Sunday, April 27, 2008

A cada fôlego meu.

Era como um ritual, sentei de pernas cruzadas e encarei o pó na minha frente. Era um ritual, arrumei minha postura, me concentrei, fechei os olhos e respirei o pó. Primeiro aquela ardência terrível no nariz, minhas fossas nasais quase explodiram, cocei meu nariz várias vezes até aliviar um pouco a queimação e então, finalmente, senti que a cocaina encontrou a corrente sangüinea pelas veias das minhas fossas nasais.

Eu estava em um quarto escuro, agora deitada no chão em cima de um tapete, a cocaina me mandou pra bem longe daquele quarto, apesar de ainda estar nele. Eu sentia uma leve dor na cabeça, de olhos fechados eu via tudo girar devagar e compassadamente, na verdade, tudo parecia dançar. E foi no meio desse espetáculo escuro que eu o vi chegar.

Na realidade, eu, mulher, já havia visto ele outras vezes. Em outros momentos que usei da droga e que fiquei assim no chão destruída, senti o toque dele em mim, como um grande nevoeiro que me tocava e seduzia enquanto eu mal lembrava que era humana, mas dessa vez foi diferente, eu não estava tão doida quanto nas outras vezes, e dessa vez, eu pude ver e ouvir mais do que sentir. Eu o vi girar a maçaneta do quarto e entrar, não sei bem definir uma forma ou postura para ele, eu apenas percebia aquela silhueta sedutora se aproximando de mim, enquanto eu, destruída, lenta e fora de mim. Sentei-me no chão, senti o toque dele em mim novamente, era como neve ou como fumaça, os dedos dele passavam pelos meus limites e me tocavam profundamente. Quanto mais ele se aproximava e me tocava, eu mais podia perceber ele, agora já ouvia o doce som perturbador que ele transmitia, como se o coração dele palpitasse, como se ele tivesse coração, ele me envolvia e agora eu sentia o cheiro de noite fria e escura que ele pronunciava a cada fôlego meu, cada vez mais forte.

Tudo ali se acentuava enquanto mais e mais aquele homem mergulhava em minhas formas,  quanto antes eu percebi que aquilo que estava acontecendo precedia um orgasmo, sim eu podia sentir o clímax se aproximando na mesma velocidade de vento e de mar daquele homem grotesco e estranho que me visitava quase sempre quando eu consumia o pó.

Depois eu acordei. Não havia sonhado aquilo porque ainda tinha ali por perto vestígios de que eu usará a droga.

Fui até o banheiro, lavei meu rosto na pia e me olhei no espelho, contemplei minha imagem grotesca e como em um ritual compreendi: me apaixonara.

 

 

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Passei  a semana inteira pensando no homem do pó, não consegui me concentrar de maneira nenhuma em qualquer coisa que tentava fazer. E estranhamente eu sentia que ele não saia da minha cabeça, e ainda mais além, o rastro e a memória dele não deixava nenhum centímetro do meu corpo em que eu havia experimentado aquele êxtase extremo, eu não conseguia esquece-lo. E instintivamente eu desejava que ele também não me esquece.

A semana havia passado como um tornado, durante as noites utilizei da droga algumas vezes, mas nada tão importante ou repleto de ritual para receber a visita do homem. E para todos esses momentos que não o recebi, finalmente me preparei naquela tarde sonolenta de domingo para repetir o ritual e prontamente senti-lo.

A tarde estava agradável, eu estava sozinha no cômodo em que eu chamava de casa, as janelas abertas, as cortinas voavam suavemente, um vento frio e extremamente agradável me alcançava, a luminosidade da tarde era simples e meio amarelada. Estava tudo tão agradável, apenas a minha ansiedade, agora já não pela droga em si, mas pelo encontro com o homem, me deixava um pouco desconfortável, no entano só isso, o resto estava completamente perfeito. Completamente perfeito.

Novamente repeti o ritual, cruzei as pernas, ajeitei o pó em um caco de espelho que eu tinha desde que me mudará para aquele minúsculo apartamento, prendi meu cabelo para que ele não ficasse voando no meu rosto, arrumei minha postura, recitei um mantra, tomei um pouco de chá que fiz para saborear na tarde, deixei a caneca bem ao meu lado. Dei uma última olhada para o pó, ele já não estava mais em fileira, o vento fino que entrava pela janela desorganizava ele, o que inexplicavelmente me dava uma extrema sensação de paz, ver aquele talco branco ali desorganizado em cima de um espelho, eu já não tinha certeza se isso era menos prazeroso que reencontrar o homem, se valia a pena respirar o pó – e não poder mais velo - e encontrar o homem.

Optei com a ajuda da curiosidade em encontrar o homem. Fechei meus olhos e como em um relâmpago, a cocaina encontrou a corrente sangüinea pelas veias das fossas nasais.

De repente eu já não conseguia enxergar nada, deixei a loucura me carregar, me estiquei no chão, senti meu pé passar por cima do caco de espelho e senti também minha mão derrubar a caneca de chá e senti o líquido gelado tocar meus cabelos, agora misteriosamente soltos.

Tudo que aconteceu depois disso eu me reservo à discrição. Não sou audaciosa o suficiente para tentar relembrar momentos tão infinitos.

