Friday, December 28, 2007

A Metrópole - Macabra e Salvadora, Margot.

Em uma das solitárias e sujas ruas de Campinas, uma dessas ruas que fica próximo ao centro, mas que ninguém vai, uma dessas ruas que a gente vê e se pergunta tendo certeza de que somos as únicas pessoas que percebemos aquela rua solitária no meio de tantas outras, “isso realmente existe? alguém vê essa rua? existe algo aí?!”. E perguntas e respostas ecoam nos becos se entrelaçando, de forma que é impossível perceber quem é quem. Na fortaleza de cimento velho uma porta dá direto para a rua, sem nenhum vestígio de calçada ou planejamento. E nessa porta um homem estava lá encostado, na sua melhor atuação de vagabundo, o homem vestia trapos, barba por fazer e aquele já conhecido estilo de cidadão latino.

Algumas três mulheres se aproximam, visivelmente retirantes, com panos pretos sobre os ombros, andar vagaroso, e pareciam ser bem velhas, talvez até não tivessem a idade que aparentemente teriam, mas aparentavam, se aparentavam, peles enrugadas, cabelos brancos, nostalgia na face ausente de sorriso, olhos fundos, corpo trêmulo, banguelas. Usavam aqueles vestidos floridos que só as vós usam.

E perguntaram, a Margot vive aqui? O homem a princípio fingiu que não era com ele, depois fingiu não perceber elas, depois respondeu, que Margot? Aquelas das visões, uma das três disse, parecia ser a porta-voz.

Subindo as escadas, terceira porta à esquerda.

Ele só disse isso, depois saiu da frente da porta, movimentos ensaiados.

As três pobres donzelas entraram na porta, ela dava passagem pra uma escada longa, escura, suja, macabra, a estreita passagem tinha a pintura da parede descascando, poças de água em alguns degraus, um cheiro horrível de mijo. As velhas subiram devagar, muito devagar.

Lá no topo, um gato meio preto, meio branco, meio cinza, saiu correndo, passou entre elas e desapareceu escada a baixo, uma criança engatinhava na frente da primeira porta de madeira, a segunda porta estava aberta e de lá saia um cheiro que seria qualquer coisa, menos saudável.

E na terceira porta, um aglomerado de pessoas, as três chegaram, e começaram a olhar para na direção que todo mundo olhava: uma mulher negra, gorda, sentada numa cadeira de balanço, fumando um cachimbo, uma imagem meio dilatada, mas ainda assim matriarcal e reconfortante para desesperados.

O local fedia, era escuro e parecia ser uma sala de um pequeno apartamento de quatro cômodos, elas ficaram surpresas com a imagem e alguém lá no meio virou para ele três e disse: SILÊNCIO!

A velha Margot dizia:

Não brinque com fogo, imbecil! A menos que queira se queimar! Já que o fez! Agüente as conseqüências!!

E deu mais uma tragada no seu lisérgico cachimbo, as sábias palavras de Margot não passavam de baboseira direcionadas ao óbvio, à dura, relevante, e desgraçada verdade. Aquilo que o coitado percebia, mas não tinha coragem de ver. As palavras de Margot tinham gosto de fumo.

As três velhas continuaram ali paradas, vendo o espetáculo, o homem que escutava os conselhos fez mais algumas perguntas pra tal Margot, que respondeu com uma longa e delirante gargalhada, o homem se levantou e antes de ir embora pagou a consulta, entregou o dinheiro sujo e amassado na mão de uma outra menina que ficava atrás de Margot.

                                                            *     *     *

Enfim chegou a vez das três senhoras.

Elas se sentaram em umas cadeiras bem velhas e gastas, olharam para os olhos da velha Margot, a princípio ficaram desconcertadas, se entreolharam e finalmente, falaram: Olha, sra. Margot, viemos de longe, não agüentamos mais essa dúvida – Margot interrompeu ela.

Me poupe dessa ladainha, todos que vêem aqui falam essas mesmas palavras, vá direto ao ponto, droga!

O rosto enrugado e muito abatido da velha que falava ficou surpreso, depois triste e sem esperanças, ela olhou para as outras, que compartilhavam a mesma feição e depois finalmente, a boca banguela voltou a abrir:

Nós, é… Aconteceu algumas coisas estranhas nas últimas semanas, e ela está grávida, e queremos ter certeza que essa criança não nasça. Soubemos que a Senhora pode dar um fim nisso, viemos aqui para isso.

