhum deles, então todos deles, sonharam durante o dia. Dê olhos abertos e acordados eles tiveram um sonho.
Um sonho com tanto entusiasmo e força que pela janela podiam se ver e sentir flocos de neves caindo dos céus.
As ruas tiveram 15cm de neve, carros e estradas ficaram inutilizáveis, aulas foram suspensas. Seria bem compreensível se aquela população estivesse em pânico, mas não, eles não estavam em pânico. Apenas assistiam a brancura tomar conta das casas. Aproveitando ao máximo o sono que não tiveram.
Lucas Lins.
Sunday, August 5, 2007
Um encontro inesperado.
Minha aventura começou junto com a noite, logo depois de uma despedida. Eu estava saindo, o expediente no trabalho havia acabado e eu estava rumando a pé até o local de encontro. Eu estava uma hora adiantado, e isso me fazia pensar em certas coisas como: “devo ir pra casa e depois pra lá? Devo ir daqui do trabalho mesmo? Será que vou chegar muito adiantado?” Mas todas essas dúvidas passam quando começo realmente a andar, eu iria a um lugar próximo de onde trabalho, portanto resolvi ir direto dele. Iria para um encontro com amigos da escola, iríamos fazer observações astronômicas, esse assunto me instigava muito, tentar conhecer a vizinhança: o céu era uma janela, durante o dia o sol fica nos olhando o tempo todo nos tirando privacidade e esquentando nossos corpos, durante a noite era como se o sol fosse dormir e esquecesse a sua janela aberta.
Eu calculei a caminhada como uns 5 minutos, mas na verdade eu gostaria que fosse uns 25, gosto de andar, gosto muito, tenho a sensação que fico muito próximo de mim mesmo, como se não estivesse sozinho, apesar das ruas estarem parcialmente desertas, eu fazia companhia pra mim mesmo, meus pensamentos me intertinham, a solidão das ruas me deixava mais próximo de mim. De uma forma ou outra, eu adorava fazer isso. Aqui e ali passa uma pessoa no meu caminho, eu penso, da onde elas vem, pra onde vão, o que fazem, será que me notam, mas é como se ninguém me notasse. É como se eu fosse invisível e transponível. Assim como meus pensamentos, que me fazem companhia.
Eu chego ao local de encontro, a caminhada que eu queria que durasse 25 minutos durou 30, e eu estava contente com isso, havia sido um tempo de extrema privacidade, eu e só eu. O local de encontro era uma rua deserta, deserta e escura, perfeita para o que iríamos fazer, como eu estava adiantado não havia ninguém ali, então arrumo um jeito de sentar em uma calçada em uma outra rua, que da acesso a rua onde nos encontraríamos, assim eu podia ver os carros que chegavam e os carros que saiam, se alguém aparecesse eu notaria.
Fico sentado embaixo de um poste-de-luz essa outra rua era movimentada, e eu estava atento a todos carros que passavam, qualquer um deles poderia ser um professor ou um amigo desavisado.Olho no meu relógio de pulso. 07:00, aqui começa a pontualidade e o atraso, com a diferença que o atraso vai muito mais além do que a pontualidade.
07:17 um carro entra de forma suspeita na rua do encontro e fica lá parado, do cara saem duas sombras, a sombra #1 abre o porta-malas e começa a montar alguma coisa, a sombra #2 observa atentamente, dando auxílio aqui e ali. Eu estava certo de que era meu professor, me aproximo, eu não conseguia ver seus rostos, não sei se eles conseguiam ver o meu, eu podia ver do lado deles algo que parecia ser um telescópio. De longe arrisco um “boa noite”, que parece que não chega lá, quando me aproximo mais tendo de novo, agora com resultados, a sombra #1 diz com a voz do meu professor: “Lins?”
“Sim”.
Ele diz que as outras sombras iriam se atrasar em 15 minutos, em 5 chegam outra parte das sombras e em 15 nada das sombras que avisaram seu atraso. Faço piadas por essas sombras serem só mulheres, que têm o dom de se atrasar, mas minhas piadas são na maioria das vezes bem inúteis. As outras sombras chegam com um atraso de 35 minutos. Vemos várias estrelas, Próxima Centauro, e algumas outras que não lembro, em especial vemos por pedidos meu a Caixa de Jóias, um conjunto de estrelas que pela posição da Terra nós vemos elas como se tivessem bem próximas e em forma de um A de ponta cabeça.
Em outras coisas o professor sombra #1 me chama pra ver algo em seu telescópio, eu entendo como se ele tivesse mostrando aquilo especialmente pra mim, fico lisonjeado. Olho pela lente objetiva do telescópio, como se olhasse para um abismo que caia pra cima, como se olhar muito pudesse me fazer: a janela estava escancarada.
Quando vejo aquelas estrelas organizadas em forma de caos solto um pretensioso: “psicodélico!” Fico lá olhando aqueles pontos brilhantes, sem pensar em nada, como se olhar o abismo fizesse o abismo olhar de volta. Acho que foi a sombra #2, esposa do professor diz, Nossa só ele viu ainda, Sim responde professor sombra #1. Sim, responde eu pra eu mesmo. Só eu vi até agora, só eu. Só eu, eu e o abismo, mais ninguém.