Acordei depois do transe, fui até o pequeno banheiro, lavei meu rosto na pequena pia e me vi no espelho. Era como se o amor que eu nutria com tanta sinceridade e carência estivesse me matando…

 

 

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Depois disso comecei a ser tratada com mais violência pelas pessoas, eu sentia que as pessoas olhavam para mim e viam uma viciada, o que não deixava de ser verdade, no entanto eu não me via como aquele retrato comum de viciada, por mim ainda restava um pouco de poesia no meu pó, um pouco ainda de humanidade, o que eu percebia que as pessoas viam como o extremo contrário. Isso me fez faltar no emprego no começo da semana, acho que faltei umas duas vezes, não lembro bem, mas o que me fez faltar foi isso. Me esnobavam, se afastavam. Depois de algum tempo compreendi, não era simplesmente porquê eu estava vivendo um vício, mas por uma pequena inveja, por eu estar boba de amor, e os outros não. Essa negação era uma coisa bem comum em romances  como o que eu estava vivendo, as pessoas parecem ter muita inveja, inveja o suficiente para se afastarem, agirem com indeferença, e é claro serem totalmente contra ao meu amor verdadeiro, já que as pessoas exteriores à mim, são totalmente incapazes de ter um amor tão real quanto um pó branco.

Mas o fato é, eu estava realmente com uma imagem horrível, dos pés a cabeça, emagrecerá terríveis quilos, olheiras profundas, rosto abatido, postura falha. No entanto sentia uma grande felicidade dentro de mim, apesar de tossir com muita freqüência, do gosto de sangue na boca, eu me sintia profundamente saudável e de bem com a vida. E confesso que nem me importei quando fui despedida do emprego, estava cega de amor. E quem é que não gosta de estar cego de amor? Eu estava boba, cega, o que se acentuava mais e mais no sentido dos meus encontros com meu grande amor.

Durante os momentos que eu não estava sob o comando do pó, a cada fôlego meu eu podia senti-lo, sentir o pó atingindo as veias das fossas nasais, e é claro, o amor repleto de cocaína que abraçava meu coração, tocava meu cérebro e beijava minha consciência. A cada fôlego meu eu respirava amor e aspirava saudades daquele homem extradimensional maravilhoso. Eu tinha ele ao meu lado a cada fôlego, mas isso não era o suficiente. Se a coca era a matéria-prima da cocaína, a cocaína era a matéria-prima do nosso incondional amor. Naquele tarde de segunda-feira, eu não tinha nenhum compromisso, estava pronta para visitar meu grande amor, pronta para recebe-lo, não só de braços abertos, mas de alma, cérebro e fossas nasais totalmente livres para ele. Dessa vez eu não organizei o ritual, foi de qualquer maneira, eu estava com pressa, morria de saudades, eu sentia ele me chamar a cada fôlego meu e eu já não podia mais esperar, eu tinha que senti-lo, eu tinha que ter ele ao meu lado, de uma maneira que não tinha explicação a não ser o amor.

Então, ali no banheiro mesmo, sentada na privada com o pó enfileirado no meu joelho eu respirei mais uma vez o pó e como nunca senti o amor que estava em mim encontrar o amor que estava nele, nos completamos, nossas almas finalmente se tornaram uma só e eu pude sentir elas dançaram de alegria e satisfação enquanto eu tinha uma overdose ali no chão sujo e molhado do banheiro.

Enquanto meu corpo enfrentava meus dêmonios ali no chão eu vi ele se aproximar pela porta do banheiro, declarei todo meu amor para ele, no meio de convulsões percebi um sorriso dele e retribui o sorriso dele, eu sentia uma saliva estranha escorrendo no canto do meu verdadeiro sorriso. Eu não conseguia respirar, cada fôlego meu agora era parado por alguma coisa que eu não sei o que, se eu não pudesse ver a imagem acolhedora talvez eu não iria aguentar o mal estar que eu sentia, agora ele de cócoras ao meu lado. Ele se enclinou e me deu um beijo leve, nossas línguas não se encontraram, apenas uma pequena parte do nosso lábio, apesar do simples beijo foi a maior satisfação de toda minha vida: morremos por amor.

                Lucas Lins.

Posted by L. L. at 13:44:08 | Permalink | Comments (3)

Monday, April 14, 2008

Os Efêmeros.

Sempre.
 
Eu quando em mim,
também em tu(do).
 
Pois  quando faço, tudo que faço é imaginar,
sonhar.
 
Para festejar esperança que no fim
ainda reste carbono (vivo!) para queimar
e finalmente:
 
Nos eternizar.
 
Eu que me cruxifico aos seus versos
e nós que alcançamos céus em ler
nossos
pobres
afetos.
 
Então, já que vamos,
vamos naquela coisa mágica e
impossível do pôr-do-sol.
Que vai, mas que ofusca os olhos
que vai, mas que dura eterna meia-hora
que vai, mas que morre em tons coruscantes.
 
Mas que vai.
Vai com certeza nos eternizar.
 
                Lucas Lins.
Posted by L. L. at 23:53:34 | Permalink | Comments (1) »