Saturday, September 22, 2007

A Metrópole – Os Invisíveis.

Soledad é invisível. Soledad é invisível e mora em uma cidade-fantasma. Não só Soledad, mas toda a sua família, todo os seus objetos, todos os seus pertences, todos seus amigos, tudo ao redor dela é invisível. Ninguém a vê, ninguém os vê, mas ela vê todos.

Não é simples se tornar menino-de-rua, ser criança de rua não é simplesmente adotar a rua como lar, mas ser adotado pela rua. E a rua, a cidade, a sarjeta, a noite só adota aqueles que não tem mais nenhum laço, por mais tênue que seja, com qualquer outra família que não seja a própria rua. A rua, a noite é a grande mãe daqueles que foram negligenciados pelo destino, pelo tempo, negligenciados por uma lâmina na jugular da mãe, por um disparo no peito do pai, pela esquizofrenia da avó. Não é simples, não é fácil ser efeito, causa, conseqüência e o próprio câncer de uma sociedade. Não é fácil abrir os olhos todos os dias, ver mil pessoas no centro da cidade-fantasma Campinas, ver o mundo em movimento infernal, e não ver ninguém, a não ser fantasmas. Ver o mundo e não ser visto. Ser invisível aos fantasmas de terno e de sorriso em v, as mães, as filhas, aos filhos, aos poetas.

A fome tira Soledad dos seus próprios pensamentos e trás ela para o mundo, cara a cara, com os olhos nos olhos do cão: é frio, é noite, é fome.

O degrau em que ela está sentada é frio, ela se sente desacolhida e nas suas costas, a Igreja de Nossa Senhora da Conceição no centro da cidade não lhe representa nada, mas representaria se ela pudesse entrar.

Soledad enquanto ainda tinha um lar comum e era criança, sonhou ingenuamente ser atriz, viver e ser qualquer pessoa que nunca poderia ser, usar uma máscara e ser bonita e prestigiada por usa-la. Quando Soledad recebeu pela primeira vez uma máscara não imaginou que seria assim, pois não era uma máscara de prestígio artístico, não era uma máscara que podia ser removida. Soledad e todos os outros parceiros de rua, todos os invisíveis usam máscaras, máscaras que não foram colocadas por eles, máscaras que não foram escolhidas por eles, mas que um qualquer pôs no rosto deles. Máscaras que todos as pessoas da cidade colocam neles todos os dias, máscaras que os deixam invisíveis à olhos comuns. Máscaras com um só desenho e pintura: o preconceito.

Mas aos pequenos olhos de Soledad que sobrevivem e emergem dos pequenos furos das máscaras, Soledad vê onde vive, Soledad mora em lugar nenhum, a não ser uma cidade-fantasma. Deserta de vivos e repleta, abarrotada de algozes-espíritos.

Soledad desisti e diz adeus à vida todos os dias e noites de sua vida. Soledad vive, existe, mas já se despediu da vida há muito tempo. Quando você é adotado pela rua você é obrigado a fazer isso, é um rito de passagem, você se afilia a bandos por ser a única maneira, pois só iguais a você vêem você. E Soledad sabe, quando você cai na rua tem que amadurecer rápido, virar adulto em semanas, e não aprender a roubar, não aprender a matar, mas aprender a sobreviver, seja lá o que tenha que fazer, sobreviver.

Soledad, ali, embaixo do relógio da catedral que badala o sino: 00:00. Ali, Sob as escritas de N. SENHORA DA CONCEIÇÃO, com a ilustre companhia dos anjos de gesso e suas cornetas mudas. Ali, bem às costas da negra estátua de D. João Nery. Ali, Soledad levanta seus fracos pulsos que correm veias de sangue, veias de drogas, veias de contaminações, veias mal vividas, veias de fome, veias de AIDS. Aponta o fraco e torto dedo pra lua cheia e grita com a maior força dos seus pensamentos mudos: NÓS POSSUÍMOS A NOITE!

Bandida-vampira-algoz-malandra-marginal-louca-viciada-aidética-vítima-cadela-vagabunda: invisível.

Invisível que mataria para ser vista.

Blam! Blam! 00:00.

            Lucas Lins.

Posted by L. L. at 03:20:30 | Permalink | Comments (2)

Saturday, September 15, 2007

730 dias.

Eu fui criado pelo meu avô,
meu pai morreu afogado pelo sertão
quando eu tinha dois anos de idade.
 
Antes fosse a fome,
antes fosse a peste,
mas não, foi tragado,
consumido, escarrado.
Dilacerado pelo ódio.
 
Ódio criado e alimentado
no cárcere-mundo.
Gerado pelas árvores secas,
pelos urubus, pela palma.
Pela água.
 
Pela fome.
 
Mas foi por um raio de peixeira
que o estômago se abriu e gritou:
Voz de sangue!
 
O sol…
Não sorriu, não chorou, não riu.
Talvez se não estivesse olhando não perceberia
o defunto estirado ao chão e seu sangue sujo de areia,
mas olhava.
 
