Tuesday, November 25, 2008

* * *

A solidão se multiplica
te consome, de olhos abertos vejo uma parte de mim morrer.
Aqui, junto de mim, onde nada é verdadeiro,
se desfalece de mim eu mesmo
me separo e esfarelo como pó,
um pó cinza,
que as chuvas vêem e levam sem motivo algum
deixando poças sujas e marrons e sombrias,
onde será que me perdi?
Nas poças ou nas cores?
Sem saber se já me possui, me perco.
Como posso ser minha própria peste!?
O ar é pesado, já não somos criminosos.
Não suporto meu peso,
esse peso enorme que cresce enquanto
viro pó e me torno chuva…
sem nunca ter sido nuvem.
 
                Lucas Lins.
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Saturday, November 8, 2008

Apesar do sol chovia muito.

Estava na posição de passageiro, só observava.
As ruas caóticas e imundas de cinza, o sol.
O sol.
Me tranquei em mim e apenas observei,
vi o furacão que devastou tudo aquilo. A tempestade.
E a mim, apenas relatar.  Sussurar:
o vento
os cachorros
as multidões
a velha
os prédios
o sol.
Porque eram pura expressão de desolação.
Aquilo me chocava, no entanto apenas sussurava.
 
Estava caminhando por uma região pobre.
O sol estava forte, um vento frio batia nas gotas de suor.
Casas feias, portões enferrujados, calçadas imundas. Janelas.
O sol estava forte. Uma velha mulher sentada na frente de sua casa:
olhos vagos
lenço azul na cabeça
rosto enrrugado
magra
longos cabelos  brancos
mais de oitenta.
 
Passei perto de um rio,
Estava nojento, sujo.
Fedia. Mata ciliar jamais existiu,
um amontoado de lixos.  Dejetos domésticos.
Uma doença, o cancêr da cidade havia alcançado o rio,
a mesma doença que constrói prédios e multidões de olhos vagos.
Aquele tumor grotesco que cresce e cresce e cresce.
                Por um momento o admirei.
 
Me tranquei em mim e apenas observei,
vi o furacão que devastou tudo aquilo. A tempestade.
                Quando a chuva é forte buscamos abrigo
exilados pela chuva.
                Todos nós queremos sair, eu sei, mas a chuva não quer deixar.
Vi uma chuva então que prendia aquelas pessoas em suas vidas,
as pessoas estavam esperando ela acabar pra sair e enfim viver,
a velha já não estava mais sedenta para que a chuva cessace.
Mas o rio e as crianças, e os pais das criancas, e os cachorros
e os jornaleiros, e as pombas, e os prédios
só estão ali pelo abrigo e ainda esperam a chuva passar.
E com certeza, só permanecerão ali até a chuva passar. Se passar.
 
Obrigados a permanecer onde não querem
ao gosto da chuva.
A cidade da garoa
ao gosto da chuva.

                Lucas Lins.

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Saturday, October 11, 2008

as cores íntimas.

sou giz,
escorrego seco
entre suas curvas.
eu, sem cor,
me sacio no néctar
do teu rosa.
 
te pinto
com meus tons opacos,
teu suor
dissolve meus grânulos:
em aquarela seus rosas
tornam-se vermelho.
 
ofegantes.
já não há mais cores pra distinguir.
borramos tudo de prazer.

                Lucas Lins.

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Thursday, October 2, 2008

Pastel.

Os tons opacos,
esvoaçados, trêmulos.
Fora de foco.
Leve demais, translúcido.
Sem brilho.
Ocre.
 
Minha vida é assim.
Não há vermelho gritante no batom dos lábios.
Só aquele ocre empoeirado, aquele tom feito de pastel
que se varre de dentro das casas em tardes secas,
cheias de ventos, mas não tão frias.
 
Qualquer tentativa de cor não
passa de uma aquarela alheia
que cedo ou tarde se vai em água.
Flores  e folhas mortas amareladas.
 
Luzes fracas detidas na cortina.
Tardes de domingo melancólicas,
canecas de plástico e tapetes sujos.
 
Esse vinho é horrível, suave demais.
Quase não é tinto. Mas ainda assim bebo,
não serve mais pra me preencher de carmim,
mas ainda pra esquecer de mim.
Borrar o pastel opaco. Dor de cabeça.
 
Luzes fracas detidas na cortina.
Madrugadas melancólicas,
cheias de poeira. Pastel seco.
 
Sou a folha seca que invade seu quintal.
 
                Lucas Lins. (revisão)
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Wednesday, September 17, 2008

Pastel.

Os tons opacos,
esvoaçados, trêmulos.
Opacos, meio fora de foco.
Leve demais, translúcido.
Sem brilho.
Ocre.
 
Minha vida é assim.
Não há vermelho gritante no batom dos lábios.
Só aquele ocre empoeirado, aquele pastel
que se varre de dentro das casas
em tardes secas, cheias de ventos, mas não tão frias.
 
