Saturday, November 24, 2007

Quinze minutos: vida e morte.

O rosto enrugado de colinas e vales, o cabelo de prata, os olhos azuis tristes e a feição de desespero, repugnância e tristeza. Júlia tem 84 anos e fica parte do seu dia sentada na sua cadeira de balanço, apreciando com os olhos cansados os fundos da casa, o pequeno jardim e os pássaros que brincam com as migalhas aos pés frágeis e sonolentos da idosa de vestido azul turquesa.

Júlia tem um problema sério com a sua memória, talvez seja um fruto estragado de anos de trabalho duro no interior do Pernambuco, talvez seja uma seqüela de um trauma, talvez sejam os anos chegando e passando. Acontece que Júlia, desde de seus 80 anos, vive a vida em quinze minutos.

Sua memória lhe pregou uma peça, uma brincadeira, um trocadilho de mau gosto: Júlia só consegue manter fatos concretos na sua memória por sofridos quinze minutos, algo acontece, quinze minutos depois já não aconteceu. Júlia nasce e morre a cada quinze minutos. Desperta e dorme. Aparece e desaparece em todos quinze minutos.

Mas só por quinze minutos.

              *  *  *

De repente Júlia não sabia onde estava, se sentia cansada, exausta, olhou ao redor e reconheceu a humilde casa de sua filha, onde estava morando, não sabia porque trouxeram ela do tal Pernambuco, mas trouxeram.

Júlia estava sentada na sua cadeira, enquanto uma doce tarde brilhava no céu. Passou pela sua cabeça a imatura idéia de se levantar e recobrir a situação. Antes disso apanhou do seu lado um pote e tirou de lá uma pílula para memória, a colocou na boca. Quando se levantou algo caiu do seu colo e se quebrou no chão. Olhou e viu um prato despedaçado no chão e mingau para todos os lados,  lambuzando seus pés e os pés da cadeira.

Entrou na casa na busca de uma vassoura, achou ela e voltou para recolher a sujeira. Limpou tudo, catou com uma pá de lixo e despejou tudo no lixo da cozinha.

Júlia, com todo o peso de 84 anos nas costas se movia vagarosa, e transformava ações fáceis e simples em rituais demorados e herméticos. E em toda essa delonga um relógio despertou dentro de seu cérebro: quinze minutos.

                        *  *  *

Ué?

Júlia se viu, sem entender, de frente para o lixo da cozinha com uma pá na mão. A soltou ao lado do lixo e voltou para sua cadeira de balançou, se sentou tomou outra pílula de memória, já que não havia tomado nenhuma naquele dia e balançou. O chão estava grudento e seu vestido azul turquesa manchado com gotas brancas de mingau.

Procurou uma posição confortável na cadeira e viu suas amigas pombas voando e pousando no jardim.

Pensou no que estava fazendo ali, onde estava, quem era, e onde diabos estava o seu marido.

Com muito custo conseguiu todas as respostas. Em vão: quinze minutos.

                        *  *  *

A pomba no seu pé fez ela questionar onde estava.

Onde estava, fez ela questionar o que fazia, fez ela questionar quem estava, onde ia, e por que foi.

E já que ainda não havia tomado naquele dia, apanhou um bote do seu lado, abriu e engoliu uma pílula para melhorar sua memória.

Um tic-tac chamou sua atenção. Olhou pro lado e viu o ponteiro do segundo dar uma volta inteira: quinze.

         
                        *  *  *

Levantou da cadeira de balanço, e já que ainda não havia tomado seu remédio naquele dia, levou em conta o que o doutor disse, que não deveria esquecer do remédio, e tomou mais uma pílula, faz bem para a memória. Foi no banheiro, sentou no vaso, quinze.

                        *  *  *

Nada aconteceu no vaso, então se levantou. Fez o caminho de volta para a cadeira se sentou, tomou a sua pílula diária de memória e tentou lembrar onde estava, urinou no vestido.

Ah meu Deus! E lá foi ela com pequenas passadas para o banheiro.

                        *  *  *

Parou no meio do caminho, quase esquecerá da sua pílula de memória, tomou mais uma e se perguntou onde estava. Voltou para o assento ver as pombas e viu que estava toda mijada.

                        *  *  *

Ah! É claro! Ela havia esquecido de tomar o seu remédio para a memória, tomou mais um e voltou a observar as pombas, o jardim e a doce tarde. Enquanto abria novamente o pote, hoje vou tomar dois para o efeito ser melhor.

                        *  *  *

Seus olhos começaram a ficar pesados, ela dormiu e não mais acordou, nem quinze minutos depois. Nem quando sua filha a chacoalhou e muito menos quando a filha viu que o pote de remédios estava vazio.

        Lucas Lins.

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Friday, November 16, 2007

Pálpebras.

Era cedo, e eu acordei.
Não abri os olhos, mas pude ver
o sol entrava tímido pela janela
atravessava com medo a cortina
e fazia desenhos, sombras e esculturas
de metais gelados e pesados no chão.
 
O frio que vinha junto do sol.
Caminhavam de mãos dadas,
o frio tocava no meu rosto
e eu sentia suas frias unhas
tentando me sufocar
talvez, me matar de prazer.
 
Daquele sopro gelado que
lábios ladrões geravam
na manhã de minha morte.
Senti uma vontade tremenda
algo que saltava de dentro de mim
e gritava: não parem!
 