Ela meio que apontou com o rosto quando disse isso, olhou para uma das senhoras, mais velhas entre as três, agora Margot pode ver que essa velha tem olhos verdes bem claros, uma face bem destruída pelo tempo, e que uma saliência oval aparecia no vestido por perto do útero.

Muahaha! Quanto tempo a criança já tem?

Quatro meses, uma semana e três dias.

Não há mais tempo, não tem mais jeito! A velha Margot dizia poucas palavras, com pausas rítmicas e recheadas de gargalhadas entre elas.

Mas, por que? Viemos o mais rápido que pudemos, você tem que nos ajudar, estamos pagando!

Margot deu uma traga no cachimbo:

Eu vou ajudar, e vocês vão pagar. A criança deve nascer!

Mas por que?

Porque Jesus voltará.

As três velhas levantaram, deram o dinheiro para Margot, e sairam dali da mesma maneira que entraram.

                Lucas Lins.

Posted by L. L. at 11:27:11 | Permalink | Comments (3)

Friday, December 21, 2007

Cem anos depois.

A bola de pêlo atingiu o estômago.
O beijo cessou
a baba escorreu
e o bebê nasceu.
 
Seja nefasto!
Criatura do asfalto!
Cuspa trovões,
sonhe furacões.
 
A lágrima desceu a doce bochecha rosada e tocou os lábios com ternura.
Meio salgado.
Uma lembrança marítima alcançou
o cérebro ricocheteou pelas paredes da cabeça,
e saiu pelo nariz.
 
A bola de pêlo já estava no joelho.
 
Engoli a essência,
beijei as grades,
e comecei a amar as latrinas da cela.
 
Quando voltei a mim a bola de pêlo já estava nos meus pés,
senti uma leve umidade nos
calcanhares, talvez fosse ela.
 
Eu não sabia antes.
 
Agora não sabia ao certo.
Toquei a lâmpada
ela tremeu e a esfera foi lançada.
 
Fiz uns pontos depois desisti.
 
“Quem precisa de organização lógica quando se tem tédio, febre e muita, muita tosse?”
 
O coelinho desabotou a camisa meteu a mão na barriga,
tirou às pressas um grande pedaço de si mesmo e comeu.
 
Mastigou.
 
Engoliu, daria uma bela bola de pêlo.
 
Você, foi como se
eu tivesse nascido.
 
Eu disse! Eu disse!
SAIA DOS MEUS OLHOS!
 
Mas por enquanto vamos esperar até amanhã.
 
Tic,
Tap,
Zap: gasp.
 
Talvez cem anos seja pouco.
 
            Lucas Lins.
Posted by L. L. at 02:52:47 | Permalink | Comments (4)

Monday, December 17, 2007

Hoje não deu.

Não é desculpa, mas to doente.
Posted by L. L. at 01:07:19 | Permalink | Comments (1) »

Friday, December 7, 2007

Poesia em movimento.

Unidimensional
tempo, e nada mais.
Onde posso escorrer
como lágrima, como sangue,
ou como mel.
Até em uma gota
ou enxurrada
atingir
os mais sólidos olhos
e extrair
a mais pura inexistência.
 
De uma poesia que
goteja das nuvens
e encontra o mar:
folha em branco
 
Para jurar aos
leões, às sereias, aos morcegos e aos ladrões,
que ainda estamos vivos
e observamos.
 
A gota cair.
 
            Lucas Lins.
Posted by L. L. at 23:40:47 | Permalink | Comments (2)

Monday, December 3, 2007

A Desistência - O Solilóquio do Escritor Quando Jovem.

Não adianta. Você não tem nenhuma idéia, é besteira se ariscar nisso. Você não tem nenhuma idéia, o tempo é mais forte que você, há comodidade nos teus fatos. Desista, você não tem nada a dizer, nada a falar, nada a mudar, nada a que lutar. Se for falar por falar, melhor calar. Ter algo a dizer é realmente seduzível, a aventura parece ser divertida, mas você não tem coragem de apostar em si mesmo, lhe falta audácia. Desista não há nada que você possa falar, escrever ou relatar. Por a culpa na sua geração e no momento é bem previsível quando não se tem nenhum talento. Seus olhos só vêem aquilo que é mostrado e isso não basta! Desista! Já desistiram de você há muito tempo.

Nessa luta só me resta uma aliada, teimosia.

Pura teimosia, bendita seja.

            Lucas Lins.

Posted by L. L. at 01:58:45 | Permalink | Comments (2)