Qualquer tentativa de cor não
passa de uma aquarela alheia
que cedo ou tarde se vai em água.
Flores  e folhas mortas amareladas.
 
Luzes fracas detidas na cortina.
Tardes de domingo melancólicas,
cheias de cheiro de poeira.
 
Esse vinho é horrível, suave demais.
Quase não é tinto. Mas ainda assim bebo,
não serve mais pra me preencher de carmim,
mas ainda pra esquecer de mim.
Borrar o pastel opaco.
 
Luzes fracas detidas na cortina.
Tardes de domingo solitárias
e cheias de poeira.
 
                Lucas Lins.
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Tuesday, September 16, 2008

Expondo a privacidade alheia 2 – As fotos e o vídeo.

Do lado de cá do balcão eu a vejo entra. Saudo ela de longe, tenho intimidade com ela, faço brincadeiras estúpidas, ela sorri, o tipo de brincadeira que não faço com todo cliente, tenho intimidade com ela. Ela se debruça no balcão, ela já é velha, estimo mais de cinqüenta, é cabeleleira, tem um salão vizinho dali, cabelos ruivos curtos, bem gorda, os braços dela são enormes e ficam bem evidentes na regata que ela usa. A barriga é enorme, os seios maiores e caídos.

Enquanto atendo ela vou a observando, contemplando aquele abismo enorme. Ela tem olhos pequenos, aquela feição de gente cansada, de quem trabalhou a vida inteira e trabalharia mais, o suor que se desprende da testa deixa claro o que ela fez e a decisão e a força das palavras dela deixa claro que faria tudo novamente.

Apesar dos defeitos, ela exala perfeição. É feia, horrível. Há aquela determinação de quem não se cansa nunca que se encontra aos baldes nos retirantes do norte do país, povo forte! Ela é forte, carrega o peso do mundo nas costas… e aguenta. Uma fortaleza em forma de mulher, é extremamente visível no rosto, na postura, nas roupas e no cansaço que ela é capaz de não desistir. Jamais. As imperfeições dela deixa bem evidente que ela é perfeita pra essa vida amargurada. Sem pretensões artísticas, intelectuais, quer só dar um casamento seguro pra filha e ter uma vida digna. Perfeita.

Termino de atender ela, minha gerente se aproxima. Começamos uma conversa descontraída e quando parecia que a conversa ia terminar e ela se despediria, ela começa outra conversa dizendo que nós não acreditariamos. Continuou:

Minha irmã morreu faz umas duas semana. Tinha cinqüenta anos, morreu na sala de cirurgia, em uma lipoaspiração. Era do Mato Grosso, ela sempre foi vaidosa, muito vaidosa. Lipoaspiração! Cinqüenta anos! Uma velha! Fazendo coisas de menina! Onde já se viu? Cirurgia é coisa séria, fazer isso por pura vaidade é idiotisse! Porque pra mim ela morreu por idiotisse! Minha mãe me ligou semana passada pedindo pra eu ir pra lá, mas vou fazer o que lá? Vou trazer a vida dela de volta? Não! Não estou nas condições de ficar viajando pra lá e pra cá! Eu fico imiginando como ta a cabeça do genro dela, já que foi o muleque que encaminhou ela pra esse doutor, o menino trabalha com ele (o doutor) e ficou incentivando ela, agora imagino como ele se sente vendo a esposa chorar e tendo a culpa da morte nas costas! A filha dela já ta gravidade de novo! É o terceiro já! Ontem ela me ligou e eu já disse pra ela que já ta bom demais! Que já ta mais do que suficiente! Três é demais!!

Ficamos no espanto, eu e a gerente. Em um espanto meio falso, eu confesso que não sinto nenhuma das dores dela, mas no entanto dou atenção, a minha gerente sim, tem um espanto verdadeiro no rosto, ela tem filhas, uma casada, talvez pra ela seja mais doloroso pensar que poderia acontecer com ela, com uma das filhas. Talvez.

Ela continua: E tem mais! O genro filmou e tirou foto de toda a operação, já mandou por correio pra mim as fotos e o vídeo. O genro filmou!! – quando ela diz isso, se debruça ainda mais no balcão, chega bem perto do rosto da minha gerente e fala isso bem alto, dessa vez vejo o rosto dela de um ângulo que nunca vi, sempre olho pra ela de frente e agora pude ver ela de um ângulo diferente, os olhos, o rosto, ela está realmente aflita - eu só to esperando pra ver! Só esperando! O que vou ver nessas coisas meu Deus do céu? O que?! Eu tenho medo do que vou ver nas fotos e no vídeo! Medo! Tem cabimento uma coisa dessas? Tem?!?  Eu já to cheia dessa história e ainda têm as fotos e o vídeo pra me assombrar!  As fotos e o vídeo.

