Wednesday, October 24, 2007

O passado, a partir de ontem, foi abolido.

Dez anos! Dez infernais anos! Em pensar que meus dez anos acabaram e que outros dez anos chegam já é reconfortante. Apesar de tudo, ontem e hoje, meus últimos dias por aqui foram bem estranhos, não, não vou admitir que foram tristes – pois é coisa de novato pensar que nunca haverá dia feliz atrás de algumas grades de ferro fundido, mas depois de alguns anos você descobre, e evolui, essa ferrugem marrom que tudo daqui tem, essas paredes descascadas, esse cheiro horrível, e essas gotas de sangue que nunca param de pingar, não são páreas, não são suficientes para bater o espírito de liberdade de quem quer liberdade. E sim, meus dias foram felizes, foi magistral saber que amanhã sairia, e se eu não tivesse esperando tanto por esse dia, talvez não teria resistido ao ácido veneno que gotejava das presas da tal ansiedade. Mas também foi estranho, eu sei lá, deve ser a expectativa de poder sair, de deixar alguns camaradas aqui dentro e não poder tira-los daqui.

Bem, talvez seja, talvez não.

Me arrumei, não há lá muita coisa para eu arrumar em mim, e fiquei sentado na minha cela que com o passar dos anos começou a ser mais um apartamento do que uma cela, não que tenha muita conforto, mas que você começa a fazer parte dela, como se realmente fosse um lar. Mas no fundo todo mundo sabe que não é, por mais que seja. O carcereiro veio me buscar, disse algumas palavras típicas de carcereiro e me indicou o caminho que eu havia decorado de tanto sonhar com ele…

Depois de alguma espera sentado em um banco macio, onde se eu não tivesse aprendido (com tantos anos de experiência) a controlar a sensação de tempo, teria sido minutos expandidos a horas, como foi na primeira semana de cadeia. Na jaula o tempo passa tão devagar que chega a regressar, alguns segundos contam para trás e se você não se controlar isso começa a acontecer com os minutos e pra isso se estender para as horas é uma questão de segundos. Conheci muita gente que viu o ponteiro grande no doze passar para onze.

O carcereiro me devolveu pertences que eu tinha quando fui preso, quer dizer, não foi muita coisa, já que eu havia retirado algumas coisas com os meios que a jaula nós da. Chantagem e ameaça.

Eu já tava no tal portão, onde você está quase livre, quase! É o ponto onde você se encontra com os visitantes e os visitantes se encontram com você, ou seja, é a hora de deixar sua marca, contar sua história e se imortalizar como lenda urbana de um presídio. Mas saber que logo você vai poder ver uma paisagem diferente daquelas dos dias de feriado, em que você pode deixar o presídio, é tentador. Vejo um cara lá que é visitante, da pra ver nele, nas roupas e nos olhos, pergunto onde fica o endereço da minha casa, ele diz que tenho que pegar dois ônibus, um pro centro da cidade e depois outro para o bairro, eu respondo que não e dou uma risada, claro que não, ir de ônibus quando posso ir a pé e se tiver sorte sentir o luar no rosto. Não de ônibus, não.

Até o verdadeiro portão, aqueles enormes, aqueles que se abrem para os carros e que aquele que você se amedronta quando o passa para primeira vez, era pra lá que estava indo, esse portão é a real divisão, onde já não é mais cárcere, onde já não é mais jaula. O porteiro arrasta o pesado portão com a ajuda de alguns e eu boto um pé para fora.

E sem essa de um pequeno passo para mim e um grande passo para humanidade. Foi um pequeno passo em todos os sentidos. A liberdade requer uma grande caminhada e lá vou eu. Na rua, pego o rumo para uma rodovia, um rumo para a vingança. Posso sentir o frio metal da faca, no meu bolso, latejando por sangue.

E minha mente, latejando por gritos de desespero. E eu, controlando a tal ansiedade, imaginando os tapas, os muros, os gritos, os furos. Sem essa de chegar em casa ganhar um beijo da filha e abraçar a mulher, sou um carrasco, um marginal, não há beijos, não há abraços. Só existe vingança, sangue e gritos: O passado, a partir de ontem, foi abolido.