Ainda com o olho na objetiva eu digo a eles, meu amigos que pela escuridão eu só conseguia ver a silhueta: “Descobri um cometa! Um cometa raríssimo, o seu nome, Lucas, até agora nunca o vi, mas sei que existe.”
Eles parecem não ouvir isso.
A lua não estava no céu. Segundo fontes confiáveis iria nascer as 10:30, muito tarde pra gente, então decidimos ir embora às incríveis 09:00. Eu estava a pé, então iria pegar um ônibus e teria que fazer um pequeno percurso a pé. Antes de eu sair comprimento a sombra #1 agradeço e saio, estavam todos indo para a mesma direção e alguma mente brilhante da a idéia de irmos todos juntos.
Também antes de sairmos respeitamos os sentimentos de uma menina-sombra e ela faz uma oração silenciosa.
Já em uma rua movimentada e iluminada (a rua em que eu havia esperado sentado em baixo de um poste-de-luz) a luz deixava eu ver que não eram sombras e sim pessoas, e não como eu havia pensado sombra-pessoas. Alguém do grupo dos atrasos pede uma foto, pra eternizar o momento. Eu pensei comigo que não precisaria de foto nenhuma pra eternizar esse momento, pelo menos pra mim, mas talvez pra eles sim. Eu recomendei uma foto no meio da rua, pra deixar a foto mais perigosa. A rua movimentada demais não nos deixa fazer isso, e a foto eternizadora não acontece. Aí penso de novo, será que para as pessoas que precisavam de uma foto pra eternizar o momento não terão esse momento pro resto das suas vidas?…
Descendo a rua iluminada por postes periódicos e por faróis de carros que vão e vem, entre a gritaria e risada daqueles que me acompanham eu escuto o piar de uma coruja, que me faz lembrar de um trecho da bíblia:
“Tornei me irmão dos dragões e companheiro das corujas. Minha pele enegrece-se e cai, meus ossos são calcinados pelo calor. Minha cítara só dá acordes lúgubres e minha flauta som queixosos”. Jó 30:29-30-31.
Antes de chegar no ponto-de-ônibus, ainda um pouco longe, resta na para ir embora só eu e as mulheres que se atrasaram e um amigo, eu estava aproveitando a caminhada, estava sendo maravilhosa. Eu estava usando um suéter, mas eu o tiro pra sentir a brisa da noite, que assopra, a respiração gelada dela corre pelos meus braços, pelo meu corpo inteiro, eu escuto a voz da noite. Do meu lado eu me decepciono, enquanto eu tirava meu suéter uma das mulheres põe uma blusa, é decepcionante ver que elas não escutam a voz da noite.
A casa de duas das três mulheres que estavam conosco era bem próximo de onde estávamos, mas eu não sei porque, mas uma delas pede carona pra ir de carro para sua casa, isso também é bem decepcionante, aquele era um momento perfeito pra se descobrir, pra olhar dentro da sua alma, pra aproveitar a noite e ser companheiro das corujas e elas estavam desperdiçando esse momento único dentro de um carro. Parece que elas tinham medo da noite, eu não entendo porque.
Eu faço uma despedida para elas, eu vou para o ponto-de-ônibus. Espero de pé ainda sem o suéter, usando o uniforme do trabalho, já que ainda não havia ido para casa, o ônibus vem rápido e eu entro nele, pago a passagem ao cobrador e me sento sozinho. Em um banco próximo ao meu uma velha senhora dorme um sono atormentado no ônibus, no banco da frente um rapaz curte um som em seus fones de ouvido, e eu curto o frio da noite.
Eu desço do ônibus bem longe de casa, eu ainda tinha uma caminhada longa pela frente, uma ladeira pra descer e uma pequena subida depois. Eram 10:06 e as ruas estavam quase que desertas, a noite continuava conversando comigo em sussurros gelados, e eu dava a ela todos meus ouvidos.
Mais ou menos no meio da ladeira eu sou vítima de um encontro inesperado, dentro da minha mente, nos confins do meu cérebro. Lá dentro alguém parece conversar comigo, e em um flash de luz eu descubro quem: um acontecimento raríssimo, eu tenho o prazer de ver o tal Cometa Lucas.
Cometa Lucas é um cometa que quase nunca vejo, um cara que talvez ninguém veja além de mim mesmo, o universo dele meu cérebro, sua rota uma idéia. Descendo a rua sou pego por um sopro forte da noite, um pequeno grão de poeira cai nos meus olhos: eu fecho o olho, mas quem abre já não sou eu mais… Quem abre é irmão dos dragões, quem abre é companheiro das corujas, quem abres os olhos tem um cântico lúgubre e gótico.
Continuo a descida sem saber quem era. Continuo a rota até minha casa sem saber quem era. Chego em casa, encara o portão. Eu tenho uma sensação de nostalgia, como se tivesse faltando algo, enfio a chave na fechadura do portão e giro a maçaneta: descubro o que faltava.
Lucas Lins.