O passado, a partir de ontem, foi abolido.
Bem, talvez seja, talvez não.
Me arrumei, não há lá muita coisa para eu arrumar em mim, e fiquei sentado na minha cela que com o passar dos anos começou a ser mais um apartamento do que uma cela, não que tenha muita conforto, mas que você começa a fazer parte dela, como se realmente fosse um lar. Mas no fundo todo mundo sabe que não é, por mais que seja. O carcereiro veio me buscar, disse algumas palavras típicas de carcereiro e me indicou o caminho que eu havia decorado de tanto sonhar com ele…
Depois de alguma espera sentado em um banco macio, onde se eu não tivesse aprendido (com tantos anos de experiência) a controlar a sensação de tempo, teria sido minutos expandidos a horas, como foi na primeira semana de cadeia. Na jaula o tempo passa tão devagar que chega a regressar, alguns segundos contam para trás e se você não se controlar isso começa a acontecer com os minutos e pra isso se estender para as horas é uma questão de segundos. Conheci muita gente que viu o ponteiro grande no doze passar para onze.
O carcereiro me devolveu pertences que eu tinha quando fui preso, quer dizer, não foi muita coisa, já que eu havia retirado algumas coisas com os meios que a jaula nós da. Chantagem e ameaça.
Eu já tava no tal portão, onde você está quase livre, quase! É o ponto onde você se encontra com os visitantes e os visitantes se encontram com você, ou seja, é a hora de deixar sua marca, contar sua história e se imortalizar como lenda urbana de um presídio. Mas saber que logo você vai poder ver uma paisagem diferente daquelas dos dias de feriado, em que você pode deixar o presídio, é tentador. Vejo um cara lá que é visitante, da pra ver nele, nas roupas e nos olhos, pergunto onde fica o endereço da minha casa, ele diz que tenho que pegar dois ônibus, um pro centro da cidade e depois outro para o bairro, eu respondo que não e dou uma risada, claro que não, ir de ônibus quando posso ir a pé e se tiver sorte sentir o luar no rosto. Não de ônibus, não.
Até o verdadeiro portão, aqueles enormes, aqueles que se abrem para os carros e que aquele que você se amedronta quando o passa para primeira vez, era pra lá que estava indo, esse portão é a real divisão, onde já não é mais cárcere, onde já não é mais jaula. O porteiro arrasta o pesado portão com a ajuda de alguns e eu boto um pé para fora.
E sem essa de um pequeno passo para mim e um grande passo para humanidade. Foi um pequeno passo em todos os sentidos. A liberdade requer uma grande caminhada e lá vou eu. Na rua, pego o rumo para uma rodovia, um rumo para a vingança. Posso sentir o frio metal da faca, no meu bolso, latejando por sangue.
E minha mente, latejando por gritos de desespero. E eu, controlando a tal ansiedade, imaginando os tapas, os muros, os gritos, os furos. Sem essa de chegar em casa ganhar um beijo da filha e abraçar a mulher, sou um carrasco, um marginal, não há beijos, não há abraços. Só existe vingança, sangue e gritos: O passado, a partir de ontem, foi abolido.
Nem que eu tenha que pagar mais dez anos da minha vida, nem que eu tenha que cortar meus pulsos, nem que eu tenha que furar minha filha! Vão pagar! Se vão!
Lucas Lins.