Fotos e vídeo.

E eu ainda acho que foi erro médico, porque o médico pagou tudo. Bancou o enterro, o caixão, tudo! Alguém teve culpa nisso! Onde já se viu médicou fazer isso? Morreu, fedeu e pronto, vai pro próximo, agora, médico pagar enterro de paciente morto pra mim é novidade!

Ela continua essa conversa que começa a me entorpecer, me afasto.

É constante esse desabafo dos clientes, é uma fraquesa deles, apesar de tanta força que esse povo tem, ainda há fraquesas, fica tão lógico que eles não têm a quem contar, é tão triste e deprimente que quase me sinto ruim por sugar isso e alimentar meu vício, essa vaidade de precisar escrever.

Ela demora um pouco ainda no balcão, chega o fim do espediente, vou fechar as portas e arrumar as coisas pra ir embora. Quando ela sai eu estou trancando uma das portas e pensando em um título. Ela diz tchau, e fico pensando que ela realmente não está pensando em um título…

Tranco tudo, pego minha mochila e saio.

                Lucas Lins.

Posted by L. L. at 00:39:56 | Permalink | No Comments »

Wednesday, September 10, 2008

Dominando O Oceano.

Me navegaram,
me roubaram,
conquistaram.
 
Minhas águas tornaram-se sal,
minhas brisas, tormentas.
Galeões de madeira velha se arrastaram
em minhas formas, criaram fronteiras.
Astiaram bandeiras sujas,
desceram âncoras.
 
Poluiram águas de pensamentos,
tensionaram egoísmos.
Fizeram-me cuspir pesadelos.
 
Gritaram canções bêbadas,
pintaram meus horizontes,
 
respiraram meu pôr-do-sol.
Respiraram meu pôr-do-sol.
 
Mas ei de resisir:
Oceano, eu te controlo;
suas tempestades, suas marés.
Teus monstros.
 
Teus monstros, tuas lufadas
tuas ressacas, teus piratas.
 
Seus monstros!
 
                Lucas Lins.

(revisado, precisa de mais revisão)

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Visões do Oceano – O Tumor

Naquele momento senti.
No topo da passarela que atravessava a rodovia,
os carros crepitando em velocidade,
o pôr-do-sol em gritantes tons,
a noite cinzenta nascendo em pasteis amargurados.
 
Senti.
 
Os carros passando sob meus pés,
o vento da recente noite já robusto.
Uma  veia da cidade correndo,
o coração dela palpitando
e o pulmão dela me tragando.
 
E eu.
 
No topo, fora do fluxo.
Externo à vida incessante da cidade
me vi um tumor.
Um cancêr malígno avesso a todas as
aspirações da metrópole.
Meus olhos tremiam! Meu coração palpitava
em uma efeverscência de carmim e bemol!
Nesse estado de hiperlucidez
entendi que era tão atroz à cidade
quanto era seu filho.
Eu podia sentir o movimento.
E não fazia parte do movimento!
Longe! Distante!
 
Ao meu próprio movimento!
 
E como elemento externo eu compreendi o caos.
Pois eu, cancêr, o gerava.
E sendo tumor:
 
Amei matar.
 
                Lucas Lins.

(revisado)

Posted by L. L. at 00:12:27 | Permalink | Comments (1) »

Saturday, September 6, 2008

Dominando Oceano

Me navegaram,
me  roubaram,
conquistaram.
 
Minhas águas tornaram-se sal,
minhas brisas, tormentas.
Galeões de madeira velha se arrastaram
em minhas formas, criaram fronteiras.
Astiaram bandeiras sujas,
desceram âncoras.
 
Gritaram canções bêbadas,
pintaram meus horizontes,
 
respiraram meu pôr-do-sol.
Respiraram meu pôr-do-sol.
 
Mas ei de resisir:
Oceano, eu te controlo;
suas tempestades, suas marés.
Teus monstros.
 
O autor apresenta suas armas!
 
                Lucas Lins.
Posted by L. L. at 03:26:01 | Permalink | Comments (1) »

Friday, August 22, 2008

* * *

Algo me fere,
me fere eternamente.

Meus ossos sendo retirados da tumba,
o foço penetrado, meu singelo pedaço de chão agora corrompido.
Pás, artifícios metálicos em punhos de caros amigos.
O cravejar gritante do metal no meu marrom pedregulhoso,
o pé voraz mergulhando a pá entre minha ossada.

Falo da prisão do mundo,
que já não me faz sentir morto.
Nem enterrado.
As pás mordendo o chão em cima dos meus olhos,
do meu crânio.
Rompendo a cúpula de minhas costelas.

Estão me escavando.

Nem ser consumido pelos vermes que escolhi posso.
Até do sono eterno me privam.
Estão a me escavar! Me enterrem!

                Lucas Lins.

Posted by L. L. at 03:47:41 | Permalink | Comments (1) »