Onde se some o que nele caiu.
Um velho amigo me chamou para visitá-lo. Decidi ir no final de semana, no domingo, quando não teria que me preocupar com ir trabalhar e com o horário de voltar, subi no ônibus eram três da tarde, o céu estava cinza e vai chover, ele aluga um quarto num cortiço em outra cidade, um pouco afastado do caos dos prédios do centro de Campinas: um bairro com uma seqüência de pequenas casas amontoadas construídas em modelo colonial, ainda da época do café. No email que me enviou: “4 horas aqui em casa, me espere do lado de fora e não toque a campainha”. Cheguei lá e esperei, atravessei um labirinto de pequenas casas amontoadas construídas em modelo colonial, casas cinza, ruas estreitas, calçadas pequenas, vai chover. Esperei ele do lado de fora como combinado, ele não estava me esperando, mesmo com meu atraso ele não estava lá, esperei um pouco mais depois decidi chamar por ele. Ninguém atendeu. Cansei de esperar e comecei a descer o labirinto em direção ao centro da cidade. Enfiei a mão nos bolsos como quem enfia a mão num abismo, já caiam algumas gotas de chuva e a rua me sorria um sorriso cinza, era apertada e de paralelepípedos tão cinzas quanto o céu que parecia de nuvens de aço. Desci a rua devagar, olhando pro chão e com as mãos apertadas no bolso da calça procurando lembrar em qual das ruas tinha virado errado no minúsculo labirinto. Sentia-me melancólico e sozinho, e o vento frio fazia as primeiras gotas – escassas e irregulares – geladas de uma maneira diferente. Queria realmente ver o tal velho amigo, mas me conformei com a ausência dele.
Virei mais uma das esquinas ainda com a mão no bolso e olhando pro chão, a atmosfera estava tão leve, mas depois da decepção da espera me parecia tão pesada. Pesada o suficiente pra ter que fazer força pra respirar aquele ar nefasto. E aquelas casinhas naquelas ruinhas eram tantas e se repetiam tanto que o tempo parecia pa-ra-r. E em uma dessas ruas pequenas, cercado dessas casas pequenas, enquanto dava um desses passos rápidos e largos que medem a ausência de tempo nas ruas de paralelepípedo, eu ouvi através de uma janela aberta das várias casas de vários andares: um piano! As notas singelas escorregavam para dentro de mim, podia sentir elas suaves com textura de lã atravessando meus ouvidos, me atingindo. Ouvir a primeira nota foi como cair num abismo; a segunda então foi como compreender o abismo; e a terceira foi como não querer sair do abismo. A quarta e todas as outras notas foram a confirmação de uma extrema carência.
Um sentimento absurdo desabrochou em mim. Fazia-me sentar ali na calçada curta pra escutar as frases do piano – talvez teclado. Frases repetidas e desconexas de quem está aprendendo, mas ainda assim frases de piano. Piano de cauda! É óbvio que um piano de cauda não caberia na humilde casa no primeiro andar bem abaixo da janela. Provavelmente era um piano de apartamento ou um teclado. Mas aos meus ouvidos era um piano de cauda, o piano de cauda com o som mais delicioso do mundo, que a chuva e a minha solidão o transfigurava. Sem dúvida transfigurava, soava lindo.
Sentei-me ali então como se as escalas simples me abraçassem e me protegessem da chuva e do frio e me seduziam pra não deixar nunca mais o abismo. Foi tão estranho ouvir aquelas notas. Presenciar a ruptura grotesca entre os cinzas da rua que nunca passa carros com o doce aroma de flor daquelas notas. De certo não eram tão cheirosas, mas estavam.
Ali, sentado na calçada curta compreendi que não eram só as casas coloniais que tornaram-se cinzas e amontoadas. Levantei e andando na chuva fui procurar o pianista em mim pra então condenar leitores ao abismo.
Lucas Lins.
como eu queria estar com você nesse dia.
agora estou no abismo também.
bianca.
não quero te soltar como já fiz antes..