A Destruição.
Ela veio com passos rápido, se apoio no balcão, cumprimentou nós três com um olá gritado. Reclamou da vida, como todos fazem, ela tinha uma aparência abatida de quem trabalhou a vida toda, os anos amargos estavam gravados no rosto, o olhar era profundo e bem negro, apesar de tudo, exalava energia, uma daquelas mulheres que você percebe que não se cansam nunca, apesar das várias porradas da vida, está sempre disposta a reagir. Reclamou da vida novamente, a minha gerente respondeu perguntando o que havia acontecido, ela vociferou que apesar da família grande era sozinha, que a morte do marido ainda não havia sido superada – mesmo com os vários anos, e com uma entonação grotesca reclamou do filho. “Ele ainda bebe?” Perguntou a minha gerente, deste lado do balcão. A mulher do lado de lá olhou para os cantos para ver se mais alguém ouvia além de nós três e disse: “A bebida já largou, o problema agora é outro” e fez um gesto demonstrando que ele usava drogas.
As duas mulheres que me acompanhavam deste lado do balcão, ali naquele comércio fizeram uma cara de espanto e concordaram com todas as reclamações, oferecendo um abrigo singelo. Ela reclamou novamente, novamente e novamente, dessa vez disse que quando moresse, não seria nem julgada. Perguntaram sobre as filhas dela, ela disse que eram uns anjos e que eram de bem aquilo que o filho era de mal. Eu não entendi se ela estava exaltando a filha ou o filho. Pensei em perguntar, mas preferi não me intrometer.
Ela diz que o filho está destruído.
Perguntaram se ele pensa em parar, se diz a ela que está arrependido e se assume o vício. Ela não respondeu a pergunta. Uma outra mulher se apróximava do balcão, essa dessa vez, o inverso da mulher que já estava lá, percebi que era uma das filhas, ela tinha um rosto bonito e um corpo esculpido, usava roupas brancas. Depois descobri que trabalhava em uma clínica de estética. A conversa cessou, as duas começaram a conversar com um vendedor, planejavam uma pequena reforma na clínica que a moça trabalhava, percebi que ela era dona da tal clínica.
De repente a conversa voltou, agora a mãe dizia à gerente que iria internar o filho. Sim, internar. A filha interrompeu a fala da mãe explicando que não era bem assim, que era uma clínica renomada, que o valor das parcelas era alto – não consegui ouvir o falor – e que apesar da brutalidade de “internar” era pro bem dele. Nesse momento me veio na cabeça os absurdos desse tipo de internação, ela comentou que iriam capturar ele com uma camisa-de-força – sim! ela usou essas palavras, CAPTURAR e CAMISA-DE-FORÇA, para um irmão! - depois também disse que ele não vai poder receber nenhuma visita por um mês.
Percebi o horror que estava acontecendo, um irmão CAPTURADO pela irmã e mãe,sem direito a visita por um mês. Nesse momento me chovem imagens de um filme que eu havia visto: Bicho de Sete Cabeças, relato de um desses internados, que sobreviveu e que contou os horrores. Me lembro com muita certeza de um momento que esse internado é obrigado a tomar remédios, não sei exatamente que tipo de medicamento é, mas é daqueles que faz engordar, massa, peso. Ele relatava que os jardins e as fontes que os pais e irmãos vêem quando vão visitar o lugar é pura mentira, o local real da clínica é os fundos do jardim onde tudo é sujo e escuro, dormitórios enormes, pátios enormes, todos sujos e escuros. Os pacientes, em condições precárias. Os pais e os irmãos no entanto não vêem essa realidade, já que há os jardins e as fontes para as visitas e é claro, os internados estam gordos e aparentemente saudáveis.
Nesse momento da minha divagação a mãe interrompe meus pensamentos e diz que lá a coisa é fina, que tem jardins pra todos os lados e que os internados tomam até banho de sol. A filha adiciona dizendo que dizer que há banho de sol lá vai fazer nós termos uma imagem má do local, já que lugar de banho de sol é na prisão. Ela complementa dizendo que lá os internos são acompanhados por vários médicos, educadores, nutricionistas. Diz também que o interno é privado de música, livros e filmes. Porque trás a tona velhas sensações e que vai fazê-lo ter vontade de usar a droga.
Nesse momento sou bombardeado pela minha indignação.
Separar uma pessoa de livros.
Música.
Filmes.
Poesia.
Como se as coisas que ele gosta, as coisas que realmente fazem as velhas sensações aparecer também fizessem parte desse vicío que o destruiu.
Destruído. Destruídos! Se essa separação é necessária para tirar ele do vício eu já não sei se vale mais a pena. Começo a entender que o problema não está só nele, que a parada é holística.
Me afasto da conversa, penso em escrever sobre isso, penso até que o texto poderia ficar legal. Algumas horas depois, na frente de uma folha em branco, penso que também faço parte da destruição.
Lucas Lins.