Então abri os olhos
E já não pude mais ver
a paisagem de morte
talvez céu, possivelmente inferno.
Fora um sonho,
de imagens vazias e cheias
de olhos cerrados.
 
O meu algoz: pálpebras.
Que me olhavam por dentro
e viam…
… Escuridão.
 
            Lucas Lins.
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Wednesday, November 14, 2007

Os Efêmeros.

Uma hora não seremos.
Não seremos jovens,
idosos, vivos, poetas.
Em uma hora
será minuto.
 
Em um minuto será
hora de passar.
Mudar, transformar,
viajar.
Tragar, gerar, sujar.
 
Mandar parar!
E lentamente
se transformar
até
acabar.
 
E passar:
 
Passado.
 
Até “era hora”.
Sendo era,
sendo milênio,
já era hora.
 
De parar, e acabar.
Murchar, morrer, secar
e fertilizar.
 
            Lucas Lins.
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Monday, November 12, 2007

Novembro, flores secas.

Onze, mês dos mortos. O mês que os coveiros esperam com ansiedade e que os órfãos têm ânsia. O mês de hoje. O mês onde o movimento dos cemitérios aumentam temporariamente, e o mês onde as flores continuam secas.

Pensou Carmem o coveiro homossexual do Cemitério de San Fernando em Sevilha, Espanha ao ver a chuvosa e triste Av. Doctor Fedriani, naquela manhã cinza e bege do outono boreal da quente e festiva Espanha.

Carmem enfiou uma grossa chave pesada e enferrujada em um cadeado pesado, bruto e nostálgico do portão branco. Onde era observado apenas pelas pinturas e pelos anjos e santos de mármore ao muro e colunas do melancólico cemitério. Abriu o cadeado e os portões. Virou de costas para os anjos, encarou as lápides e seguiu com passos firmes no caminho de paralelepípedos para o seu escritório.

Carmem era visivelmente um homem sendo mulher, era visível pelo seu gogó áspero que brotava no seu pescoço, pelos pés calçados em tamancos amarelo e pelas suas unhas grosas e indelicadas que tinham um gritante esmalte rosa-choque. E é claro, pela maquiagem terrivelmente exagerada sobe os olhos e nas bochechas que tinham pequenos pêlos de uma barba masculina.

Carmem continuava seu caminho com sua bolsa de couro de jacaré até seu pequeno escritório no meio do cemitério, era uma saleta que por fora parecia ser um mausoléu, e por dentro um bordel.

Folhas secas de outono caiam pelo seu caminho chuvoso de garoa fina.

*  *  *

Já se passavam das onze da manhã, e por uma ligação da sua família brasileira no celular Carmem pode entender. Entender que todo esse papo de mês dos mortos, de adorações, de solidão e de dar mais um adeus aos finados não passava de mais uma raiz que restará em si mesma, influências de sua terra-natal, Brasil.

Enquanto pensava nisso naquela solitária e monótona manhã uma moça de beleza cristalina e genuína entrou naquele pequeno escritório de Carmem, deu bom dia e começou uma frase. Carmem não entendeu essa frase, pois estava deslumbrada e espantada: a moça não havia feito nenhum olhar de reprovação ao homossexualismo estampado em tudo que era Carmem.

Carmem voltou para si e respondeu a pergunta:

  -  Vou te levar ao túmulo.

Carmem seguiu as pistas que a moça havia dado, Carmem sentia uma inveja monumental sobre a beleza da moça, aquele homem-mulher desejava tanto ser uma moça tão bonita.

Nem que para isso tivesse que visitar o túmulo do filho morto.

Mas é isso mesmo, novembro é mês dos mortos, onde chovem rosas nas lápides, mas as rosas continuam secas. Todas elas, a moça linda, apesar de ser uma rosa maravilhosa, murcha quando vê o túmulo, o Carmem tenta não murchar todo dia com toneladas de maquiagem. E a mãe de Carmem liga pra ela do Brasil no mês dos mortos, como se Carmem tivesse morrido, e ela desse mais um adeus, é a mãe tendo total certeza de que vive no inferno. Até o outono, com chuva.

Flores, todas elas, secas.

            Lucas Lins.

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Sunday, November 11, 2007

Convém ler!

Onze do onze!

Saiba você, ó leitor. Que já ta fazendo um ano da primeira sinapses!

Então, saiba você, que convém ler!

Não deu pra fazer uma festa de arromba lá na Câmara de Confraternização do Palácio de Versalhes em Paris, também não deu pro seu humilde locotor saltar de dentro de um bolo de três andares enquanto dançarinas havaianas estimulavam a festança. Mas deu pra ficar feliz!

Muito feliz!

                Lucas Lins.

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Monday, November 5, 2007

Élês

Lábios ladrões, liberdade.
Latrocínio.
Latitude locação, lisergia.
 
Lerdo leque, leve.
Leso
Letreiro léxico, laços.
 
Lhama. Lunático
 
Liquefazer!
Livrar! Ler!
Locomover!
Lutar! Luzir!
 
Ligar:
 
Limpo, lúcido, louvor, lira, luz, lavanda, luvas, lírico, litoral, lutas, lã, lindo, leite, luxo, leito, liturgia, língua, lombriga, lêndea, lobo, lepra, lésbica, lama, lesivo, lástima, labirinto, luxúria, luto, lúcifer.
 
Lho.
         
            Lucas Lins.
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