Quinze minutos: vida e morte.
O rosto enrugado de colinas e vales, o cabelo de prata, os olhos azuis tristes e a feição de desespero, repugnância e tristeza. Júlia tem 84 anos e fica parte do seu dia sentada na sua cadeira de balanço, apreciando com os olhos cansados os fundos da casa, o pequeno jardim e os pássaros que brincam com as migalhas aos pés frágeis e sonolentos da idosa de vestido azul turquesa.
Júlia tem um problema sério com a sua memória, talvez seja um fruto estragado de anos de trabalho duro no interior do Pernambuco, talvez seja uma seqüela de um trauma, talvez sejam os anos chegando e passando. Acontece que Júlia, desde de seus 80 anos, vive a vida em quinze minutos.
Sua memória lhe pregou uma peça, uma brincadeira, um trocadilho de mau gosto: Júlia só consegue manter fatos concretos na sua memória por sofridos quinze minutos, algo acontece, quinze minutos depois já não aconteceu. Júlia nasce e morre a cada quinze minutos. Desperta e dorme. Aparece e desaparece em todos quinze minutos.
Mas só por quinze minutos.
* * *
De repente Júlia não sabia onde estava, se sentia cansada, exausta, olhou ao redor e reconheceu a humilde casa de sua filha, onde estava morando, não sabia porque trouxeram ela do tal Pernambuco, mas trouxeram.
Júlia estava sentada na sua cadeira, enquanto uma doce tarde brilhava no céu. Passou pela sua cabeça a imatura idéia de se levantar e recobrir a situação. Antes disso apanhou do seu lado um pote e tirou de lá uma pílula para memória, a colocou na boca. Quando se levantou algo caiu do seu colo e se quebrou no chão. Olhou e viu um prato despedaçado no chão e mingau para todos os lados, lambuzando seus pés e os pés da cadeira.
Entrou na casa na busca de uma vassoura, achou ela e voltou para recolher a sujeira. Limpou tudo, catou com uma pá de lixo e despejou tudo no lixo da cozinha.
Júlia, com todo o peso de 84 anos nas costas se movia vagarosa, e transformava ações fáceis e simples em rituais demorados e herméticos. E em toda essa delonga um relógio despertou dentro de seu cérebro: quinze minutos.
* * *
Ué?
Júlia se viu, sem entender, de frente para o lixo da cozinha com uma pá na mão. A soltou ao lado do lixo e voltou para sua cadeira de balançou, se sentou tomou outra pílula de memória, já que não havia tomado nenhuma naquele dia e balançou. O chão estava grudento e seu vestido azul turquesa manchado com gotas brancas de mingau.
Procurou uma posição confortável na cadeira e viu suas amigas pombas voando e pousando no jardim.
Pensou no que estava fazendo ali, onde estava, quem era, e onde diabos estava o seu marido.
Com muito custo conseguiu todas as respostas. Em vão: quinze minutos.
* * *
A pomba no seu pé fez ela questionar onde estava.
Onde estava, fez ela questionar o que fazia, fez ela questionar quem estava, onde ia, e por que foi.
E já que ainda não havia tomado naquele dia, apanhou um bote do seu lado, abriu e engoliu uma pílula para melhorar sua memória.
Um tic-tac chamou sua atenção. Olhou pro lado e viu o ponteiro do segundo dar uma volta inteira: quinze.
* * *
Levantou da cadeira de balanço, e já que ainda não havia tomado seu remédio naquele dia, levou em conta o que o doutor disse, que não deveria esquecer do remédio, e tomou mais uma pílula, faz bem para a memória. Foi no banheiro, sentou no vaso, quinze.
* * *
Nada aconteceu no vaso, então se levantou. Fez o caminho de volta para a cadeira se sentou, tomou a sua pílula diária de memória e tentou lembrar onde estava, urinou no vestido.
Ah meu Deus! E lá foi ela com pequenas passadas para o banheiro.
* * *
Parou no meio do caminho, quase esquecerá da sua pílula de memória, tomou mais uma e se perguntou onde estava. Voltou para o assento ver as pombas e viu que estava toda mijada.
* * *
Ah! É claro! Ela havia esquecido de tomar o seu remédio para a memória, tomou mais um e voltou a observar as pombas, o jardim e a doce tarde. Enquanto abria novamente o pote, hoje vou tomar dois para o efeito ser melhor.
* * *
Seus olhos começaram a ficar pesados, ela dormiu e não mais acordou, nem quinze minutos depois. Nem quando sua filha a chacoalhou e muito menos quando a filha viu que o pote de remédios estava vazio.
Lucas Lins.