Nem que eu tenha que pagar mais dez anos da minha vida, nem que eu tenha que cortar meus pulsos, nem que eu tenha que furar minha filha! Vão pagar! Se vão!

            Lucas Lins.

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Monday, October 15, 2007

Diário Urbano

Eu queria começar isso direito, queria poder por um cabeçalho na primeira linha do meu diário, mas não posso, não sei qual o nome dessa cidade, nem a data em que estou. Talvez seja por isso que nada do que eu tentei fazer deu certo, acho que tenho uma mania de não fazer as coisas direito, de tentar simplesmente fazer da maneira que sei, sendo a minha maneira a maneira errada.

Eu queria saber a data de hoje.

Na verdade eu queria mesmo é estar escrevendo isso, e não simplesmente pensando. Sou um mendigo, um andarilho, e por conseqüência disso não tenho dinheiro nem pra comer vou ter para um caderno? Então, o diário é mental. Papel em forma de nuvem, rolos de pergaminhos que se confundem com sonhos e caneta imaginária.  Pensamentos que inundam minha mente quando faço o que sei de melhor: andar.

A última noite foi terrível. Se foi, o frio foi infernal e a lua praguejava nuances contra mim, o farol dos carros que quase me atropelavam me tiravam o sono e as corujas não piavam. E eu não sabia que dia era ontem.

Existem momentos que quase me arrependo de ter negado a sociedade, mas eu só quase me arrependo, sou perfeito demais para eles e eles escrotos demais para mim, eu prefiro minha própria cidade, a cidade em que piso os pés descalços, a cidade que me pensa, a cidade que eu mesmo inventei a ter que viver na cidade que dizem ter vida própria. Meu lar é o desespero e o lar do desespero sou eu. Sou o sonho dos mochileiros e o estigma dos empresários.

E bifurcação nenhuma resiste as minhas escolhas.

Então a data realmente não importa, nem o nome da cidade, apesar de eu querer saber ela, ela não importa, já que estou desesperado. E o desespero está eu.

Sem mais, espero que amanhã eu saiba a data. E com certeza, a data vai saber eu.

            Lucas Lins.

Posted by L. L. in 01:38:44 | Permalink | Comments (1) »

Friday, October 5, 2007

A Metrópole – Inverno.

Em algum lugar eu li ou ouvi que o frio aproxima as pessoas, eu não entendo como nem porquê, mas é bem claro que em Campinas isso é mentira…

O vento do inverno na metrópole assopra frio e corta como navalha o rosto de quem se agasalha com feltro na madrugada. Os pombos desaparecem, os gatos se multiplicam e as corujas gritam. As nuvens são exterminadas no período seco e sem vida do inverno, durante o dia, no trânsito de mil pessoas e de milhão de carros o inverno joga em cima deles agasalhos, blusas e cachecóis, os milhões andam pra lá e pra cá de braços cruzados por não terem quem abraçar e o sol tímido tira férias.

E em uma banca de jornal por ali no centro, alguém que está atrás do balcão esperando algum cliente cruza os braços. Joga a tira do cachecol que está pendurado no pescoço para tentar completar mais uma volta, enquanto suas bochechas rosadas esperneiam seus dentes tremem e ninguém bota o pé para dentro da banca. Mais um dia de inverno para a tal atendente.

É uma questão de probabilidade, em lugares que você tem muitas pessoas há grande mistura de gêneros e etnias, é talvez até improvável, mas já que há muitas pessoas de todo tipo, tem há muitas pessoas do tipo ‘louco’. E um desses tremendo de frio bota o pé dentro da banca, senta no chão da banca e começa a tremer.

A mulher da banca vê ele bem ali, mas não age para tentar tira-lo dali ou qualquer coisa, simplesmente observa.

Inverno, todos fazem o máximo para não levantar de suas camas ao amanhecer.

Inverno, não há camas.

O louco com suas barbas e seus cabelos esvoaçantes treme, treme e treme.

A atendente da banca com sues cabelos penteados e lindos treme.

O homem na sua moto esperando o semáforo liberar a corrida, treme.

O mundo treme aos braços cruzados e os edifícios balançam.

E na madrugada fria do inverno o vento frio corta como navalha, que balança as árvores e folhas tremem: inverno.

        Lucas Lins

Posted by L. L. in 03:00:07 | Permalink | Comments (2)