Mas olhava com os mesmos olhos
dos urubus que abriam o crânio
e comiam a carne fria, mórbida e sem vida do meu pai.
 
Antes fosse a fome,
antes fosse a peste.
Mas nunca o instinto!
Nunca!
 
            Lucas Lins.
Posted by L. L. at 01:51:48 | Permalink | Comments (2)

Saturday, September 8, 2007

A Metrópole.

Campinas é uma cidade inspiradora, linda e inspiradora. Linda na sua extrema feiúra e podridão, sua beleza estonteante está em acolher os fracos e torna-los fortes, na sua sujeira, no seu lixo, nas suas pichações, nos seus murros limitadores. Na sua miséria.

Campinas não é uma cidade de beleza turística como Veneza ou Paris, mas sim uma cidade em que suas linhas mais lindas são becos, carros que espelhem fumaça, dragões, bares, cabarés, puteiros, ônibus pichados e escarrados. Nuvens negras… Uma cidade belíssima.

Tudo nela é lixo, tudo. A agitação do dia conspira para que você não veja, mas está lá, você que não quer ver. Até que você se torne um deles e comece a se sentir em casa.

Então a cidade te consome, você é todas as suas forças são sugadas e exprimidas para que ela dê mais um suspiro de CO2, que lagrimeja olhares inocentes e inutiliza, faz você parar de ver o lixo… E começar a ama-lo.

Essa é a história de pessoas assim, que se tornaram lixo pelo lixo.

Nesse ramo você tem que tomar cuidado, se você não tiver pulso firme seus personagens começam a dar ordens para você, começam a ditar a história e te obrigar a terminar a história como você não quer, beneficiando apenas ele mesmo. Isso pode transformar a história em um lixo, então é bom eu tomar cuidado. Pensava o jornalista José correspondente do Correio Popular ao ler um conto machadiano sentado em um banco na frente do Palácio da Justiça.

Ao seu lado um mendigo se sentou, ele puxava uma carriola repleta de tralhas, papelões e alguns panos de feltro. José nem percebeu a visita ilustre, estava dando um mergulho delicioso nos mares de seus pensamentos, enquanto o mendigo tentava fazer o mesmo em mares de comida. José tirou da sua pasta um pequeno caderno, tirou uma caneta do bolso da camisa, cruzou as pernas, apoiou o caderno e começou a escrever.

O mendigo olhou aquilo e teve um lampejo de curiosidade, mas teve consciência que é impossível se ter curiosidade de barriga vazia. 10:00 da manhã, e ele já havia esquecido a última vez que sua língua sentiu alguma coisa, talvez duas semanas atrás. Sua barriga não pedia comida, ela gritava por comida, seu corpo clamava com todas as suas forças por qualquer coisa de comer. E suas pernas já tremiam.

Ele estava sedento de fome, comeria qualquer coisa. Qualquer coisa! Na sua situação ele teria apetite até por um bom monte de estrume. José escreveu isso em seu caderno, era o começo de uma boa narração. Enquanto ele estava entretido pensando se “estrume de vaca” seria pleonasmo uma pequena pomba cinza e branca pousou perto dos seus pés.

O estômago do mendigo gritou mais uma vez, ele começava a ter dores de cabeça de tanta fome. Faminto. Extremamente faminto. Seus olhos tiveram um brilho de sangue quando ele viu aquela pequena pomba pousar aos pés de José.

Antes da pomba alçar vôo ele a agarrou. Esticou a asa da pomba e a mordeu, sentiu um filete de sangue escorrer pelo seu queixo, segurou firme a pomba ela se chacoalhava como se estivesse morrendo. E penas de um péssimo gosto.

José ficou pasmo. Não teve ação nenhuma, da onde surgiu daquele mendigo fedorento. O sangue que escorria pela mandíbula aberta do mendigo, a ave se debatendo. Penas voando.

Depois disso, depois de um dia cansativo de trabalho, depois de um péssimo jantar, depois de um péssimo banho e enquanto estava deitado na sua cama no seu escroto apartamento José pensou o quanto a fome é melhor narradora que ele.

José virou pro outro lado e teve pesadelos em que comia um livro de tamanha fome.

José continuou sendo o mesmo, e o mendigo continuou tendo fome, mas agora sabendo que penas são horríveis de se comer e que pombas se debatem muito antes de morrer.

José começou a evitar o Palácio de Justiça e o mendigo, pombas. José nunca mais tentou escrever, e desejou nunca mais ver um bom escritor em ação.

José odiou por toda a sua vida ser personagem, José começou a pensar bem o que narrar sobre seus personagens. José decidiu nunca mais escrever.

José nunca mais quis ser personagem. E desejou nunca mais ver um bom escritor em ação.

E apesar de querer muito que não, os pesadelos continuaram.

            Lucas Lins.

Posted by L. L. at 05:18:05 | Permalink | Comments (4)