A Metrópole – Os Invisíveis.
Não é simples se tornar menino-de-rua, ser criança de rua não é simplesmente adotar a rua como lar, mas ser adotado pela rua. E a rua, a cidade, a sarjeta, a noite só adota aqueles que não tem mais nenhum laço, por mais tênue que seja, com qualquer outra família que não seja a própria rua. A rua, a noite é a grande mãe daqueles que foram negligenciados pelo destino, pelo tempo, negligenciados por uma lâmina na jugular da mãe, por um disparo no peito do pai, pela esquizofrenia da avó. Não é simples, não é fácil ser efeito, causa, conseqüência e o próprio câncer de uma sociedade. Não é fácil abrir os olhos todos os dias, ver mil pessoas no centro da cidade-fantasma Campinas, ver o mundo em movimento infernal, e não ver ninguém, a não ser fantasmas. Ver o mundo e não ser visto. Ser invisível aos fantasmas de terno e de sorriso em v, as mães, as filhas, aos filhos, aos poetas.
A fome tira Soledad dos seus próprios pensamentos e trás ela para o mundo, cara a cara, com os olhos nos olhos do cão: é frio, é noite, é fome.
O degrau em que ela está sentada é frio, ela se sente desacolhida e nas suas costas, a Igreja de Nossa Senhora da Conceição no centro da cidade não lhe representa nada, mas representaria se ela pudesse entrar.
Soledad enquanto ainda tinha um lar comum e era criança, sonhou ingenuamente ser atriz, viver e ser qualquer pessoa que nunca poderia ser, usar uma máscara e ser bonita e prestigiada por usa-la. Quando Soledad recebeu pela primeira vez uma máscara não imaginou que seria assim, pois não era uma máscara de prestígio artístico, não era uma máscara que podia ser removida. Soledad e todos os outros parceiros de rua, todos os invisíveis usam máscaras, máscaras que não foram colocadas por eles, máscaras que não foram escolhidas por eles, mas que um qualquer pôs no rosto deles. Máscaras que todos as pessoas da cidade colocam neles todos os dias, máscaras que os deixam invisíveis à olhos comuns. Máscaras com um só desenho e pintura: o preconceito.
Mas aos pequenos olhos de Soledad que sobrevivem e emergem dos pequenos furos das máscaras, Soledad vê onde vive, Soledad mora em lugar nenhum, a não ser uma cidade-fantasma. Deserta de vivos e repleta, abarrotada de algozes-espíritos.
Soledad desisti e diz adeus à vida todos os dias e noites de sua vida. Soledad vive, existe, mas já se despediu da vida há muito tempo. Quando você é adotado pela rua você é obrigado a fazer isso, é um rito de passagem, você se afilia a bandos por ser a única maneira, pois só iguais a você vêem você. E Soledad sabe, quando você cai na rua tem que amadurecer rápido, virar adulto em semanas, e não aprender a roubar, não aprender a matar, mas aprender a sobreviver, seja lá o que tenha que fazer, sobreviver.
Soledad, ali, embaixo do relógio da catedral que badala o sino: 00:00. Ali, Sob as escritas de N. SENHORA DA CONCEIÇÃO, com a ilustre companhia dos anjos de gesso e suas cornetas mudas. Ali, bem às costas da negra estátua de D. João Nery. Ali, Soledad levanta seus fracos pulsos que correm veias de sangue, veias de drogas, veias de contaminações, veias mal vividas, veias de fome, veias de AIDS. Aponta o fraco e torto dedo pra lua cheia e grita com a maior força dos seus pensamentos mudos: NÓS POSSUÍMOS A NOITE!
Bandida-vampira-algoz-malandra-marginal-louca-viciada-aidética-vítima-cadela-vagabunda: invisível.
Invisível que mataria para ser vista.
Blam! Blam! 00:00.
Lucas Lins.