Monday, October 15, 2007

Diário Urbano

Eu queria começar isso direito, queria poder por um cabeçalho na primeira linha do meu diário, mas não posso, não sei qual o nome dessa cidade, nem a data em que estou. Talvez seja por isso que nada do que eu tentei fazer deu certo, acho que tenho uma mania de não fazer as coisas direito, de tentar simplesmente fazer da maneira que sei, sendo a minha maneira a maneira errada.

Eu queria saber a data de hoje.

Na verdade eu queria mesmo é estar escrevendo isso, e não simplesmente pensando. Sou um mendigo, um andarilho, e por conseqüência disso não tenho dinheiro nem pra comer vou ter para um caderno? Então, o diário é mental. Papel em forma de nuvem, rolos de pergaminhos que se confundem com sonhos e caneta imaginária.  Pensamentos que inundam minha mente quando faço o que sei de melhor: andar.

A última noite foi terrível. Se foi, o frio foi infernal e a lua praguejava nuances contra mim, o farol dos carros que quase me atropelavam me tiravam o sono e as corujas não piavam. E eu não sabia que dia era ontem.

Existem momentos que quase me arrependo de ter negado a sociedade, mas eu só quase me arrependo, sou perfeito demais para eles e eles escrotos demais para mim, eu prefiro minha própria cidade, a cidade em que piso os pés descalços, a cidade que me pensa, a cidade que eu mesmo inventei a ter que viver na cidade que dizem ter vida própria. Meu lar é o desespero e o lar do desespero sou eu. Sou o sonho dos mochileiros e o estigma dos empresários.

E bifurcação nenhuma resiste as minhas escolhas.

Então a data realmente não importa, nem o nome da cidade, apesar de eu querer saber ela, ela não importa, já que estou desesperado. E o desespero está eu.

Sem mais, espero que amanhã eu saiba a data. E com certeza, a data vai saber eu.

            Lucas Lins.

Posted by L. L. in 01:38:44 | Permalink | Comments (1) »